1 de 4Ave observada em campo tinha características de duas espécies diferentes — Foto: Ester Ramirez
Ave observada em campo tinha características de duas espécies diferentes — Foto: Ester Ramirez
Foi durante uma viagem de observação de aves no Parque Nacional da Amazônia em Itaituba (PA), que o guia e ornitólogo Pablo Cerqueira notou uma espécie curiosa. Na ocasião, o profissional estava acompanhando um casal de fotógrafos, Ester Ramirez e Marcos Holanda, em um tour para registrar espécies da avifauna brasileira.
Junto do guia local, Gilberto Nascimento o time buscava pela juruva-ruiva (Baryphthengus martii), uma ave de 40 centímetros que chama atenção pelo colorido das penas. Essa espécie apresenta o corpo alaranjado, uma máscara negra na região dos olhos, asas esverdeadas com tons de azul metálico e cauda longa azulada.
Com a vocalização da juruva, Pablo conseguiu atrair a ave pra perto, mas para a surpresa de todos o bicho estava acompanhado de indivíduos de outra espécie, o udu-de-coroa-azul (Momotus momota), uma ave de porte similar, porém de cores, características e gênero distintos.
2 de 4Observação feita em 2015 resultou em uma nova descoberta para a ciência — Foto: Pablo Cerqueira
Observação feita em 2015 resultou em uma nova descoberta para a ciência — Foto: Pablo Cerqueira
“Observei com binóculos e notei algo incomum em uma das juruvas. Percebi que ela tinha marcas azuis na face e essas características não são comuns nessa espécie. De imediato orientei que todos fizessem o máximo de fotos possíveis e de ângulos diferentes, pois sabíamos que estávamos diante de algo que não era nada comum”, conta o ornitólogo.
No mesmo instante, o guia explicou que seria um possível caso de hibridismo, fruto do cruzamento de duas espécies diferentes, nesta questão a juruva-ruiva e o udu-de-coroa-azul. Um dos detalhes que mais chamou atenção é que além das marcais azuis, a espécie observada apresentava a ponta da cauda em forma de raquete, característica única do udu, e que não existe nas juruvas amazônicas.
Após a viagem, que ocorreu em outubro de 2015 Pablo e outros cientistas mergulharam no universo de pesquisas para descobrir mais sobre esse caso da ave diferente observada. Ao longo dos anos o grupo coletou dados históricos, visitou museus brasileiros e avaliou uma série de mídias digitais em duas plataformas online sobre a avifauna, o portal Wikiaves e o eBird. Toda a dedicação resultou em um artigo inédito publicado recentemente pelos profissionais.
3 de 4Udu-de-coroa-azul tem penas azuis rente aos olhos e rabo de raquete — Foto: Pablo Cerqueira
Udu-de-coroa-azul tem penas azuis rente aos olhos e rabo de raquete — Foto: Pablo Cerqueira
“Analisamos cerca de 57 espécimes de museus e mais de 157 fotografias e vídeos nas plataformas digitais e confirmamos que as características não são comuns na espécie e que trata-se mesmo de um híbrido”, comenta.
O curioso, portanto, é que esta descoberta trata-se de um híbrido intergenérico. “O nome científico das espécies é composto por duas partes, o gênero (a primeira parte) e o epíteto específico (a segunda parte). As duas espécies envolvidas no trabalho são Baryphthengus martii e Momotus momota, repare que são duas espécies de gêneros diferentes, ou seja, não estão proximamente relacionadas quanto as que pertencem ao mesmo gênero”, acrescenta Cerqueira.
Na busca pelas plataformas digitais o cientista encontrou outro registro de um possível indivíduo híbrido feito em Rondônia, mas até o momento em que os pesquisadores avaliaram a fotografia para pesquisa ninguém havia percebido que se tratava de um cruzamento de duas espécies.
O ornitólogo acredita que observadores de aves podem, mesmo que por meio de um hobby, auxiliar os trabalhos científicos. Ele reforça ainda que os portais que preservam arquivos de fotos e vídeos enviados por passarinheiros são ferramentas importantes, pois fornecem informações relevantes.
“Com o maior número de olhos atentos em campo a ciência ganha mais fontes de pesquisa de dados, e a comunidade de observadores de aves é beneficiada podendo também conferir onde são os locais em que se pode observar a mais desejadas espécies. Essas plataformas transformam cada observador em um cidadão-cientista, e esta é uma parceria que tem tudo para crescer cada vez mais”, finaliza.
4 de 4Rabo de raquete e penas azuis na face diferem ave da juruva-ruiva — Foto: Arte TG
Rabo de raquete e penas azuis na face diferem ave da juruva-ruiva — Foto: Arte TG
Caso híbrido: juruva-ruiva x udu-de-coroa-azul
A espécie híbrida intergenérica observada pertencia a um grupo familiar. O time reparou que havia pelo menos um indivíduo de juruva-ruiva e outro de udu-de-coroa-azul juntos no mesmo ambiente. Pela vocalização puderam perceber também que outros indivíduos estavam por perto, porém não conseguiram observá-los.
“Essas duas espécies respondem uma ao canto da outra e elas possuem estratégias de reprodução similares e isso pode ser um dos fatores que facilitam o cruzamento entre elas, onde a escassez de parceiros pode acontecer”, afirma o ornitólogo.
Apesar de ser considerado um evento natural, os casos híbridos são um sinal de que fatores externos podem interferir no desenvolvimento das aves e resultar no cruzamento de duas espécies distintas. “O desmatamento e redução do número de indivíduos em uma população são impactos humanos que podem favorecer o encontro e reprodução entre essas espécies diferentes”, complementa.
Não se sabe ainda neste caso específico se o híbrido tem efeito positivo ou negativo. “Esses híbridos são raros entre as duas espécies e apenas com mais dados no futuro é que poderemos saber mais sobre eles.”, acrescenta.
A descoberta é importante até para incentivar mais pesquisas e estudos sobre o assunto. O tema é complexo e gera muitos questionamentos aos cientistas, que pretendem realizar novos projetos para avaliar a extensão de hibridização dessas duas espécies envolvidas. Um dos planos futuros é analisar dados genéticos disponíveis e verificar se existem outros casos.
