
‘Tentaram me matar, me torturaram’, diz jovem sobre PMs em operação na Favela do Moinho
“Tentaram me matar, me torturaram, me deram três facadas”, afirmou o jovem de 18 anos ferido após ação de policiais militares durante operação contra o tráfico de drogas na comunidade da Favela do Moinho, perto da Cracolândia, no Centro de São Paulo, nesta quinta-feira (2).
A declaração do rapaz que acusa os PMs foi dada em um vídeo gravado pela família dele na Santa Casa de Misericórdia, para onde o rapaz foi levado. Na filmagem obtida pela reportagem, o jovem conta que levou 45 pontos na mão direita e que passará por cirurgia. Ele alega que corre risco de perder o movimento da mão devido à gravidade do corte que sofreu durante a agressão.
“Vou passar por uma cirurgia amanhã [sexta]. Estou a ponto de perder o movimento da minha mão. Como que eu vou trabalhar?”, comenta o jovem, que alega ter sido abordado por agentes da PM que invadiram a residência onde mora com os parentes.
A Procuradoria Geral de Justiça informou nesta sexta-feira (3) que a promotora Rosana Colleta, do Ministério Público Militar (MP), irá acompanhar o Inquérito Policial Militar [IPM] da Corregedoria da PM, que vai apurar o crime de suposto abuso de autoridade cometido pelos policiais na comunidade.
A Secretaria de Segurança Pública (SSP) confirmou também nesta sexta que a Corregedoria da Polícia Militar vai “apurar a ocorrência na comunidade do Moinho” e “todos os fatos relacionados”.
1 de 3Rapaz exibe mão direita envolta por plástico para câmera durante filmagem feita por sua família no hospital. Ele alega que levou 45 pontos na mão após ter sido esfaqueado por PM durante operação na Favela do Moinho em São Paulo — Foto: Divulgação/Arquivo pessoal
Rapaz exibe mão direita envolta por plástico para câmera durante filmagem feita por sua família no hospital. Ele alega que levou 45 pontos na mão após ter sido esfaqueado por PM durante operação na Favela do Moinho em São Paulo — Foto: Divulgação/Arquivo pessoal
O que dizem: PM e jovem
Na quinta (2), a pasta da Segurança Pública havia informado que uma equipe do canil da PM fazia uma ação no local de combate ao tráfico de drogas. E que o cão farejador teria indicado a existência de drogas em uma residência e “o rapaz que estava na casa saiu pulando o telhado, quebrando telhas”.
O jovem agredido tem uma versão diferente e, no vídeo gravado pela família no hospital, ele afirma que os policiais “chegaram agredindo os outros, torturando, para arrancar uma informação que nem você mesmo sabe”.
Segundo o rapaz, os PMs ainda tentaram atirar duas vezes quando ele tentou fugir, mas os tiros não saíram.
“Os caras deram tiro, mas a bala não saiu. A bala engasgou. Os caras falaram: ‘você fala ou você morre’”, conta o rapaz. “Eu fui pelo certo e não falei nada, aí os caras ficaram bravos comigo e já pegaram a faca e já foi me furando”.
O rapaz afirma que foi esfaqueado nas duas mãos e mostra no vídeo dois cortes na mão esquerda, exibindo a mão direita protegida por um saco.
“Ia furar minha barriga e eu coloquei a mão. Três facadas que deu. 45 pontos”, relata o jovem, que diz como escapou. “Hoje eu estou vido por Deus, porque parede que foi uma coisa que deu na minha mente: pula, corre, senão você vai morrer. Foi dito e feito quando ele pegou a faca para me furar, eu já corri”.

Promotor será designado para acompanhar desdobramentos da operação policial na favela do Moinho
De acordo com a SSP, depois da ação, moradores começaram a hostilizar os policiais militares, que revidaram com disparos de tiros de borracha e bombas de efeito moral.
Pessoas da comunidade chegaram a atear fogo e tentar bloquear a circulação de carros no viaduto Engenheiro Orlando Gurgel, que passa sobre a favela, para protestar contra a intervenção policial.
Ainda na quinta, a corporação informou que dois PMs foram feridos na ação. Não havia registro de outras pessoas feridas. Também não havia informação sobre drogas apreendidas.
2 de 3Jovem mostra ferimento na mão esquerda, segundo ele, o corte foi causado por um policial militar que o esfaqueou durante operação contra o tráfico de drogas na comunidade onde mora, na Favela do Moinho, Centro de São Paulo — Foto: Divulgação/Arquivo pessoal
Jovem mostra ferimento na mão esquerda, segundo ele, o corte foi causado por um policial militar que o esfaqueou durante operação contra o tráfico de drogas na comunidade onde mora, na Favela do Moinho, Centro de São Paulo — Foto: Divulgação/Arquivo pessoal
Arnóbio Rocha, da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em São Paulo, afirmou que “a Corregedoria da PM tem de apurar se os agentes cometeram o crime de lesão corporal grave contra o jovem.”
“Eu moro na favela, mas eu tenho dignidade”, disse o rapaz. “Eu quero justiça”.
3 de 3Ainda na mão esquerda, rapaz exibe outro corte que, de acordo com ele, foi causado por um PM que o esfaqueou durante operação na Favela do Moinho em São Paulo — Foto: Divulgação/Arquivo pessoal
Ainda na mão esquerda, rapaz exibe outro corte que, de acordo com ele, foi causado por um PM que o esfaqueou durante operação na Favela do Moinho em São Paulo — Foto: Divulgação/Arquivo pessoal
