1 de 3Em quarentena há mais de 100 dias em Jacareí, o empresário mantém rotina de trabalho — Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
Em quarentena há mais de 100 dias em Jacareí, o empresário mantém rotina de trabalho — Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
Construir carreira no mercado financeiro, fundar banco e, depois, investir em iniciativas para pequenos produtores ao lado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), parecem experiências conflitantes para um mesmo currículo. Mas tem sido essa a trajetória do engenheiro Eduardo Moreira.
Nos últimos anos, ele deixou um banco e empresas de investimentos que ajudou a fundar, virando-se contra as “estratégias capitalistas”. Em quarentena há mais de 100 dias em Jacareí, no interior de São Paulo, o empresário mantém uma rotina ativa, com trabalhos focados, principalmente, nas questões sociais.
Um destes projetos é um programa de financiamento popular que tem parceria com o MST para oferecer crédito a pequenos produtores rurais no país. Chamado Finapop, o programa pretende financiar projetos de agricultura familiar com taxas abaixo do padrão do mercado.
“Nesse primeiro projeto, investimos R$ 1 milhão e vamos receber a caderneta de poupança como retorno, em seis anos, e as pessoas que pegaram o dinheiro, também pegaram nessa taxa. É o pobre pegando dinheiro mais barato que o milionário”, explica o empresário.
A mudança radical na carreira foi após Eduardo questionar – e entender – o seu papel em meio aos “modus operandi” das instituições financeiras. “Comecei, de dentro do mercado financeiro, a ensinar educação financeira para as pessoas e ensiná-las a se defender dos bancos e corretoras. Mas, chegou num ponto que o conflito de interesse era tão grande, que só tinha uma maneira disso ser possível: sair do mercado”, afirma.
Desde então, Eduardo Moreira virou a rota de maneira profunda. Não só continua ensinando educação financeira, como, nos últimos anos, ainda tem buscado conhecer de perto a realidade de comunidades mais vulneráveis em favelas, aldeias indígenas e em acampamentos rurais ligados ao MST.
Somente no ano passado, viveu em mais de 20 lugares ao redor do país e, antes da pandemia, iria passar uma temporada em aldeias e acampamentos no Mato Grosso.
“Nunca olhei para trás arrependido do que eu fiz. A parte de mim que era preenchida pelo propósito, era tão maior do que a parte esvaziada, a financeira, que uma compensava a outra”, afirma.
2 de 3Eduardo passar a quarentena em Jacareí ao lado dos três filhos e da esposa, a atriz (e ex-paquita) Juliana Baroni — Foto: Arquivo Pessoal
Eduardo passar a quarentena em Jacareí ao lado dos três filhos e da esposa, a atriz (e ex-paquita) Juliana Baroni — Foto: Arquivo Pessoal
Best seller
A materialização do modo como Eduardo passou a ver o mercado financeiro, está em livros lançados por ele e que já figuraram no topo das listas de vendas no Brasil. Num deles, “O que os donos do poder não querem que você saiba”, qual corroborou para o divórcio com as instituições financeiras, ele denuncia estratégias do sistema financeiro e político do capitalismo. Em outro, “Desigualdade & caminhos para uma sociedade mais justa”, debate caminhos para combater a desigualdade.
Em Jacareí ao lado dos três filhos e da esposa, a atriz e ex-paquita Juliana Baroni, Eduardo acaba de lançar o livro “Economia do desejo: a farsa da tese neoliberal”, desta vez com críticas ao neoliberalismo e defendendo uma economia com base nas necessidades básicas da população.
“O que a gente está vendo em alguns países, como o Brasil, é a defesa de um Estado menor do que você tinha antes e uma proteção aos grandes, maior do que em relação aos pequenos. Ou seja, o que nos espera, provavelmente, é um caos econômico e social nunca visto antes nas camadas mais pobres da população”, avalia Eduardo, numa projeção das consequências que a pandemia deixará na distribuição de renda.
3 de 3Isolado em Jacareí, Eduardo acaba de lançar um novo título: “Economia do desejo: a farsa da tese neoliberal” — Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
Isolado em Jacareí, Eduardo acaba de lançar um novo título: “Economia do desejo: a farsa da tese neoliberal” — Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
Influencer
Eduardo Moreira também tem forte presença no meio digital. Seu canal de vídeos tem quase 400 mil inscritos e trata assuntos como economia e política. Em seu site, ele destaca ter sido eleito um dos três melhores economistas do Brasil por uma revista especializada e também o fato de ter sido o primeiro brasileiro condecorado pela rainha Elizabeth II, no Castelo de Windsor, em 2012.
No fim de maio, numa transmissão pelo Youtube, ganhou visibilidade ao lançar uma hashtag que viralizou nas redes sociais como movimento de oposição ao governo Jair Bolsonaro e em defesa à democracia. A tag #Somos70porcento leva em conta pesquisas de opinião sobre o governo e o sistema democrático. Acabou figurando entre os assuntos mais comentados do Twitter na ocasião, como o apoio de políticos e famosos.
“Essa expressão era algo que já ficava no coletivo das pessoas. E a maioria é crítica ao governo, acredita na ciência, sabe que a terra não é plana, a maioria não quer desmatar a Amazônia. Mas, a maioria não estava agindo como maioria. Porque a minoria, estava agindo como se maioria fosse”, avalia Moreira, que descarta transformar a campanha num manifesto formal.
Numa quarentena produtiva, ele aproveita o sítio que comprou há mais de 10 anos no Vale do Paraíba para recarregar energias e seguir se aprofundando na temática social. Praticando a união que prega, o engenheiro ainda conta com uma companhia pouco provável — para alguns — nestes dias: da ex-esposa e do atual marido dela, convidados para passar uma temporada na propriedade. Uma forma de manterem o isolamento e de todos ficarem perto dos filhos. “Todos estão aqui, protegidos. Eu brinco que é o gabinete do amor”, completa.
