1 de 3Marca de combustível em aeronave — Foto: Divulgação
Marca de combustível em aeronave — Foto: Divulgação
A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e a Agência Nacional de Petróleo (ANP) investigam a suspeita de contaminação de gasolina de aviação (AVGAS) distribuída no Brasil que podem ter causado danos e corrosões em tanques de combustível, bombas, mangueiras e injetores, além de vazamentos em aeronaves de pequeno porte.
Atualmente, cerca de 12 mil aviões com motor a pistão usam a AVGAS _popularmente conhecida como “gasolina azul”_ para voos de táxi-aéreo, particulares ou de instrução no país, segundo a Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves (AOPA).
As causas da suposta adulteração, origem da gasolina e qual substância pode ter contaminado o combustível ainda não foram identificadas. A GloboNews apurou que fiscais da ANP estiveram no Aeroporto Campo de Marte, na Zona Norte da cidade de São Paulo, na quinta-feira (9) e coletaram amostras para testes físico-químicos em laboratório.
Os primeiros relatos sobre a degradação de componentes do sistema de armazenamento e distribuição da gasolina de aviação foram feitos no começo desta semana por pilotos de diversos estados brasileiros, como Rio Grande do Sul, São Paulo e Goiás. Eles citam corrosões agressivas em tanques de aeronaves, juntas, mangueiras, seletoras, bicos injetores, drenos e em outras partes e componentes.

Piloto de Goiânia (GO) mostra o vazamento de gasolina em aeronave
Em um vídeo obtido pela reportagem, um piloto de Goiânia (GO) mostra o vazamento de gasolina por várias partes da aeronave, com manchas na asa e na pista, e também alerta sobre o risco de ficar perto do avião. “Tomem cuidado com esse combustível, isso mata”, afirma. O mesmo foi registrado por outros aviadores, em vídeos e fotos. Em um áudio compartilhado em uma rede social, em um grupo de aviadores, um dos pilotos relata que foi informado por uma oficina mecânica de que 40 aviões estavam com o mesmo problema.
Ao tomar conhecimento das informações na terça-feira (7), a Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves, que representa 15 mil pilotos e donos de 12 mil aeronaves no Brasil, fez contato com algumas oficinas mecânicas, e confirmou as ocorrências. No mesmo dia, a entidade oficiou a ANAC sobre o problema e pediu providências à agência. O presidente da AOPA, Humberto Branco, ressaltou que – mesmo sem registro de acidentes relacionados à suposta adulteração, existe um “risco muito severo e desconhecido, e que a consequência na segurança da aviação pode ser muito grave”.
Na quinta-feira (9), a ANAC publicou um comunicado, chamado de Boletim Especial de Aeronavegabilidade (BEA), para informar a todos os pilotos e proprietários de aeronaves que operem com gasolina de aviação sobre os riscos associados ao uso de “combustível contaminado ou adulterado”. No documento, a ANAC dá recomendações e diz que até a emissão do boletim não possuía informações fáticas que possam confirmar a existência de tal contaminação, tampouco, se confirmada, que tenha agido como fator contribuinte em alguma ocorrência recente”.
Ainda de acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil, a ANP avalia a necessidade de medidas mais rigorosas, que “dependerão da constatação de que há, de fato, uma situação de contaminação do combustível, o tipo, a origem e o período da suposta contaminação, bem como, se seria esta a causa da degradação de componentes”.
2 de 3ANAC investiga adulteração em gasolina usada em aviões no país; imagem mostra mancha de vazamento — Foto: Divulgação
ANAC investiga adulteração em gasolina usada em aviões no país; imagem mostra mancha de vazamento — Foto: Divulgação
Gasolina 100% importada
Atualmente, 100% da gasolina de aviação distribuída em território nacional é importada. Em 2018, a Petrobras interrompeu a produção de gasolina de aviação para obras na planta de Cubatão, na Baixada Santista, que segundo a empresa sofreram atraso por causa da pandemia da Covid-19. A produção deverá ser reiniciada em outubro de 2020. Desde então, a Petrobras compra o combustível de produtores no exterior.
Quando a AVGAS chega no litoral brasileiro, a Petrobras emite um certificado de qualidade, que é enviado para a ANP. No processo de venda da gasolina pela estatal, as distribuidoras emitem um novo boletim de qualidade, que também é enviado pra ANP. É responsabilidade das ANP fiscalizar as revendas.
Em nota, a Petrobras diz que não a única importadora de gasolina de aviação. Os aviadores dizem desconhecer outros fornecedores usados pelo mercado nacional, e até a publicação dessa reportagem a ANP não havia informado a relação de outras importadoras autorizadas a distribuir AVGAS no Brasil.
Rigor nas inspeções pré-voo
A AOPA Brasil informou à GloboNews que aguarda a investigação mais detalhada das autoridades competentes para recomendar a suspensão de voos, mas já orientou todos seus associados que aumentem muito seu rigor nas inspeções pré-voo, principalmente na verificação para detalhes em mangueiras, conectores, juntas e seletoras em busca de indícios de vazamento de combustível.
“Caso haja indício de vazamento, aborte seus voos, documente com fotos, procure sua oficina imediatamente. Além disso, colha amostra do combustível que esteja nos tanques e guarde-a. Entre em contato imediatamente com o revendedor ou distribuidor que abasteceu a aeronave e exija o atestado de qualidade do produto e reporte o problema à ANAC e ao CENIPA”.
A AOPA pede que à ANAC que todos os testes realizados pela Petrobras e distribuidores no combustível importado nos últimos 120 dias sejam divulgados, que novos testes em diversos pontos da cadeia de distribuição, revelando assim que possível seus resultados e que forneça instruções a aviadores, distribuidores, revendedores, operadores e aviadores relativamente a verificações que possam ser conduzidas antes das operações como pronta forma de mitigação de riscos.
3 de 3Aeronave mostra manchas de vazamento de combustível; ANAC investiga adulteração — Foto: Divulgação
Aeronave mostra manchas de vazamento de combustível; ANAC investiga adulteração — Foto: Divulgação
