
Flagrante de sanhaçu-escarlate surpreendeu guia de observação de aves
O mês de julho começou cheio de surpresas para o guia de observação de aves aves Nido Cafezeiro. Entre as mais de 30 espécies que frequentam o comedouro instalado no quintal dele, em Itacaré (BA), um visitante ilustre chamou atenção do observador.
A câmera, estrategicamente posicionada para registrar as aves, flagrou um indivíduo diferente dos demais, com plumagem avermelhada, característica que ajudou na identificação do raro sanhaçu-escarlate (Piranga olivacea). “Quando ele pousou no comedouro eu percebi que não se tratava de uma espécie comum da região, pois não o reconheci. Então enviei o registro para alguns especialistas que identificaram para mim. Foi uma surpresa imensa fazer um flagrante tão inusitado no meu quintal”, conta.
1 de 5Guia de observação fica de plantão no comedouro na expectativa de registrar a ave novamente — Foto: Nido Cafezeiro/Arquivo Pessoal
Guia de observação fica de plantão no comedouro na expectativa de registrar a ave novamente — Foto: Nido Cafezeiro/Arquivo Pessoal
São muitos os motivos para a surpresa. “Essa espécie migra quando é inverno no Hemisfério Norte e verão aqui. Nesse caso, o indivíduo apareceu no auge do nosso inverno, o que é completamente inesperado”, comenta o ornitólogo Luciano Lima.
O especialista destaca ainda a localização do flagrante, outro detalhe que chama a atenção dos pesquisadores. “No período de migração o sanhaçu costuma ir para o noroeste da América do Sul. Aqui no Brasil há registros da ave no extremo oeste da Amazônia. Por isso, a aparição em Itacaré é incoerente com a rota tradicional de migração”, diz.
2 de 5Plumagem vermelha e preta é característica dos machos — Foto: Silmar Primieri/Arquivo Pessoal
Plumagem vermelha e preta é característica dos machos — Foto: Silmar Primieri/Arquivo Pessoal
A questão agora é entender o que aconteceu com a ave. “Nesses casos consideramos o animal como aves vagantes, que podem errar a rota e aparecer fora da distribuição habitual para onde migram, em lugares totalmente inesperados. Provavelmente o indivíduo fez migração reversa, ou seja, passou o ‘período não reprodutivo’ na América do Sul e, na hora de migrar para o Norte, mudou o trajeto”, explica o ornitólogo. “Por ser um único indivíduo é difícil que esse ‘erro’ no trajeto tenha algum efeito para a espécie”, finaliza o especialista.
O indivíduo flagrado por Nido foi visto uma única vez. Desde então o observador não tira os olhos das câmeras e do comedouro. “Estou diariamente de plantão no comedouro e nas redondezas, na esperança de observar a espécie novamente”, comenta.
3 de 5O tom verde toma conta da plumagem do macho durante o outono e o inverno da América do Norte — Foto: Edson Endrigo/Arquivo Pessoal
O tom verde toma conta da plumagem do macho durante o outono e o inverno da América do Norte — Foto: Edson Endrigo/Arquivo Pessoal
Cores da temporada
Além de ser migratório, o sanhaçu-escarlate chama atenção pelas cores da plumagem. Enquanto a fêmea mantém tons esverdeados, os machos mudam a cor de acordo com a estação: as penas vermelhas com asas e cauda negras são substituídas pelo verde durante o outono e o inverno da América do Norte, quando migram para o Sul.
Além da mudança nas cores, a vocalização da ave também se destaca durante a migração e não apenas na época da reprodução.
Uma curiosidade sobre o período reprodutivo é que o casal fica responsável pela segurança do ninho, que abriga de três a cinco ovos azul-esverdeados. A fêmea escolhe o ambiente para a construção, geralmente com sombra, no alto de árvores maduras, e dedica de três a quatro dias para finalizar a ‘obra’, feita com galhos, gramíneas, caules de plantas e raízes. O interior é forrado com grama, fibras vegetais e raízes finas.
4 de 5Este indivíduo foi registrado no Canadá, uma das áreas de ocorrência da espécie — Foto: Silmar Primieri/Arquivo Pessoal
Este indivíduo foi registrado no Canadá, uma das áreas de ocorrência da espécie — Foto: Silmar Primieri/Arquivo Pessoal
Insetos e frutas compõem a dieta da ave, que se alimenta de formigas, moscas, mariposas, borboletas, besouros, gafanhotos, cupins, cigarras, minhocas, aranhas e caracóis. A busca pelo alimento é feita no alto das árvores e a captura, por vezes, acontece enquanto pairam no ar.
Durante a estadia na América do Sul, as aves se juntam a bandos mistos com aves locais
A ave pode ser observada no Canadá, Estados Unidos, México, Cuba, Porto Rico, Guatemala, Nicarágua, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia.
5 de 5Flagrante do sanhaçu-escarlate na Bahia pode ter sido resultado de um erro na rota — Foto: Arte TG
Flagrante do sanhaçu-escarlate na Bahia pode ter sido resultado de um erro na rota — Foto: Arte TG
