Internautas criam grupos nas redes sociais onde procuram viver novas realidades como 'válvulas de escape' durante a pandemia

Pessoas vivem em 'realidade paralela', onde não existe Covid-19

Pessoas vivem em ‘realidade paralela’, onde não existe Covid-19

Neste período de pandemia, muitas pessoas procuram viver em uma espécie de realidade paralela, onde “não existe” a Covid-19. Além disso, alguns sentem tanta falta de eventos como festas ou reuniões em famílias que têm usado as redes sociais para matar a saudade durante o isolamento social.

Por isso, internautas estão criando grupos em redes sociais, onde fazem de conta estar no passado. A analista comercial Flávia Albuquerque faz parte de um grupo de festas universitárias. Em quarentena desde março, a mogiana tem sentido tanta falta que já até se arrumou para curtir uma festa, mas dentro de casa (veja na reportagem acima).

“Já aconteceu de eu me arrumar para ficar em casa assistindo live, para ter mais aquela ‘vibe’ de estar no show. Aí tem um post de ontem de alguém dizendo que perdeu o celular na festa, e eu vou lá e comento, em qualquer horário do dia”, conta Flávia.

Ela diz que os grupos são uma válvula de escape neste período. “Às vezes eu deixo naquela aba do Facebook que só mostra os grupos, e eu só vou vendo posts de grupos, porque no feed acaba tendo muita notícia ruim. Já está acontecendo muita coisa ruim e a gente sabe disso, só que não queremos ficar sendo bombardeados com coisas ruins”.

Já a estudante Fernanda Tiemi Tubamoto, de Suzano, faz parte de um grupo que vive nos anos 2000, sendo que ela nasceu em 2001.

“Tem que ter bastante criatividade. Observamos a linguagem dos outros e reproduzimos essa linguagem. É realmente muito doido. Esse grupo abrange um tempo entre 2000 e 2015, então ele também pega um tempo em que fui mais jovem, usava uma linguagem mais brega na internet. Vira e mexe tem alguns posts de interação, em que as pessoas pedem para citar uma música e elas falam se eu posso entrar na festa ou não”.

Estudante de Suzano explica como é o grupo do qual participa na internet — Foto: Reprodução/TV Diário 1 de 1
Estudante de Suzano explica como é o grupo do qual participa na internet — Foto: Reprodução/TV Diário

Estudante de Suzano explica como é o grupo do qual participa na internet — Foto: Reprodução/TV Diário

Para especialistas, esses grupos também servem para suprir outra necessidade do ser humano: a de estar perto de outra pessoal.

“Nós vivemos um momento totalmente fora da caixa. As pessoas, desde que temos toda uma história de mundo, vivem em grupo. Esse grupo demonstra não só a afetividade, mas também a reunião, a ganância. Ele demonstra tudo dentro dos grupos. E, neste momento de confinamento, você perde tudo isso. Você fica exatamente com a sua unidade de família”, falou a socióloga Sônia Maria Soares Rodrigues Pereira.

“O homem tem essa capacidade muito grande de trabalhar com seu imaginário, e, neste momento em que ele está em confinamento, esse imaginário é estimulado. No seu dia a dia, você deixa o seu imaginário praticamente de lado. Você tem uma vida padronizada. E agora o seu imaginário sai da caixinha”.

A socióloga ainda reforça que usar essas páginas para fugir da realidade é prejudicial e que os grupos devem ser usados com moderação.

“O viver em confinamento é você se recriar. É você colocar uma série de habilidades suas para viver essa realidade e dando condições de, interiormente, você crescer mais, e não crescer em função de um mundo virtual, que não é o real. Você tem que perceber uma série de adjetivos que não pratica, como a empatia. Você está pensando no outro e se colocando no lugar do outro. Observe que essas festas, nada contra festas, mas elas forjam a nossa realidade, o nosso momento, como se você tivesse pegado uma espaçonave e ido para um outro planeta, e você só vai voltar quando tudo isso acabar. Então você percebe que é uma fuga muito grande.”

Por mais surreal que isso pareça, para quem faz parte desses grupos, a explicação é a mesma: é uma maneira de oxigenar a cabeça.

“Além desses grupos, a gente também vê o feed normal do Facebook, vira e mexe recebemos informações de sites de notícias. Então acaba que nós temos noção do que está acontecendo e também disseminamos essas informações, porque é muito importante que as pessoas saibam da realidade”, comentou Fernanda.

CORONAVÍRUS

By Tribuna ABC

Veja Também!