Morreu nesta sexta-feira (17) o serralheiro aposentado Arduíno Heitor Morando, aos 83 anos, por complicações provocadas por coronavírus. O idoso era o último personagem vivo da série de pinturas “Meninos de Brodowski”, em que Candido Portinari (1903–1962) retratou as crianças de sua cidade natal.
Arduíno, que era hipertenso, estava internado em um hospital particular de Ribeirão Preto (SP), onde ficou entubado por dez dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O enterro ocorreu na manhã deste sábado (18) em Brodowski (SP), de acordo com a filha dele, Mírian Morando Munari.
O serralheiro aposentado Arduíno Morando retratado na série ‘Menino de Brodowski’ de Candido Portinari — Foto: Projeto Portinari/Acervo e Érico Andrade/G1
‘O menino de Portinari’
Na fila do banco ou no supermercado, Arduíno era conhecido como “o menino de Portinari”, apelido que o enchia de orgulho ao conversar sobre o quadro, que faz parte de uma coleção particular, mas também está nas paredes da casa em que o idoso vivia, em uma réplica de PVC.
A história dele foi contada pelo G1 em dezembro de 2019 na série especial ‘Raízes de Portinari’.
Da janela de casa, Arduíno conseguia ver a residência da família Portinari, que mais tarde foi transformada em um museu. Vez ou outra, o aposentado cruzava a praça até à exposição, onde contava aos visitantes a história do dia em que foi retratado por Portinari.
O episódio ocorreu em 1946, quando Arduíno tinha 7 anos. Ao ver o menino brincando na rua, Portinari o chamou para dentro de casa, pediu que ele se sentasse em um banco no quintal e, durante dez minutos, eternizou o retrato.
1 de 5O serralheiro aposentado Arduíno Morando retratado em ‘Menino de Brodowski’ (1946), de Candido Portinari — Foto: Érico Andrade/G1
O serralheiro aposentado Arduíno Morando retratado em ‘Menino de Brodowski’ (1946), de Candido Portinari — Foto: Érico Andrade/G1
Na época, Arduíno era amigo do filho de Portinari, João Candido, que lamenta a morte do aposentado e relembra com carinho e saudade dos dias a fio em que passavam brincando juntos nas ruas de terra.
“Toda vez que eu chegava em Brodowksi, não dava dez minutos ele aparecia”, diz João, que nasceu no Rio de Janeiro (RJ), mas passava as férias no interior paulista. “Eu o ensinei a andar de bicicleta. A gente brincava no lago, ia catar gabiroba, ia para a fazenda, saía a cavalo. Era outra vida.”
2 de 5Casa onde Candido Portinari passou a infância se transformou em museu em Brodowski (SP) — Foto: Érico Andrade/G1
Casa onde Candido Portinari passou a infância se transformou em museu em Brodowski (SP) — Foto: Érico Andrade/G1
O professor diz que o último encontro com o colega foi em outubro de 2019, durante a cerimônia que consagrou como cidades-irmãs Brodowski e a italiana Chiampo, na região de Veneto, onde nasceu o pai de Portinari.
João Candido diz que Arduíno estava saudável e animado durante a cerimônia, motivo pelo qual ele foi pego de surpresa quando recebeu a notícia na manhã deste sábado e, por conta da pandemia, não teve a oportunidade de se despedir.
“A vida passa como um filme ao contrário quando você recebe uma notícia dessas”, diz. “É como se um pedaço da minha infância se desgarrasse de mim. Quando se chega a essa idade, você vai tendo sucessivos lutos, e a partida do Arduíno me tocou muito, porque toca em uma infância muito querida.”
3 de 5João Candido Portinari, filho único do renomado artista — Foto: Ares Soares/Universidade de Fortaleza
João Candido Portinari, filho único do renomado artista — Foto: Ares Soares/Universidade de Fortaleza
Arte e reflexão
Em contato constante com a obra do pai por meio do Projeto Portinari, que busca preservar a memória do artista, João Candido diz que a morte do amigo de infância por Covid-19 o fez refletir sobre a série “Meninos de Brodowski”.
“A série retratou crianças em estado de pobreza, o que infelizmente continua. Somos um dos países mais desiguais do mundo. Esta obra é um grito pela justiça social. Se você colocar [os quadros] dos meninos, um ao lado do outro, é uma paulada no coração. Não tem um que estava sorrindo”, analisa.
4 de 5O aposentado Arduíno Heitor Morando, um dos retratados na Série ‘Meninos de Brodowski” — Foto: Érico Andrade/G1
O aposentado Arduíno Heitor Morando, um dos retratados na Série ‘Meninos de Brodowski” — Foto: Érico Andrade/G1
O professor diz que, diferente do Arduíno com quem ele conversou há menos de um ano, a versão infantil dele, eternizada no retrato, revela um semblante de preocupação e apatia, característico dos quadros da série, mas que também está estampado no rosto dos brasileiros durante a pandemia.
“A obra do Portinari é profundamente comprometida com o social, com a fraternidade, o espírito comunitário e o respeito à vida. É uma obra que transmite valores dos quais necessitamos muito neste momento em que o mundo está tão devastado”, reflete.
5 de 5‘Menino de Brodowski’ (óleo sobre papel, 1946), de Candido Portinari — Foto: Acervo Projeto Portinari®
‘Menino de Brodowski’ (óleo sobre papel, 1946), de Candido Portinari — Foto: Acervo Projeto Portinari®
*Sob supervisão de Thaisa Figueiredo
