1 de 3Quadrilha agia em Sorocaba, segundo a investigação — Foto: Reprodução/TV Globo
Quadrilha agia em Sorocaba, segundo a investigação — Foto: Reprodução/TV Globo
Uma quadrilha de agiotas desafia a polícia, o Ministério Público e Justiça, em Sorocaba (SP). Mesmo condenada a 427 anos de prisão, a maioria dos réus continua foragida.
O Fantástico mostrou neste domingo (19) relato de vítimas e os bastidores da investigação, que começou em 2016.
Um dos homens apontados por chefiar o grupo, Jefferson Lucas, chegou a gravar um vídeo quando a defesa conseguiu uma liminar no Supremo Tribuna Federal, em 2019, onde aparece dizendo que emagreceu no tempo em que esteve preso. Ele é réu no processo por agiotagem, organização criminosa, extorsão e lavagem de dinheiro.
“Olha como que a cadeia faz bem para um homem. Se quiser emagrecer, é só ir preso”, disse.
Segundo a promotora Maria Aparecida Castanho, o grupo agia com violência e movimentou cerca de R$ 118 milhões em dois anos. “Era um esquema muito parecido com uma máfia”, afirmou em entrevista ao Fantástico.
De acordo com a apuração, o grupo tinha uma vida confortável, com lojas, carros de luxo e vários imóveis. Em um áudio, Jefferson fala que havia comprado um novo carro e explica que ensinou o filho a emprestar dinheiro.
“As coisas foram acontecendo. Aprendi a emprestar dinheiro do nada. Aí meu filho nasceu, eu ensinei ele, ele está ali emprestando e assim vai.”
2 de 3Parte da quadrilha está foragida em Sorocaba — Foto: Reprodução/TV Globo
Parte da quadrilha está foragida em Sorocaba — Foto: Reprodução/TV Globo
Segundo a polícia, os crimes da família começavam pela agiotagem. Quem emprestava dinheiro deles, a juros altos, tinha que dar um cheque como garantia.
O esquema, conforme a investigação, tornava as pessoas reféns de uma dívida interminável. Os relatos apontam que devedores foram ameaçados e agredidos.
O delegado Rodrigo Ayres, que trabalhou no caso, explica que diversos valores eram emprestados pelo grupo.
“As vítimas, pessoas mais simples, pediam pequenas quantias, mas tivemos também empresários. Um empresário da cidade chegou a ficar devendo mais de R$ 1 milhão para essas pessoas”, detalha.
‘Roleta-russa’
Além de Jefferson Lucas e o filho sucessor, o sistema contava ainda com outros comparsas e cobradores dessas dívidas espalhados pela cidade.
Um vídeo obtido pelo Fantástico mostra uma gravação que seria de uma das cobranças. Em um áudio, uma vítima também conta o que passou.
“Se a gente não pagasse, eles iam até minha casa pegar minha mãe e minha avó. A cobrança deles já não é mais agiotagem. Já é outra coisa.”
Outra vítima relatou que chegou a ser levada ao escritório e teve as roupas tiradas.
“Quando eu cheguei lá ele já estava atrás da mesa com uma pistola na mão. Daí o irmão dele pegou o telefone e falou: ‘pode vir aqui que nós vamos ter que dar baixa num cara aqui’.”
3 de 3Vítima de quadrilha relata cobrança — Foto: Reprodução/TV Globo
Vítima de quadrilha relata cobrança — Foto: Reprodução/TV Globo
O delegado lembra também que uma das vítimas teve uma arma apontada para a cabeça em um esquema de “roleta-russa”, quando teria sido colocada uma munição no tambor. Quem não tinha mais dinheiro, entregava bens.
Ainda segundo as investigações, a quadrilha tinha cerca de 20 empresas para lavar o dinheiro dessas extorsões.
“Eles entraram no ramo imobiliário porque eles tomavam os imóveis de pessoas que não tinham como justificar essas aquisições”, destaca a promotora.
‘Defesa pronta’
Em outro áudio, Jefferson Lucas afirmava que tinha defesa pronta se caso fosse acusado dos crimes.
“Não existe crime. Tudo isso tem que ser provado. Falar até papagaio fala. Advogado vai montar defesa e nós falamos que tem polícia envolvida. Deixa comigo. A gente arma estratégia.”
Operação Alquimia
Em maio de 2018, o Ministério Público e a Policia Civil deram um passo para tentar identificar o grupo. Pai, filho e outros três homens foram presos.
Com eles, a polícia apreendeu dinheiro, 24 carros, um iate, armas e munição. A maioria das vítimas só prestou depoimento depois das prisões. No entanto, a investigação apontou que policiais e promotores teriam sido ameaçados.
“Nós identificamos um esquema mafioso que eles iriam criar situações, versões contra as autoridades”, lembra a promotora.
Soltos pelo STF
Nove meses depois da operação, Jefferson Lucas foi solto e comemorou o habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal.
Na decisão, o ministro Marco Aurélio alegou excesso de prazo para a prisão preventiva. O benefício se estendeu depois a outros quatro integrantes do grupo.
Quando os ministros julgaram o mérito do pedido, a liminar foi cassada. Contudo, apenas Jefferson foi novamente preso por participar de um sequestro e outro acusado ficou detido pelas armas encontradas na casa dele. Os outros homens continuam soltos.
O advogado dos condenados considerou a pena desproporcional e disse que seus clientes acreditam na inocência e que é direito deles não se entregarem até que todos os recursos sejam julgados.
