Com matemática e estatística, pesquisadores descobrem detalhes inéditos sobre a perereca-macaco

Perereca-macaco ou perereca-do-nordeste faz parte de uma família de anfíbios arborícolas que têm padrões de coloração bem diferentes, como o detalhe amarelo alaranjado nas patas — Foto: Ednilza Maranhão/Acervo Pessoal 1 de 5
Perereca-macaco ou perereca-do-nordeste faz parte de uma família de anfíbios arborícolas que têm padrões de coloração bem diferentes, como o detalhe amarelo alaranjado nas patas — Foto: Ednilza Maranhão/Acervo Pessoal

Perereca-macaco ou perereca-do-nordeste faz parte de uma família de anfíbios arborícolas que têm padrões de coloração bem diferentes, como o detalhe amarelo alaranjado nas patas — Foto: Ednilza Maranhão/Acervo Pessoal

Quem diz que a tecnologia é inimiga da natureza não conhece os métodos de trabalho de pesquisas atuais. Especialmente em tempos de pandemia e de dificuldade de ação em campo, o ambiente digital e os bancos de dados online se tornaram grandes propagadores de descobertas.

Uma delas foi realizada recentemente por pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Através da utilização de ferramentas matemáticas e estatísticas que compõem um sistema de programação, os estudiosos descobriram detalhes inéditos sobre possíveis locais de habitação de uma espécie de perereca que, até então, se tinha pouquíssima informações.

A perereca-macaco tem o hábito de espalhar pelo próprio corpo uma mucosa para manter a pele umedecida, o que lhe confere um brilho particular também — Foto: Lucas Gonçalves/Acervo Pessoal 2 de 5
A perereca-macaco tem o hábito de espalhar pelo próprio corpo uma mucosa para manter a pele umedecida, o que lhe confere um brilho particular também — Foto: Lucas Gonçalves/Acervo Pessoal

A perereca-macaco tem o hábito de espalhar pelo próprio corpo uma mucosa para manter a pele umedecida, o que lhe confere um brilho particular também — Foto: Lucas Gonçalves/Acervo Pessoal

O animal investigado foi a Pithecopus nordestinus, um anfíbio conhecido popularmente como perereca-macaco ou perereca-do-nordeste. Sua área de ocorrência, explícita no nome comum e no científico, foi um dos fatores determinantes para ser a escolhida. “Nosso objetivo era trabalhar com um animal bastante emblemático seja pelo fato de ser o anfíbio símbolo do Nordeste do Brasil ou mesmo por não ser contemplado em políticas públicas, por conta dos dados deficientes”, esclarece o Doutor em Zoologia, Lucas Gonçalves, orientador da pesquisa.

Para obter mais informações sobre a espécie, os pesquisadores usaram um programa que consegue mapear as áreas onde o animal já foi encontrado e pontuar regiões onde ele ainda possa habitar. Mas, para isso, informações específicas são necessárias. “Temperatura, umidade, precipitação, radiação, vegetação… A partir desse conjunto de dados ambientais a gente tenta prever, dentro do espaço geográfico, locais onde a espécie pode estar, onde tem as condições para ela ocorrer”, explica o biólogo Felipe Pessoa da Silva, que liderou o estudo.

Locomoção lenta e os raros saltos são incomuns entre as pererecas e por isso a confere o apelido de "macaco" — Foto: Lucas Gonçalves/Acervo Pessoal 3 de 5
Locomoção lenta e os raros saltos são incomuns entre as pererecas e por isso a confere o apelido de “macaco” — Foto: Lucas Gonçalves/Acervo Pessoal

Locomoção lenta e os raros saltos são incomuns entre as pererecas e por isso a confere o apelido de “macaco” — Foto: Lucas Gonçalves/Acervo Pessoal

O programa analisa quais são as condições dos locais de ocorrência confirmados da espécie. No mapa, identifica se há ambientes, como esses que a espécie “gosta”, em outros locais e, assim, define possíveis novas áreas onde ela pode estar presente

A pesquisa, que contou ainda com a autoria de Martin Montes (UFRPE) e Hugo Fernandes-Ferreira (UECE), foi pioneira ao aplicar novas métricas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) para analisar um animal exclusivo do Brasil. O artigo completo descrevendo as descobertas está publicado no site da revista científica “Neotropical Biology and Conservation.

O sucesso na obtenção de respostas pelo sistema só foi possível graças à união de dados de outros pesquisadores parceiros com conceitos bibliográficos e acervos de museus. “O modelo extrapola o dado real para locais onde você não tem informações e identifica a probabilidade estatística da espécie estar nessas novas áreas. O resultado é super aplicável para estratégias de conservação”, destaca Lucas Gonçalves.

Na imagem A, os locais em que a espécie já foi registrada; na imagem B, a adequação de potenciais áreas de ocorrência proposta pelo sistema — Foto: Ednilza Maranhão dos Santos/Acervo 4 de 5
Na imagem A, os locais em que a espécie já foi registrada; na imagem B, a adequação de potenciais áreas de ocorrência proposta pelo sistema — Foto: Ednilza Maranhão dos Santos/Acervo

Na imagem A, os locais em que a espécie já foi registrada; na imagem B, a adequação de potenciais áreas de ocorrência proposta pelo sistema — Foto: Ednilza Maranhão dos Santos/Acervo

Proteger a perereca-macaco é também cuidar de seu habitat. A espécie possui tal nome popular justamente pela prática de viver em árvores e, sendo exclusiva do Nordeste, tem à disposição pouco mais de 6,5% de Mata Atlântica remanescente e pequenas manchas na Caatinga e Cerrado. Mesmo com habitat restrito, o estudo já indica que há muito a se descobrir sobre ela e os resultados da pesquisa auxiliam nesse sentido.

“Se há local com pouca probabilidade de a espécie estar, eu posso gastar menos dinheiro para ir para lá e focar esforços para ir aos locais pontuados. Então esse trabalho pode ajudar outras pessoas que venham a lidar com essa espécie no futuro”, afirma Felipe Pessoa da Silva que, junto com Lucas Gonçalves, já aplica as mesmas métricas para pesquisas envolvendo uma espécie de morcego exclusiva do Cerrado e da Caatinga e para primatas do arco do desmatamento na Amazônia.

Os movimentos lentos são característicos da espécie que também se destaca pela coloração das patas — Foto: Willianilson Pessoa/Arquivo Pessoal 5 de 5
Os movimentos lentos são característicos da espécie que também se destaca pela coloração das patas — Foto: Willianilson Pessoa/Arquivo Pessoal

Os movimentos lentos são característicos da espécie que também se destaca pela coloração das patas — Foto: Willianilson Pessoa/Arquivo Pessoal

By Tribuna ABC

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