Número de mortos pela PM no Vale do Paraíba no primeiro semestre é o maior desde 2005

Viatura da Polícia Militar em Taubaté — Foto: Rauston Naves/Metropolitana Viatura da Polícia Militar em Taubaté — Foto: Rauston Naves/Metropolitana

Viatura da Polícia Militar em Taubaté — Foto: Rauston Naves/Metropolitana

O número de mortos em ações policiais entre janeiro e junho deste ano no Vale do Paraíba é o maior dos últimos 15 anos, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Foram mortas 25 pessoas em ações da polícia.

Os dados foram divulgados pela secretaria no relatório de estatísticas trimestrais na última semana, que trazem os dados de mortes em ações da polícia. Os dados começaram a ser divulgados por região em 2005. Este é o maior número de mortes desde então.

O relatório leva em conta a região do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior -1, que abrange o Vale do Paraíba. No primeiro trimestre de 2020, segundo os dados, foram mortas 17 pessoas por policiais militares em serviço e um por policial de folga. No segundo semestre, sete mortes por policiais militares em serviço.

O número se aproxima do registrado em todo o ano de 2019, quando 30 pessoas foram mortas. De acordo com os dados, o aumento no número de ocorrências de morte por intervenção policial vem crescendo nos últimos seis anos, mas teve um ‘boom’ em 2015.

A maior parte dos casos são de casos envolvendo policiais militares em ações com veículos roubados ou com abordagens de suspeitos que terminam em troca de tiros.

Letalidade policial nos últimos 15 anos
Veja linha histórica do primeiro semestre desde 2005
Fonte: Secretaria de Segurança Pública

O estudante e esportista Carlos Matheus Martins de Moura é parte das estatísticas. Ele foi morto durante uma abordagem da Polícia Militar em Ubatuba em abril deste ano. Segundo o boletim de ocorrência, o caso aconteceu às 18h45 do dia 28 de abril quando dois policiais realizavam uma “tentativa de abordagem a indivíduo”.

No histórico diz que o adolescente se negou a obedecer a ordem dos agentes, sacou uma arma de fogo e fez um disparo contra os policiais que revidaram. Carlos Matheus foi baleado por dois tiros e morreu.

Adolescente foi morto em ação da PM em Ubatuba — Foto: Arquivo Pessoal Adolescente foi morto em ação da PM em Ubatuba — Foto: Arquivo Pessoal

Adolescente foi morto em ação da PM em Ubatuba — Foto: Arquivo Pessoal

A família contesta a versão da polícia. A irmã, Mayara Martins, conta que ele jogava bola com amigos no bairro onde mora quando foi chamado por policiais que o levaram até um beco. No momento da abordagem, um dos colegas chamou a família que foi ao local, mas ao chegar Carlos já havia sido baleado.

O adolescente era estudante e trabalhava com o pai como pintor em obras residenciais. Ele ainda participava de ligas juvenis de surf e futebol. Ele nunca havia sido detido antes da abordagem policial.

Para o professor da FGV e membro do Forum Brasileiro de Segurança Pública, Rafael Alcadipani, a letalidade policial é um sinal de despreparo.

“Uma polícia muito letal é pouco profissional. Ela não consegue atuar para desarticular o crime, na raiz do problema. Isso mostra o descontrole durante as ações”, comenta.

Ele estuda a letalidade policial e questiona o contexto das ações. A maioria das mortes por intervenção acontece com policiais militares durante abordagens a suspeitos ou em situações de roubo. “Não acontecem com criminosos com armas pesadas, em grandes ações. Mas contra pequenos roubadores, muitas vezes sozinhos. Esse é um padrão que levanta questionamentos. Eles, mesmos sozinhos, mesmo sabendo do poder de arma da polícia sempre reagem?”.

Rafael explica que a letalidade é um problema crescente, mas que a pandemia explicaria na região, por exemplo, o índice dos últimos seis meses se aproximar do número de um ano inteiro com a redução da circulação de pessoas, que expos quem já era alvo dessas ações ainda mais.

“O governo precisa entender o que está acontecendo, abrir investigações nos batalhões letais. Mudar a estratégia nos comandos e treinar seus policiais. Se matar resolvesse, estaríamos em um país seguro”.

O que diz a Secretaria de Segurança Pública

Sobre a morte de Carlos Matheus, a pasta informou que instaurou inquérito policial para apurar os fatos e que ainda está colhendo depoimentos e produzindo laudos de perícia. Disse ainda que a Polícia Militar também instaurou inquérito para apurar a conduta dos policiais.

Sobre o aumento do índice de letalidade, a secretaria informou que apura todos os casos e implanta medidas para combater a morte de pessoas em ações da polícia. Em nota, disse ainda que “de janeiro até junho deste ano, 125 policiais civis e militares foram presos e 96 agentes foram demitidos ou expulsos”.

O governo estadual informou também que tem adotado ações, como cursos de atualização com abordagem de direitos humanos e a implantação de câmeras no uniforme policial para conter possíveis abusos.

VEJA A LISTA DE CASOS DE LETALITADE REGISTRADOS PELO G1

By Tribuna ABC

Veja Também!