Cintia, Natalia e Enzo querem trazer visibilidade para a vila em meio às dificuldades estruturais — Foto: Divulgação/SiriFilma
Cintia, Natalia e Enzo querem trazer visibilidade para a vila em meio às dificuldades estruturais — Foto: Divulgação/SiriFilma
Um grupo de moradores da Vila dos Pescadores, em Cubatão (SP), decidiu mostrar seu talento e tornar cenário de produções audiovisuais aquela que é uma das maiores comunidades carentes da cidade. “A SiriFilma vem mostrar o lado bom e bonito da nossa comunidade, e elevar a estima de todos”, afirma Natalia Cristine da Silva Alberto, de 33 anos, moradora do local e uma das idealizadoras do projeto.
Localizada às margens da Via Anchieta, a Vila dos Pescadores tem cerca de 18 mil habitantes e antes era conhecida como Vila Siri – a inspiração para o nome do projeto que seus criadores chamam de “receptivo audiovisual de quebrada”. O SiriFilma teve início em maio, mas só começou a ser divulgado em julho, principalmente em redes sociais.
Além de oferecer a vila como cenário, a SiriFilma quer envolver a comunidade como protagonista. O objetivo é revelar talentos, gerar renda e dar visibilidade ao comércio local, explica Natalia Cristine.
A oficina Querô Comunidade, uma iniciativa que o Instituto Querô realizou em julho de 2019, foi o pontapé inicial da ideia. Além de Natalia, outros quatro moradores – Cintia Neli, de 43 anos; Marcio Santos, de 33; Aline dos Santos, de 27; e Enzo Souza, de 18 – participaram do curso e produziram o documentário ‘Vila dos Pescadores – Da Pesca ao Povo’, que conta um pouco sobre a história do lugar.
Em seguida, essa equipe foi convidada para a gravação de um videoclipe em Cubatão, o ‘Meu Corre’, do grupo P.V.T.S. O convite partiu de Joaquim Eduardo Teixeira, que era produtor local durante a oficina, e passou a ser o mentor do projeto. “O sucesso da SiriFilma é um orgulho para mim. É reflexo direto do entusiasmo e da atitude dos jovens da Vila dos Pescadores”, afirma Teixeira.
Envolver os moradores da Vila dos Pescadores é um dos principais objetivos do SiriFilma — Foto: Divulgação/SiriFilma
Envolver os moradores da Vila dos Pescadores é um dos principais objetivos do SiriFilma — Foto: Divulgação/SiriFilma
Natalia Cristine diz que, assim como os demais, após experimentar um pouco desse universo audiovisual, com o qual nunca havia tido contato, a paixão foi imediata. A equipe da Vila dos Pescadores continuou tendo contato com Joaquim e, aos poucos, deram forma à SiriFilma.
Como tudo é feito de modo voluntário pelos próprios moradores, por enquanto, os principais equipamentos de trabalho têm sido o celular dos participantes. Na busca por ampliar o trabalho, o grupo tem feito postagens nas redes sociais pedindo doações de máquinas fotográficas e microcomputadores.
No Instagram do SiriFilma (@SiriFilma – www.instagram.com/sirifilma/), fotos de comércios locais, residências e outros possíveis cenários, de maneira geral, são postadas como uma grande vitrine para produções audiovisuais. Com isso, se pretende preservar o registro dos próprios moradores e suas histórias. “Temos uma infinidade de possibilidades que unem natureza e paisagens urbanas de quebrada em uma única região”, anuncia uma das postagens de divulgação do SiriFilma.
A assistente social Cintia Neli da Silva Inacio, uma das idealizadoras do projeto, cresceu na Vila dos Pescadores e acredita que essa mobilização é um modo de dar visibilidade ao local. “É uma comunidade que se esforça muito. Aos poucos, vemos os avanços quanto ao comércio, mas ainda precisamos que ocorra a urbanização, que não temos. Sonhamos muito”.
O projeto também trouxe mudanças à rotina do jovem Enzo de Souza, que integra a equipe do SiriFilma. Além de aprender estilos de gravação, edição e fotografia, ele tem planos de seguir carreira nesse segmento. “Para mim, é uma boa oportunidade de começar bem e aprender mais sobre a área, junto com os profissionais”.
Acesso ao cinema
Joaquim Teixeira, o “incentivador externo” da SiriFilma, relembra que, antes, “apenas pessoas mais abastadas cursavam cinema ou produziam filmes no Brasil”. Agora, com a chegada do digital, a produção ficou mais barata. Mesmo assim, “o universo desse mercado ainda é muito distante da realidade brasileira, ainda mais das periferias”, afirma.
Com isso, ele põe em evidência a importância de projetos como o da SiriFilma. “Eles movimentam toda a cadeia cultural da Baixada por meio de oportunidades de trabalho para atores, produtores, técnicos, figurantes, entre outros. Fortalecem a imagem da região como parte de um grande polo produtor de audiovisual no Brasil”.
O documentário ‘Vila dos Pescadores – Da Pesca ao Povo’, produzido a partir do Querô Comunidade pela equipe que hoje constitui a SiriFilma, estreou e foi exibido em dois festivais online. Por ainda estar inscrita em outros eventos, a produção não está disponível na internet.
“O trabalho do Instituto Querô atua justamente nesse sentido, de aproximar a iniciação e o incentivo para a prática audiovisual em camadas populares. Ele torna o acesso e a produção universais”, diz Joaquim. “Todo mundo pode aprender e fazer seus próprios filmes”.
(*) Sob supervisão de Alexandre Lopes, Eduardo Cavalcanti e Lidiane Diniz
Equipe iniciou o projeto durante a pandemia e vem realizando gravações na própria comunidade — Foto: Divulgação/SiriFilma
Equipe iniciou o projeto durante a pandemia e vem realizando gravações na própria comunidade — Foto: Divulgação/SiriFilma
