Uiraçu foi fotografo por monitores ambientais no dia 12 de agosto — Foto: Duco Silva
Uiraçu foi fotografo por monitores ambientais no dia 12 de agosto — Foto: Duco Silva
Durante o monitoramento de um ninho de gavião-de-penacho em Eldorado (SP), na região do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR), os monitores ambientais Maicon Pereira e Carlos Roberto Silva “Duco”, foram surpreendidos com a aparição de outra uma ave de rapina imponente, desta vez, uma águia mais rara e ameaçada: o uiraçu (Morphnus guianensis), também conhecido como uiraçu-falso.
“A gente foi para essa área para monitorar o ninho do gavião-de-penacho, ver se ele estava por lá. Aproveitamos para fotografar outras aves e uma hora a gente sentou para conversar. De repente surgiu um gavião meio preto com as costas brancas, era muito grande. O Duco imediatamente falou ‘ó o gavião, o gavião’. Eu levantei com a câmera e comecei a tentar fotografar”, comenta Maicon Souza Pereira, um dos monitores.
Por questão de segundos, os dois amigos conseguiram registrar uma das espécies mais raras de águias do Brasil, e principalmente do domínio Mata Atlântica, onde ela já foi considerada praticamente extinta e está ameaçadíssima.
“Esse registro feito no PETAR é sensacional, pois o uiraçu é uma espécie bioindicadora, de exigências ecológicas elevadas. É uma espécie sensível a perturbações antrópicas e alterações do ambiente natural. Nas últimas décadas essa águia foi dizimada na Mata Atlântica, desapareceu em várias regiões” – Willian Menq, ornitólogo .
O uiraçu distribuía-se da região Sul da Bahia até o noroeste e nordeste do Rio Grande do Sul, sendo encontrado no passado em toda a Mata Atlântica, em áreas de Cerrado, e claro, em toda a região Amazônica. Mas com a passar dos anos esse rapinante foi sumindo.
Uiraçu é ave arisca e extremamente difícil de ser avistada — Foto: Maicon Pereira
Uiraçu é ave arisca e extremamente difícil de ser avistada — Foto: Maicon Pereira
“Não se tem notícias de ocorrência mais em Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Espírito Santo Mato Grosso do Sul e Goiás, por exemplo. No Cerrado também não se tem mais notícias. O uiraçu é uma espécie extremamente rara. Hoje ele ocorre principalmente na Amazônia, com raríssimos registros em outros domínios como a Mata Atlântica”, acrescenta Willian, especialista em aves de rapina.
Esta não foi a primeira vez que a espécie foi observada na floresta Atlântica do estado de São Paulo. Em 2015 um grupo de observadores da Tailândia fotografou um uiraçu na região do Parque Estadual Intervales. Em 2017, foi registrado um indivíduo na área do PETAR. Mas encontrar essa raridade não é nada fácil. Por isso cada comprovação de sua ocorrência nessa maior área continua de Mata Atlântica do País, formada pelo Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira, Parque Estadual Intervales e Parque Estadual Carlos Botelho, é um grande motivo para se comemorar.
“Esses registros em anos distintos demonstram que a espécie ocorre ali e está estabelecida, é residente. É importante ressaltar que essas áreas de Mata Atlântica são muito visitadas pelos observadores, e ao longo desses últimos seis anos tiveram no máximo quatro registros feitos da espécie. Isso mostra a dificuldade de encontrar esse bicho na natureza. Imagina só uma área que é visitada quase que diariamente por grupos de observadores e pesquisadores e tem só quatro registros da espécie”, comenta Menq.
De acordo com o pesquisador a raridade do uiraçu esta relacionada não apenas ao status da espécie, mas também a dificuldade de detectá-la na floresta. O uiraçu é mais difícil de ser encontrado em uma mata, do que a maior águia do país, a prima harpia (Harpia harpyja), por exemplo.
Isso porque, apesar do grande porte, a espécie apresenta características minuciosas: não plana no ar como os outros grandes gaviões, tem uma vocalização discreta e costuma ficar empoleirada em galhos que são camuflados pela vegetação. “O uiraçu é um bicho muito arisco e tímido à presença humana. Ele dificilmente pousa na borda da mata como a maioria dos outros gaviões florestais fazem. Se percebe a presença humana ele costuma se evadir do local”.
Uiraçu é confundido com harpia, porém é ainda mais raro de ser visto na natureza — Foto: Maicon Pereira
Maicon e Duco há mais de quatro anos realizam o levantamento da avifauna da região do Vale do Ribeira e juntos se dedicam ao monitoramento de ninhos das aves de rapina. Desde 2017, quando avistaram o uiraçu pela primeira vez, eles buscavam pela ave no local. Com esse novo encontro, a procura pela espécie deve aumentar.
“Eu já tinha visto o uiraçu próximo à Caverna do Diabo, mas desta vez foi bem impressionante, pois ele passou bem na frente do ninho do gavião-de-penacho e pousou próximo. E é uma alegria saber que dois grandes rapinantes estão vivendo no mesmo território. Nosso objetivo agora é encontrar o ninho do uiraçu”, comenta Duco.
Os registros feitos pela dupla são importantíssimos, inclusive para a ciência. Mas o que eles comemoram mesmo vai além do que conseguir fotos. “Muito mais importante do que registrar é saber que ele existe ainda aqui, isso é uma felicidade tremenda, pois aqui ele não está extinto”, afirma Maicon.
Os condutores ambientais que guiam observadores de aves reforçam ainda a importância das unidades de conservação para a preservação das espécies e também o apoio das comunidades tradicionais da região.
“Aqui nós temos uma extensa faixa de Mata Atlântica preservada e isso só é possível graças à existência da Fundação Florestal, das unidades de conservação e claro, das pessoas que vivem aqui e nos ajudam a cuidar do que temos de mais rico na nossa região”, finaliza.
Uiraçu pode apresentar três tipos diferentes de plumagem — Foto: Willian Menq
Uiraçu pode apresentar três tipos diferentes de plumagem — Foto: Willian Menq
Harpia “pequena”
O uiraçu é facilmente confundido com o gavião-real, maior águia que existe no Brasil. Apesar de apresentar algumas semelhanças à primeira vista, as espécies possuem diferenças e características distintas que tornam possível a identificação de cada uma.
O uiraçu é menor que a harpia, pode medir até 90 centímetros, enquanto a parente atinge os 105 centímetros. Outra principal diferença entre eles é que o uiraçu possui um penacho que não é bipartido e é formado por uma única pena. Já na harpia ele é composto por duas penas maiores. A coloração também se distingue. O adulto do uiraçu tem a plumagem comum com dorso cinza ao cinza escuro. O pescoço e a cabeça também são acinzentados. E uma detalhe importante é que o uiraçu tem uma máscara negra na face que a harpia não tem.
Uma curiosidade do uiraçu é que a espécie pode apresentar três tipos diferentes de plumagem. Essa mais comum citada acima e outras duas mais escuras: o morfo escuro, em que tem penas negras e o peito barrado; e o morfo escuro extremo, com a coloração é predominantemente negra.
De acordo com o biólogo Willian Menq, outro detalhe pode distinguir o uiraçu da harpia. O uiraçu tem as pernas mais finas e alongadas, enquanto o gavião-real apresenta o tarso mais curto e grosso. O termo uiraçu-falso se dá justamente para diferenciar o uiraçu da harpia, que também é conhecida popularmente por esse nome.
Região do Vale do Ribeira abriga grande diversidade de rapinantes — Foto: Maicon Pereira
Região do Vale do Ribeira abriga grande diversidade de rapinantes — Foto: Maicon Pereira
Reduto dos gaviões
A natureza preservada da região do Vale do Ribeira, na parte sul do estado de São Paulo, ficou popularmente conhecida como o reduto dos gaviões, por abrigar justamente uma diversidade grande desses rapinantes florestais. O registro que comprova a ocorrência do uiraçu no mesmo território do gavião-de-penacho instigou muitos observadores de aves. Mas a presença dessas duas espécies em um mesmo espaço só reafirma o quão rica é a natureza local.
“Essas águias, incluindo os grandes gaviões, não competem entre si nessas áreas florestais. Em um mesmo ambiente cada um tem seu nicho, que é diferenciado pela dieta, estratégia de caça e isso permite que em uma única floresta possam ocorrer mais de uma grande espécie”, explica Willian Menq.
O que você precisa saber sobre esse rapinante
- O termo águia é aplicado às aves de rapina de grande porte da família Accipritidae que geralmente são aves com mais de um quilo e boa envergadura de asas e que possuem garras bem desenvolvidas, especializadas na captura de vertebrados terrestres ou aquáticos. São espécies que constroem ninhos volumosos.
- O uiraçu é mais raro que a harpia, ele é muito parecido com a harpia, porém é menor, mais leve e esbelto, possui cerca de 2 kg e uma envergadura de 1,60. É uma espécie discreta e muito arisca na natureza, ocorre principalmente na floresta Amazônica, sendo raríssima na Mata Atlântica.
- Os observadores, fotógrafos e o ornitólogos podem frequentar um fragmento florestal onde sabidamente existe população de uiraçu, mas é extremamente difícil topar e registrar essa espécie.
- O uiraçu está nacionalmente ameaçado de extinção. É uma das águias mais raras menos conhecidas do Brasil.
