Um vírus é um microrganismo sem célula que precisa de uma para se reproduzir. Na busca por encontrar essa estrutura, ele invade os seres vivos e tenta se infiltrar em uma célula em funcionamento. É nesse simples trajeto percorrido que a capacidade de defesa do organismo, as alterações na parede celular ou até a presença de sistemas de combate aos vírus já instalados definirão se a infecção será bem sucedida.
Todos esses fatores de proteção sofrem influências de diversos elementos que compõem aquele ser humano. No início da pandemia, a idade, a presença de doenças cardiovasculares, problemas respiratórios e até diabetes foram apontados como fatores de alerta, já que poderiam dificultar o combate do organismo ao vírus. Mas o que explicaria um idoso centenário assintomático e jovens não resistindo à doença? Ou a esposa sem comorbidades ter se contaminado e o marido asmático não?
2 de 6É possível que variações genéticas tornem pessoas mais vulneráveis a COVID-19 sejam encontradas em genes ligados a sistema imunológico — Foto: Getty Images via BBC
É possível que variações genéticas tornem pessoas mais vulneráveis a COVID-19 sejam encontradas em genes ligados a sistema imunológico — Foto: Getty Images via BBC
É nas contradições na forma de manifestação do vírus que os cientistas buscam desvendar as variações do genoma. “Genoma significa o DNA total existente em cada célula de um indivíduo. O genoma de cada espécie biológica é único e característico. As pequenas variações resultam em diferenças físicas e metabólicas. Além disso, parte das variações pode ter efeitos no risco para doenças”, explica a professora do Departamento de Genética da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Maria Luiza Petzl-Erler.
Ela, assim como diversos times de pesquisadores brasileiros, estuda as causas genéticas-hereditárias que provocam diferenças de vulnerabilidade, gravidade e sintomas da COVID-19. A pesquisa, liderada pela Rede Genômica do Estado do Paraná, analisa o genoma de centenas de pacientes de COVID-19 comparando formas leve, moderada e grave. “Para detectar as variações genéticas que importam quase sempre é necessário comparar grupos numerosos, de centenas ou mesmo milhares de pessoas”, destaca a pesquisadora.
3 de 6Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, também é uma das instituições responsáveis por pesquisas com a COVID-19 — Foto: USP/Divulgação
Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, também é uma das instituições responsáveis por pesquisas com a COVID-19 — Foto: USP/Divulgação
O geneticista Wilson Araújo da Silva Filho, da USP de Ribeirão Preto, também compõe o mesmo grupo de trabalho de Maria Luiza. Segundo ele, apesar de sabermos que ao variar os grupos de pessoas é possível observar diferenças no comportamento de todas as doenças conhecidas, a pesquisa sobre o coronavírus poderá responder duas perguntas-chave: “quais são os fatores associados a maior ou menor infecção e o que há no indivíduo que explique a evolução clínica variada?”.
Para solucionar questões semelhantes, Lygia da Veiga Pereira, pesquisadora do Instituto de Biociências da USP e Mayana Zatz, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, mudaram o foco de suas pesquisas. “No trabalho com células tronco, passamos a produzir células para infectá-las com o vírus e descobrir compostos que funcionem na manifestação deles. Já no ‘Projeto DNA do Brasil’, vamos sequenciar o genoma de 1.200 indivíduos e identificar fatores genéticos que predispõem as pessoas a terem uma doença mais grave ou mais leve”, explica Lygia da Veiga Pereira.
4 de 6Análises do DNA de pacientes do novo Coronavírus devem demorar anos até que possam apresentar resultados conclusivos e consolidados — Foto: Crédito: Freepik
Análises do DNA de pacientes do novo Coronavírus devem demorar anos até que possam apresentar resultados conclusivos e consolidados — Foto: Crédito: Freepik
No caso da pesquisadora Mayana Zatz, o interesse pela forma com que pessoas portadoras da mesma mutação genética tinham formas diferentes das doenças sempre foi um fator motivador dos estudos. Ela também já investigava o genoma de pessoas acima de 60 anos e até de centenários para entender os fatores que favoreciam a vida saudável e, com a chegada da COVID-19, esse foco de trabalho se tornou precioso para desvendar os rumos da doença.
“Colhemos materiais de autópsia e amostra de casais discordantes (onde um teve a doença com todos os sintomas e o outro não teve absolutamente nada). Agora contamos com mais de 300 amostras, sendo 87 desses casais discordantes e 6 indivíduos centenários”, ressalta.
A pesquisa agora busca aumentar a amostra de dados sobre centenários e gêmeos que foram expostos igualmente ao vírus. Os voluntários podem se inscrever pelo e-mail [email protected]
Análises de mesmo caráter feitas por grupos internacionais recentemente descobriram que portadores do grupo sanguíneo A estavam associados a um risco maior de infecção pelo novo coronavírus, enquanto o grupo O possuía um risco reduzido. O sangue em si não é a diferença, mas sim a forma com que esse sistema tem efeitos na ação de proteínas e até de plaquetas.
Entretanto, pesquisas lideradas pelo laboratório de Mayana Zatz compararam indivíduos com e sem sintomas e não detectaram influências de seus grupos sanguíneos. Diante desse cenário, Maria Luiza Petzl-Erler faz um alerta: “a diferença de risco entre os tipos sanguíneos é pequena e que, com base neles, não é possível saber se uma pessoa terá ou não a forma grave da doença”.
5 de 6Análise genética de pacientes com Covid-19 sugeriu que o tipo sanguíneo poderia influenciar na gravidade da doença — Foto: Quimono/CC0 Creative Commons/Pixabay
Análise genética de pacientes com Covid-19 sugeriu que o tipo sanguíneo poderia influenciar na gravidade da doença — Foto: Quimono/CC0 Creative Commons/Pixabay
Os especialistas esperam que futuras descobertas mais abrangentes permitam identificar pessoas de altíssimo risco para que adotem cuidados mais rigorosos quanto à exposição ao vírus. Compreender a manifestação da doença com relação à genética será também uma forma de promover soluções, como pontua Lygia da Veiga Pereira: “A gente conhece uma variação genética que torna a pessoa resistente ao HIV (vírus da AIDS). Pode ser que exista uma variação genética no caso da COVID-19. Outro aspecto importante dessas pesquisas é entender a interação do vírus com o ser humano e, com isso, desenvolver mais terapias”.
Segundo Mayana Zatz, os estudos feitos no Brasil sobre a COVID-19 buscam detectar os genes de risco e de resistência e reprogramá-los, a partir do sangue de pessoas assintomáticas ou de centenários resistentes, para produzir linhagens celulares. Elas serão infectadas pelo SARS-Cov-2 em laboratórios de máxima segurança e, assim, será possível a avaliação de como o vírus infecta diferentes tecidos. Mas a busca não é apenas de respostas para o coronavírus, de acordo com a pesquisadora, o estudo do genoma é uma ferramenta importante para quebrar com “padrões” em bancos de dados sobre as doenças mundiais.
6 de 6Há hipóteses de que gene capaz de permitir que vírus entrem na célula para se replicar sejam responsáveis pelas variações na manifestação da doença — Foto: Getty Images via BBC
Há hipóteses de que gene capaz de permitir que vírus entrem na célula para se replicar sejam responsáveis pelas variações na manifestação da doença — Foto: Getty Images via BBC
“Vamos publicar um outro trabalho em breve onde o centro do Genoma Humano e de células-tronco da USP sequenciou os genomas de 1.200 pessoas saudáveis com mais de 60 anos. Encontramos mais de um milhão de variantes que não estavam escritas nos bancos, o que mostra a importância de se estudar populações miscigenadas como as nossas. Estamos vendo que há mutações descritas como doenças genéticas que não se manifestam nas nossas populações. Certamente o estudo do genoma vai revolucionar a medicina”, define Mayana Zatz.
Lygia da Veiga Pereira ainda acrescenta: “a gente está vivendo um momento histórico onde a tecnologia de sequenciamento permite a coleta de dados relacionados a milhões de pessoas. Com esse número, a gente vai ficando cada vez mais capaz de fazer essas descobertas. Mas, de uma forma geral, os resultados serão muito precisos para pessoas de ancestralidade branca, porque 80% dos genomas são europeus. E daí a necessidade de incluir outras ancestralidades, de outras populações”, conclui.
