
Motoboy se diz “grato” por arquivamento de caso que apurava se ele tentou roubar PM
“A Justiça está sendo feita”, disse nesta quarta-feira (9) o motoboy André Mezzete, em vídeo gravado para o G1 onde ele conta a sensação de saber do arquivamento do inquérito que o investigava por suspeita de tentar roubar o policial militar Felipe Joaquim, no último dia 28 de agosto, na Zona Norte de São Paulo (veja vídeo acima).
A Justiça de SP entendeu que não há provas de que o entregador cometeu o crime e aceitou o pedido do Ministério Público (MP) para arquivar o caso.
“Recebi uma notícia que tirou um peso gigante das minhas costas, que foi o arquivamento do meu processo, a revogação das medidas cautelares, então… gratidão. De coração, gratidão”, diz André, que também nega ter tentado roubar o soldado da Polícia Militar (PM). “Não tenho nem palavras para expressar, para dizer o quanto sou grato pela verdade aparecer, pela Justiça está sendo feita”.
Na última quarta-feira (2) o entregador já tinha sido solto, também por decisão da Justiça, para responder o inquérito policial em liberdade a pedido do próprio MP. André chegou a ficar cinco dias preso preventivamente por tentativa de assalto contra o soldado da Polícia Militar (PM).
Já na terça (9), a juíza Tania Fiuzza aceitou novo pedido da Promotoria, esse solicitando o arquivamento do caso que apurava se o motoboy tentou assaltar Felipe na rua Marco Rutini, no Tremembé. Vídeos gravados por moradores mostram Felipe, que estava à paisana, abordando André com violência.
As imagens das agressões viralizaram nas redes sociais e foram determinantes para a magistrada entender que não havia provas de que o motoboy tivesse tentado roubar o soldado da Polícia Militar.
As cenas mostram André desarmado e rendido por Felipe, que o agride, xinga, arrasta, aponta a arma para a cabeça dele e ameaça atirar, além de bater com o cano da pistola na sua cabeça. Em todo o momento da gravação, o policial militar acusa o motoboy de fingir estar armado para tentar roubá-lo. O motoboy foi preso pelo crime e ainda teve um corte na testa. O soldado foi afastado das atividades de rua pela Polícia Militar, que apura o caso (veja mais abaixo).
“Grato por quem compartilhou [o vídeo], quem correu junto comigo, em nenhum momento duvidou de mim, então é um enorme sentimento de gratidão”, fala André no vídeo que encaminhou à reportagem comentando o arquivamento do caso contra ele.
Desde que deixou o Centro de Detenção Provisória (CDP), no Belém, Zona Leste, na quarta passada, André diz que só estava aguardando o arquivamento do inquérito para poder voltar a trabalhar e praticar jiu-jitsu.
“Quero voltar a trabalhar, seguir a vida, voltar a fazer meus treinos” disse o motoboy por telefone ao G1. “É uma sensação de alívio”, afirmou.
1 de 1PM aponta arma para motoboy já rendido em São Paulo — Foto: Reprodução/Redes sociais
PM aponta arma para motoboy já rendido em São Paulo — Foto: Reprodução/Redes sociais
O entregador diz que a repercussão do caso e o desfecho do processo fizeram ele voltar a acreditar que existe justiça.
“A pior coisa do mundo é você ser inocente e ter que provar a sua inocência. E você não sabe se vai conseguir ou não”, falou o entregador de 29 anos de idade. “Isso me deu uma luz no fim do túnel. Me deu esperança. A coisa certa sempre vai aparecer. É uma coisa maravilhosa”, declarou.
André definiu o que está sentindo como “a melhor coisa do mundo”: “É um mix de felicidade com alegria, com tudo. Hoje está sendo o melhor dia da minha vida”, afirma.
O motoboy aparece como pardo no registro policial. Como havia dito na semana passada, quando foi solto, ele reafirmou nesta quarta (9) que foi abordado e preso por causa de racismo. E que o soldado mentiu ao dizer que ele havia tentado assaltá-lo, mesmo estando desarmado.
“O cara vê um moreninho, um pretinho numa moto e acha que ele está roubando”, falou o motoboy, que tinha parado a moto e deixado a bolsa térmica no chão para fumar um cigarro de maconha. “Eu não desejo mal para ele. Só quero que a Justiça seja feita, que olhe o que ele errou e pague, nem a mais e nem a menos”.

Justiça arquiva inquérito que apurava se motoboy agredido por PM tentou roubar soldado
Além de competir e dar aulas para crianças como lutador de jiu-jitsu, ele trabalha como entregador para complementar a renda.
O rapaz já tem uma passagem criminal anterior por receptação de carro irregular. Foi condenado por esse crime em 2013, chegando a cumprir a pena com medida restritiva.
Decisão judicial
Ao pedir o arquivamento do caso, o promotor Celso Élio Vannuzini afirmou que “não há qualquer prova segura e insuspeita que permita concluir que o indiciado tivesse feito menção de sacar uma arma de fogo e que estivesse imbuído do propósito de perpetrar crime patrimonial”.
O argumento foi acolhido pela juíza Tania Fiuzza: “acolho a manifestação do Ministério Público como razão de decidir diante da constatação de ausências de elementos aptos a permitir a propositura de ação penal e, com efeito, determino o arquivamento do inquérito policial”, escreveu ela.
2 de 1O soldado escreveu na rede social que não agrediu o motoboy e só usou as técnicas de abordagem da PM — Foto: Reprodução/Redes sociais
O soldado escreveu na rede social que não agrediu o motoboy e só usou as técnicas de abordagem da PM — Foto: Reprodução/Redes sociais
O advogado Paschoal Caruso, que defende André, afirma que “está claro que ele foi vítima de toda uma situação que fizeram contra ele”.
“Esperamos agora que os verdadeiros responsáveis por toda essa situação da qual o Andrezinho foi lamentável e injustamente submetido sejam punidos, ao rigor da lei”, disse.

Vídeo que circula nas redes sociais mostra PM agredindo motoboy em São Paulo
O G1 não conseguiu localizar Felipe para comentar o assunto nesta quarta (9). O soldado foi afastado preventivamente do pela própria corporação para que a Corregedoria da PM apure se ele cometeu abuso de autoridade e falsa comunicação de crime durante a abordagem ao motoboy.
O policial de 30 anos integra a Ronda Ostensiva Com Motocicletas (Rocam). Na semana passada, ao ser procurado, ele respondeu: “Eu não vou dar entrevista para vocês”.
Numa rede social, Felipe chegou a negar que tenha agredido o motoboy. “Agora a pessoa tenta me roubar e eu recebo isso? Agora me fala no vídeo onde eu agredi ele? Em todo vídeo eu segui nosso treinamento”, escreveu o policial no Instagram.
Na delegacia, o soldado acusou o motoboy de fingir que estava armado para tentar assaltá-lo. Felipe falou à Polícia Civil que sacou a arma e se identificou como policial. E que os dois entraram em luta corporal, quando André tentou pegar a pistola dele. E que, devido a isso, os dois se machucaram.
Peritos e especialista em segurança ouvidos pelo G1 divergem do soldado. Eles analisaram as imagens e apontaram ao menos oito falhas que podem ter sido cometidas pelo policial militar de folga durante abordagem.
O Ministério Público e a Secretaria da Segurança Pública (SSP) também analisam outros vídeos de abordagens feitas e gravadas pelo soldado Felipe durante seu trabalho na Rocam. Os órgãos vão apurar se o soldado infringiu alguma lei ao divulgar as imagens de suspeitos presos nas suas redes sociais.

PM que agrediu motoboy no Tremembé foi afastado do cargo
