Arara híbrida é flagrada em Brotas (SP)

Arara híbrida foi fruto do cruzamento de das espécies "canindé" e "vermelha", ambas não ameaçadas, mas com populações diminuindo em locais onde eram comuns — Foto: Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG 1 de 6
Arara híbrida foi fruto do cruzamento de das espécies “canindé” e “vermelha”, ambas não ameaçadas, mas com populações diminuindo em locais onde eram comuns — Foto: Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG

Arara híbrida foi fruto do cruzamento de das espécies “canindé” e “vermelha”, ambas não ameaçadas, mas com populações diminuindo em locais onde eram comuns — Foto: Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG

A pandemia criou barreiras para a circulação humana e também apresentou o amargo sabor do aprisionamento. Enquanto pessoas vivem engaioladas, a inspiração vem ao admirar o voo livre das aves. E foi suprindo a carência de contato com a natureza, através da observação pelas janelas, que a estudante de engenharia agronômica Maria Cecília Sponchiado Rocha, 18, conseguiu flagrar em Brotas (SP) uma arara híbrida, fruto do cruzamento de duas espécies diferentes, um animal incomum na região.

A façanha foi feita através dos olhos colados nas lentes da câmera e do toque preciso para o clique, mas começou com os ouvidos atentos. “Estava em casa quando ouvi os ‘gritos’ da arara muito mais próximos do que o de costume. ‘De cara’, vi que não era nenhuma espécie de arara que eu conhecia. Chamei minha irmã, que é bióloga, e ela disse que se tratava de uma arara híbrida, resultado do cruzamento entre a arara-vermelha (Ara chloropterus) e a arara-canindé (Ara ararauna)”, conta ela.

Arara-canindé e arara-vermelha são as parentes responsáveis pelo híbrido flagrado em Brotas (SP) — Foto: Terra da Gente e Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG 2 de 6
Arara-canindé e arara-vermelha são as parentes responsáveis pelo híbrido flagrado em Brotas (SP) — Foto: Terra da Gente e Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG

Arara-canindé e arara-vermelha são as parentes responsáveis pelo híbrido flagrado em Brotas (SP) — Foto: Terra da Gente e Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG

Com características que misturam as duas espécies referidas, o animal apresenta o peito bem avermelhado, como a primeira ave citada, e o amarelo-dourado do ventre até o final do rabo, detalhe presente na segunda. Um indivíduo tão particular que desde a primeira vez que foi avistado se tornou um objetivo para a estudante.

“Das primeiras vezes, não consegui registros tão bons, pois ela ficou poucos minutos pousada e, como já eram mais de 18h, a luz estava precária. Mas alguns dias depois, quando ela apareceu por volta das 17h40, permaneceu um bom tempo exibindo suas cores e seu canto chamativo”, relembra ela.

Arara híbrida foi flagrada em um ipê roxo localizado em frente à casa da estudante — Foto: Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG 3 de 6
Arara híbrida foi flagrada em um ipê roxo localizado em frente à casa da estudante — Foto: Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG

Arara híbrida foi flagrada em um ipê roxo localizado em frente à casa da estudante — Foto: Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG

A bióloga presidente do Instituto Arara Azul, Neiva Guedes, confirma a identificação feita pela irmã de Maria Cecília. E, apesar da beleza e excentricidade desta ave, descreve que o princípio da formação de indivíduos assim não é tão colorido. Muitas vezes, é causado pela reprodução de araras de diferentes espécies em cativeiros.

“Eu acredito que inicialmente alguma arara híbrida escapou desses lugares e o fato é que, hoje, a gente tem um grupo significativo delas. Eu já acompanho araras aqui na cidade de Campo Grande (MS) desde 1999 e 2000 e, desde 2002, acompanho a reprodução em ambiente urbano de forma espontânea, livres na natureza” comenta.

Neiva Guedes já realizou marcações de filhotes de araras híbridas e o treinamento sobre educação ambiental e conservação em Luque, no Paraguai — Foto: Neiva Guedes/Acervo Pessoal 4 de 6
Neiva Guedes já realizou marcações de filhotes de araras híbridas e o treinamento sobre educação ambiental e conservação em Luque, no Paraguai — Foto: Neiva Guedes/Acervo Pessoal

Neiva Guedes já realizou marcações de filhotes de araras híbridas e o treinamento sobre educação ambiental e conservação em Luque, no Paraguai — Foto: Neiva Guedes/Acervo Pessoal

Os monitoramentos descritos por Neiva fazem parte do “Projeto Aves Urbanas – Araras na Cidade”. Além de identificar o estado de saúde de diversas populações, os acompanhamentos feitos pela iniciativa puderam detectar híbridos e descobrir particularidades desses seres. “A gente acreditava que os híbridos eram estéreis, mas temos visto em Campo Grande que não são. Já acompanhamos filhotes de primeira e segunda geração e observamos também que eles são muito diferentes e que nunca há um igual ao outro”, conta Neiva, que coordena o projeto.

Apesar do sucesso reprodutivo observado, é importante ressaltar que o hibridismo pressupõe cruzamento genético entre espécies que geralmente não poderiam ter descendência, devido aos genes incompatíveis. Processos assim levam à diminuição da diversidade genética, podem afetar a fertilidade dos indivíduos e até tornar os filhotes mais vulneráveis

Curiosidade também é que a ave híbrida observada em Brotas foi sempre vista sozinha, um comportamento que a estudante até ressaltou: “as araras, independentemente da espécie, são animais que geralmente formam casais e passam a viver em pares, porém, essa arara híbrida parece não ter seu par e está sempre solitária”. A presidente do Instituto Arara Azul relata nunca ter observado um comportamento de exclusão dos híbridos, mas afirma que talvez uma quantidade maior de indivíduos e mais estudos poderiam gerar descobertas nesse sentido.

Araras híbridas não parecem ter dificuldade de reprodução e já foram flagradas em diferentes formações de casais — Foto: Edson Diniz/Acervo Pessoal 5 de 6
Araras híbridas não parecem ter dificuldade de reprodução e já foram flagradas em diferentes formações de casais — Foto: Edson Diniz/Acervo Pessoal

Araras híbridas não parecem ter dificuldade de reprodução e já foram flagradas em diferentes formações de casais — Foto: Edson Diniz/Acervo Pessoal

Se a pandemia deixou o contato com a natureza mais restrito, Maria Cecília é a prova de que o isolamento social não impede descobertas e grandes achados! “Só de beija-flores, já observei oito espécies sem sair de casa, com registro de sete delas. Observar aves, mesmo de dentro de casa, é uma forma de manter o vínculo com a natureza em tempos de quarentena”, vibra a estudante.

Fotos de natureza compõem o acervo da estudante que espera, um dia, desenvolver projetos ligados à avifauna da universidade — Foto: Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG 6 de 6
Fotos de natureza compõem o acervo da estudante que espera, um dia, desenvolver projetos ligados à avifauna da universidade — Foto: Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG

Fotos de natureza compõem o acervo da estudante que espera, um dia, desenvolver projetos ligados à avifauna da universidade — Foto: Maria Cecília Sponchiado Rocha/VCnoTG

By Tribuna ABC

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