
Prefeitos citam falta de diálogo como dificuldade nas medidas contra o coronavírus
A nova classificação do Plano São Paulo de retomada econômica passa a valer, oficialmente, nesta segunda-feira (13). Na última sexta, o Governo do Estado anunciou o avanço do Alto Tietê para a fase amarela, que permite maior flexibilização no comércio e em serviços que já estavam em funcionamento. Também podem reabrir, com restrições, bares, restaurantes e similares para consumo local, além de salões de beleza e academias de ginástica.
Mário Denicoli é dono de um restaurante em Mogi das Cruzes, e as mesas do salão estão vazias desde o início da quarentena. A cidade estava classificada, até a última sexta-feira, na fase laranja, que ainda não permitia a retomada desse tipo de serviço.
“Todo mundo está com medo. Se você não entender que o comércio está abrindo de forma gradual e com um processo inteligente, que vai garantir a saúde daquele usuário que vai vir na minha loja, por exemplo, ele vai se retrair e não vai sair de casa. Eu vou abrir minha loja, e ele vai falar: não vou lá porque virou uma bagunça, e eu não vou ter coragem de levar meu filho para comer, por exemplo. É importante que a gente ande devagar, mas ande”, falou Denicoli.
Em Salesópolis, os restaurantes já estão recebendo os clientes. Em um deles, o dono preferiu não liberar as mesas e ainda trabalha com o sistema de entrega. Ele disse que consegue pagar as contas com isso e ainda preservar a saúde dos funcionários e dos clientes.
Salesópolis fica a 45 quilômetros de Mogi das Cruzes e a 106 da capital paulista. De acordo com estimativas do IBGE, o município tem pouco mais de 17 mil habitantes, fica na região metropolitana de São Paulo e ainda preserva um clima de interior, o que é um dos atrativos para turistas.
Quem passou na frente de um restaurante da cidade se deparou com aglomeração de pessoas. Os registros foram do primeiro fim de semana depois que a Prefeitura autorizou a reabertura dos restaurantes.
O prefeito da cidade publicou dois decretos no dia 26 de junho. Na época, o Alto Tietê ainda estava classificado na fase laranja.
O primeiro dizia como deveria ser feita essa retomada e quais medidas de segurança deveriam ser seguidas nos restaurantes. No mesmo dia, pouco tempo depois, mais um decreto, este com as mesmas informações que o anterior e com apenas uma modificação: os estabelecimentos não poderiam funcionar após as 18h.
1 de 1Grande aglomeração foi vista em restaurante de Salesópolis — Foto: Reprodução/TV Diário
Grande aglomeração foi vista em restaurante de Salesópolis — Foto: Reprodução/TV Diário
“[A decisão foi tomada] Baseada no fato da questão econômica, que foi uma das primeiras preocupações, de geração de emprego, e observando que os restaurantes traziam menos riscos do que alguns estabelecimentos que têm muito mais atendimento ao público do que o próprio restaurante”, disse o prefeito de Salesópolis, Vanderlon Oliveira Gomes, que também falou sobre a aglomeração flagrada no restaurante.
“O dono do estabelecimento tinha um número, e a capacidade permitida no decreto ele respeitou, que seria de 40%, inclusive proibindo a entrada de alguns motociclistas. Da mesma forma, outras cidades também tiveram um grande número de motociclistas, e aí vem o direito constitucional de ir e vir. Eu estava recebendo crítica porque havia uma bandeira na cidade, e, segundo alguns internautas, por que a barreira se não pode proibir as pessoas de entrarem na cidade? É uma dificuldade muito grande, até porque o Governo do Estado também não disponibilizou um apoio, por meio de seus órgãos também, para apoiar essas barreiras e, de fato, que a cidade se mantivesse do jeito que nós iniciamos”.
Até o momento, Salesópolis gastou R$ 258.627,11 com o combate ao novo coronavírus. Somente a barreira sanitária, montada nas entradas da cidade, custou R$ 18 mil. Uma empresa de Guararema foi contratada para prestar o serviço por dois meses. O serviço terminou no dia 8 de julho.
Segundo a Prefeitura, Salesópolis tem quatro leitos de enfermaria e nenhum de UTI. O paciente que tiver Covid-19 e precisar de atendimento mais complexo é encaminhado para outras cidades. Um exemplo é o Luzia de Pinho Melo, em Mogi. O hospital estadual é uma das referências para o tratamento da doença. No dia 9 de julho, 55% dos leitos estavam ocupados. A informação faz parte de um levantamento feito pela produção da TV Diário.
Esta mesma pesquisa também mostra a evolução da taxa de ocupação dos leitos no hospital estadual. A taxa era de 70% no dia 21 de maio e chegou a 100% uma semana depois. Em junho, a taxa de ocupação apresentou grande variação, com 72% no dia 4, chegando a 88% no dia 18 e caindo para 64% uma semana depois. No dia 2 de julho, a taxa era de 91%, mas caiu para 55% no dia 9.
Todas as cidades da região têm encarado esse sobe e desce nos números, mas cada município ajuda a formar um único resultado para o Estado, que serve, inclusive, como base para o governo decidir se flexibiliza ou não a quarentena.
“É incoerente uma cidade não atender à recomendação, o decreto do governo do estado, porque somos tratados como uma região. Se uma cidade não faz aquilo que a outra está fazendo, essa que está se privando vai pagar essa conta. Inclusive, uma coisa que também é incoerente é que nós aqui em Mogi, junto com os prefeitos do Alto Tietê, colocamos o horário de funcionamento do comércio para seis horas, e nós tivemos um questionamento do Ministério Público. É um questionamento institucional, mas o questionamento veio para Mogi, Santa Isabel e Arujá. Várias outras cidades não tiveram esse questionamento e estão funcionando seis horas”, falou o prefeito de Mogi das Cruzes, Marcus Melo.
“Antes de tomar algumas decisões aqui, houve algumas reuniões dentro do Condemat (Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê), e, quando falamos da possibilidade de alguma cidade ou outra usar seus critérios, cada uma dentro das suas possibilidades, foi conversado no Condemat que claro que os prefeitos tomariam suas medidas, e o Condemat respeitaria. Então não vejo deslealdade, porque não foi feito nada pelas costas. E nenhum prefeito me ligou dizendo que eu o prejudiquei nisso ou naquilo”, disse o prefeito de Salesópolis.
Porém, de acordo com o prefeito de Mogi, falta diálogo entre todas as partes.
“Quando nós fizemos a nossa lição de casa e as outras cidades não fazem, e cada uma tem sua particularidade, não vou entrar nesse mérito, acaba atrapalhando, no caso, Mogi das Cruzes. Precisa ter coerência. Acho que o que mais falta neste momento é um diálogo, entre todos os atores: poder público, iniciativa privada e a própria população falando sobre a sua particularidade. O papel da Prefeitura e do poder público como um todo é organizar a sociedade, só que temos que respeitar essas individualidades e lembrar que nós continuamos em um momento de quarentena, continuamos na pandemia, para que possamos sair seguros do outro lado”.
No meio desse “fogo cruzado” estão o Mário e uma centena de empresários, que entendem que, por mais amargo que o remédio seja, é importante seguir as regras para que o tratamento tenha efeito.
“É complicado. É quase uma concorrência desleal. Você está seguindo a lei aqui na sua região, passando por todas as dificuldades que estamos passando, e de repente a cidade no entorno, que não é tão longe, abre a possibilidade de qualquer atendimento, sem nenhum tipo de critério. Nosso medo é de impactar a região, de forma que tenhamos que regredir por conta de uma irresponsabilidade desta”.
A produção TV Diário tentou uma posição do Condemat, mas não teve resposta.
