
Estudo mostra que mudança na rotina durante a pandemia elevou glicemia de diabéticos
Diagnosticada com Covid-19 em abril, a instrumentadora cirúrgica Antônia Gonçalina Massoneto, de 65 anos, diz ter passado por momentos de angústia ao ser internada em Ribeirão Preto (SP). Além de ser idosa, ela é diabética, o que segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) é um complicador para o novo coronavírus.
“A minha glicemia é sempre alta, mas eu tomei a insulina todo dia [no hospital]. Lá, ela nem subiu muito, porque eu estava cuidando direitinho. Aqui em casa que é meio relaxado”, diz.
Antônia ficou internada por oito dias e precisou de oxigênio. Hoje, ela está curada, mas redobrou os cuidados com a higiene e a saúde.
1 de 1Diabetes: estudos mostram riscos de postergar o tratamento — Foto: Wikimedia
Diabetes: estudos mostram riscos de postergar o tratamento — Foto: Wikimedia
Menos exercícios e sem consultas
O impacto da pandemia na vida de pessoas diabéticas foi tema de uma pesquisa que reuniu diferentes entidades no mundo todo, incluindo a USP, no Brasil. O estudo foi publicado no dia 3 de julho em uma revista especializada.
Ao todo, 1,7 mil brasileiros receberam um formulário com perguntas sobre alimentação, cuidados diários e uso de medicamentos. Os dados foram colhidos entre 22 de abril e 4 de maio. As respostas apontaram que a mudança na rotina dos participantes levou ao aumento dos índices glicêmicos de 59% deles.
De acordo com Mark Barone, um dos pesquisadores da USP, o resultado do estudo é preocupante porque a piora nos cuidados com a saúde foi apontada ainda no início do isolamento social no Brasil.
A atividade física foi reduzida por 59,5% dos participantes. Segundo o estudo, 48,9% passam mais tempo assistindo TV e 53,5%, na internet.
“De forma geral, se observou um impacto muito importante, por exemplo, em comportamentos relacionados à atividade física, ou seja, o aumento de tempo que essas pessoas com diabetes estão dedicando a comportamentos sedentários, como assistir TV e ficar na internet. A gente sabe que a atividade física está relacionada ao tratamento, aos bons cuidados do diabetes.
Do total, 38,4% adiaram consultas médicas e exames de rotina. Barone afirma que diversos estudos já mostraram que elas são de risco, principalmente se estiverem com a glicemia alta, fora dos parâmetros.
“Pessoas que têm condições crônicas, que devem ser acompanhadas com regularidade, precisam ir às suas consultas e fazer seus exames, principalmente nesse momento, porque elas precisam de ajustes terapêuticos. Já que a rotina mudou, precisa ajustar a dose do remédio ou ter novas orientações sobre alimentação, atividade física, para que elas se mantenham saudáveis.”
O estudo também apontou que dos 64% dos pacientes que recebem insumos do Sistema Único de Saúde (SUS), só 21% receberam os medicamentos para 90 dias, conforme recomendação do Ministério da Saúde.
“A gente entende que, por um lado, foi difícil reorganizar o sistema assim que a pandemia surgiu. Mas, ao mesmo tempo, essas pessoas têm que ser informadas do que fazer, qual assistência procurar. A gente sabe que muitas atividades em telemedicina foram autorizadas, mas como essas pessoas podem acessar essas novas atividades?”, analisa.
