‘Visita Digital’ na Unidade de Referência de Coronavírus, em Limeira — Foto: Adilson Silveira/ Prefeitura de Limeira
‘Visita Digital’ na Unidade de Referência de Coronavírus, em Limeira — Foto: Adilson Silveira/ Prefeitura de Limeira
Chamadas de vídeo são a alternativa encontrada para amenizar o abalo emocional de pacientes infectados pela Covid-19 que estão em tratamento na Unidade de Referência de Coronavírus (URC) de Limeira (SP).
Trata-se do projeto “Visita Digital”, implantado pela psicóloga Suelen Fernandes, cedida pela Santa Casa de Limeira.
A diretora de Urgência e Emergência da Secretaria de Saúde, Maria Fernanda Olívio Dionizio, conta que com a chegada de uma profissional da psicologia a ideia era dar suporte aos profissionais que atuam na URC.
Quando Suelen chegou, a URC tinha apenas uma UTI e a maioria dos pacientes estava inconsciente. Com a inauguração das enfermarias, ela também começou a dar atenção aos pacientes, embora o foco fossem os funcionários.
“Começamos a perceber que o distanciamento da família e das pessoas que os pacientes amam causava grande prejuízo emocional, principalmente por causa da ansiedade”, conta.
Suelen, então, pediu autorização à coordenação da URC para fazer uma ligação do celular dela para um paciente e foi atendida. Celulares não são autorizados. Visitas presenciais de familiares somente ocorrem em algumas situações. A preocupação é evitar ainda mais contaminações.
A coordenação passou a autorizar outras chamadas supervisionadas. Pacientes passaram a relatar à psicóloga, então, que o momento da “Visita Digital” é mais esperado do dia.
Ansiedade da família também é amenizada por meio de projeto, segundo psicóloga — Foto: Adilson Silveira/ Prefeitura de Piracicaba
Ansiedade da família também é amenizada por meio de projeto, segundo psicóloga — Foto: Adilson Silveira/ Prefeitura de Piracicaba
“Assim que os pacientes da UTI são extubados, os próprios médicos pedem que façamos o contato com as famílias. E isso tem ajudado muito”, diz a psicóloga.
As “visitas” por meio do tablet acontecem de segunda a sexta-feira. Todos os pacientes dos leitos clínicos podem participar do projeto, mas ele não é obrigatório.
A ansiedade da família também é amenizada com esse projeto, conta a psicóloga.
Renovação emocional
Há pacientes que ficam internados por três dias, os que ficam uma semana, mas também aqueles que precisam de mais de um mês para se recuperar.
A psicóloga relatou o caso de um paciente que ficou vários dias intubado na UTI. Quando houve a extubação, ainda na UTI, aconteceu a primeira chamada de vídeo com a família.
A psicóloga conta que se surpreendeu ao ver como o paciente se revigorou. Dois dias depois, o médico a chamou e pediu para ela tentar uma nova chamada de vídeo.
“Outros dois dias depois ele estava na enfermaria. O paciente me contou que ter visto a família fez surgir nele uma energia muito grande”, revela. O idoso ficou internado mais de 30 dias, se recuperou e já teve alta.
‘Afeta muito o emocional’
Gilson Persike, que tem 54 anos, tem falado com a esposa praticamente todos os dias. Ele é pastor e está internado desde a semana passada. Ele conta que quando chegou à URC estava com falta de ar, tosse, mal-estar geral, com fadiga e totalmente sem paladar.
“Eu já tinha a confirmação de Covid, mas vi que muita gente estava se recuperando bem. Pensei que seria da mesma forma, mas não. Cada caso é diferente”.
Ele conta que não tinha outros problemas de saúde e sempre levou uma vida saudável. “Mesmo assim, a tomografia mostrou que fiquei com 40% dos pulmões comprometidos”, relata.
“Essa doença não envolve só o físico, mas também o psicológico. Tem que estar focado para sair bem daqui. Além da doença, envolve noites mal dormidas e experiências tristes, como a morte de colega de quarto. Então, tem que estar com o emocional muito bem trabalhado”.
Ele elogia o projeto da “Visita Digital”. “Quando estamos aqui, precisamos muito de um abraço, mas não pode. Mas tem a Suelen com a nossa família pelo tablet e as energias são renovadas”.
