Em quarentena, bióloga divulga natureza da Chapada Diamantina sem sair de casa

Aracuã-de-barriga-branca é uma das aves que aparecem o quintal da bióloga — Foto: Cristine Prates 1 de 6
Aracuã-de-barriga-branca é uma das aves que aparecem o quintal da bióloga — Foto: Cristine Prates

Aracuã-de-barriga-branca é uma das aves que aparecem o quintal da bióloga — Foto: Cristine Prates

O turismo é um dos setores que mais está sendo afetado pela pandemia do Covid-19. Com casos elevados de contaminados, fronteiras fechadas e normas de isolamento, guias e operadores tiveram o trabalho interrompido.

E o que pode parecer um grande pesadelo para muitas pessoas, tem sido ainda também um período de oportunidade para se reinventar. A bióloga e gestora ambiental Cristine Prates, é exemplo disso.

A profissional, que já trabalhou no Centro de Triagem de Animais Silvestres do IBAMA na Paraíba, no Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves do ICMBio e no Projeto de Reintrodução da Ararinha-azul, precisou parar um sonho recente: o de guiar observadores de aves na Chapada Diamantina (BA).

Cristine trabalhando no quintal próximo ao comedouro de aves — Foto: Ciro Albano 2 de 6
Cristine trabalhando no quintal próximo ao comedouro de aves — Foto: Ciro Albano

Cristine trabalhando no quintal próximo ao comedouro de aves — Foto: Ciro Albano

“Eu fiz a minha primeira guiada em novembro de 2019 e em março tive que parar totalmente”, diz. A profissional acompanha o marido e também ornitólogo Ciro Albano em tours de observação de aves pelo Nordeste desde 2013. E desde dessa época já pensava em trabalhar como guia.

“O que mais me despertou essa vontade foi a reação das pessoas em ver uma ave muito esperada. Já tive a oportunidade de ver clientes rindo, chorando, pulando e gritando de alegria, às vezes tudo ao mesmo tempo ao observar um passarinho. Trabalhar para levar até o observador essa felicidade é muito encantador. Eu percebi que apresentar o mundo dos passarinhos para as pessoas que não a conhecem era o meu caminho”, comenta.

Impossibilitada de ir a campo e proporcionar esta alegria presencial às pessoas, Cristine resolveu levar as aves e a natureza para os amantes do meio ambiente sem sair de casa. A bióloga criou um perfil nas redes sociais dedicado às aves da Chapada Diamantina onde reside há três meses. Pela conta virtual, ela divulga fotos, vídeos e ainda realiza transmissões ao vivo das aves que aparecem no comedouro instalado no quintal.

Gralha-cancã também frequenta o quintal para se alimentar — Foto: Cristine Prates 3 de 6
Gralha-cancã também frequenta o quintal para se alimentar — Foto: Cristine Prates

Gralha-cancã também frequenta o quintal para se alimentar — Foto: Cristine Prates

“A minha ideia com o “Birding Chapada Diamantina” é, além de guiar pessoas que já são observadoras, tentar incluir a observação de aves como uma atividade de turismo oferecido na região para todos os tipos de pessoas. Aumentar o número de admiradores das aves é a minha maior missão”, acrescenta.

Em casa, a pesquisadora constrói futuros roteiros para os clientes, estuda mais sobre a Chapada e ainda realiza trabalhos em parceria com agências de turismo de trilhas e cachoeiras.

Um dos grandes objetivos da guia é divulgar não apenas a beleza da natureza e das aves em particular, mas levar informações sobre cada uma delas. “Busco acrescentar informações sobre o comportamento das espécies, área de distribuição e ainda falar alguma curiosidade para enriquecer o conhecimento, pensando sempre numa linguagem acessível”, explica.

A Chapada Diamantina é abrigo de quase 400 espécies da avifauna brasileira, o que significa 50% das aves que ocorrem na Bahia inteira. A população diversa de passaredo se dá principalmente por ter áreas de Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga.

Duas espécies são exclusivas da região, como o papa-formiga-do-sincorá e o tapaculo-da-chapada-diamantina. O local é ainda casa de espécies restritas aos diversos domínios naturais que possui. Atrai observadores de aves principalmente pela variedade de beija-flores, como o chifre-de-ouro, beija-flor-vermelho, beija-flor-marrom e o beija-flor-de-gravata-vermelha.

“O beija-flor-de-gravata-vermelha é uma ave cheia de cores, de cauda dourada, encontros de verdes, um capuz preto e uma gravata de sete cores do arco-íris. É endêmico da Bahia, encontrado apenas no norte da Serra do Espinhaço, habitando os Campos Rupestres aqui da Chapada Diamantina”, comenta.

Beija-flor-de-gravata-vermelha é multicolorido e atrai observadores do mundo todo — Foto: Cristine Prates 4 de 6
Beija-flor-de-gravata-vermelha é multicolorido e atrai observadores do mundo todo — Foto: Cristine Prates

Beija-flor-de-gravata-vermelha é multicolorido e atrai observadores do mundo todo — Foto: Cristine Prates

No quintal, ela e o marido já listaram mais de 100 espécies de aves observadas e ouvidas. No comedouro e bebedouro eles recebem a visita de pelo menos 25 espécies diferentes. Entre os visitantes diários estão o cardeal-do-nordeste, casaca-de-couro, corrupião, periquito-da-caatinga, rabo-branco-rubro, beija-flor-de banda-branca, aracuã-de-barriga-branca entre outros.

Este último, portanto, era uma das espécies que a Cristine mais almejava atrair. O que ela não esperava é que em pouco tempo o bicho fosse se sentir literalmente “em casa”, quase entrando na residência.

“Eu queria muito que o aracuã-de-barriga-branca aparecesse porque é uma ave linda e difícil de ver em campo porque são muito ariscas. No dia que ela foi no comedouro eu fiquei tão feliz que eu quis compartilhar a emoção com todo mundo e foi a partir dessa transmissão que pensei que fazer “lives” seria uma ótima forma de divulgar as aves”.

Aracuã-de-barriga-branca em comedouro na janela da cozinha — Foto: Cristine Prates 5 de 6
Aracuã-de-barriga-branca em comedouro na janela da cozinha — Foto: Cristine Prates

Aracuã-de-barriga-branca em comedouro na janela da cozinha — Foto: Cristine Prates

Todos os dias, às 7 horas da manhã, a ornitóloga faz transmissões pelo Instagram mostrando as aves no comedouros que tem em casa. Além de compartilhar esse momento ao vivo, Cristine conversa com os internautas e dá dicas sobre comedouros. No Facebook e no canal do Youtube a bióloga compartilha ainda materiais registrados antes da pandemia.

Com a divulgação do conhecimento científico de forma popular, a guia busca incentivar as pessoas a documentarem as observações que fazem da natureza.

“Esses dados são super importantes para a ciência e para os tomadores de decisão no nosso país. Informações sobre alimentação, uso de habitat, reprodução, migração são usados para estudar as espécies e para planejar ações de conservação como delimitações de áreas para preservação, projetos de reflorestamento, monitoramento de espécies”, acrescenta.

Pela internet a guia atualmente vende quadros com fotografias de diversas espécies feitas por ela. A ideia é que futuramente outros produtos como camisetas, bonés e livros sobre a biodiversidade da Chapada Diamantina sejam comercializados em parcerias com artistas da região para movimentar a economia local.

A bióloga está vendendo pela internet quadros com fotos de sua autoria — Foto: Cristine Prates 6 de 6
A bióloga está vendendo pela internet quadros com fotos de sua autoria — Foto: Cristine Prates

A bióloga está vendendo pela internet quadros com fotos de sua autoria — Foto: Cristine Prates

By Tribuna ABC

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