1 de 10Profissionais da saúde do interior de SP relatam dificuldades na luta contra a Covid-19 — Foto: Arquivo Pessoal
Profissionais da saúde do interior de SP relatam dificuldades na luta contra a Covid-19 — Foto: Arquivo Pessoal
“Quando vamos para a chácara a cada 15 dias para ver meus filhos, eles perguntam: ‘pai, você está cuidando da Covid?’. Eu respondo que sim e eles falam: ‘pai, estamos rezando toda noite para Deus proteger o senhor e a mamãe’. Isso é emocionante e também doloroso para gente”.
O relato é do enfermeiro Valmir Leme, de 47 anos, que trabalha na área da saúde há 23 anos, mas viu sua rotina de trabalho e até pessoal transformada com a pandemia de Covid-19.
Ao G1, o profissional contou que ele e a esposa, que também é enfermeira, ficam semanas sem ver os filhos para protegê-los do novo inimigo invisível contra qual o mundo todo está lutando.
Para aliviar a tensão, Valmir encontrou um jeito de se aproximar dos pacientes do hospital particular onde trabalha. Ele conversa com cada um deles e diz palavras de apoio que os ajudam na recuperação.
Mas o dilema de lidar com a doença todos os dias vivenciado por Valmir também está fazendo parte da rotina de muitos profissionais da saúde no país. O G1 conversou com outros enfermeiros que trabalham em Sorocaba, interior de São Paulo, e que afirmam que a doença tem mudado a vida de cada um deles.
‘Nenhuma faculdade te prepara’
2 de 10Ana Laura Cassamassimo se formou há pouco mais de um ano e trabalha no setor Covid de um hospital em Sorocaba — Foto: Arquivo Pessoal
Ana Laura Cassamassimo se formou há pouco mais de um ano e trabalha no setor Covid de um hospital em Sorocaba — Foto: Arquivo Pessoal
Quando se formou em enfermagem, há pouco mais de um ano, a enfermeira Ana Laura Cassamassimo Ribas, de 23 anos, não imaginava o que iria enfrentar uma pandemia com mortes no início de sua carreira
A jovem trabalha no setor de Covid-19 na Santa Casa de Sorocaba. Ela relata que lidar com o coronavírus é diferente de tudo que aprendeu na faculdade e de tudo que já havia vivenciado como profissional.
“Nenhuma faculdade prepara os profissionais para lidar com esse tipo de coisa. Ninguém estava preparado para isso. É uma coisa que ninguém imaginava passar. Já tivemos H1N1, dengue, mas uma coisa dessas ninguém estava preparado para lidar. A Covid-19 é totalmente diferente. Tudo. Até a entubação é outra técnica. Uma parada cardíaca a gente tem que agir de outro jeito”, diz.
Ana Laura explicou que os profissionais da unidade receberam um treinamento, no início da pandemia, para saber lidar com a doença. Para dar conta de tanto trabalho, as equipes, que antes trabalhavam seis horas por dia, dobraram o horário e têm uma carga horária de 12 horas.
Com o aumento no número de casos, uma das maiores dificuldades dos profissionais, segundo Ana Laura, é a taxa de ocupação dos leitos para pacientes com Covid-19.
“É assustador. A gente não imaginou que ia precisar de 40 leitos de UTI, que é o que temos hoje. Todos os dias, todos estão ocupados. Isso atrapalha nossa luta, porque ao mesmo tempo que a gente está dando uma alta, a gente está admitindo um novo paciente”.
Para a jovem, o maior desafio na batalha contra o coronavírus são as mortes dos pacientes. Além disso, ela afirma que é muito doloroso ter que dar a notícia para as famílias.
“Lidar com as mortes dos pacientes, para mim, é o mais difícil. Sempre foi. Até antes da Covid. Mas depois é tudo mais intenso, mais complicado. Por mais que não seja um ente querido seu, você está ali prestando um cuidado diário. O mais difícil é pensar que não existe uma família por perto”, diz.
“A família deixa o paciente. Ele interna e aí ela só vai ver quando ele tiver alta ou for a óbito. Até o óbito, o processo de morte é diferente. A família não tem direito ao luto”, diz.
Ana Laura contou ainda que foi a juventude que a motivou a aceitar o trabalho e cuidar dos pacientes com Covid-19. Segundo ela, todos os profissionais do setor foram convidados pela administração do hospital para atenderem esses pacientes.
“Nunca pensei em desistir, muito pelo contrário. Eu sou nova, estou com gás. Se não tivesse pessoas ali, que queiram lidar com isso de frente seria muito pior. Lógico, tem dias que é muito difícil. A gente pensa, às vezes: ‘meu Deus, porque escolhi isso?’. Mas a gente tem um propósito maior. E eu sou apaixonada pelo que eu faço. Quando a gente vê um paciente curado, de alta, lembramos porque estamos aqui aqui”.
3 de 10Ana Laura trabalha no setor Covid da Santa Casa de Sorocaba (SP) — Foto: Arquivo Pessoal
Ana Laura trabalha no setor Covid da Santa Casa de Sorocaba (SP) — Foto: Arquivo Pessoal
Morando sozinha, a enfermeira ainda afirma que a ausência da família tem um ponto positivo, mas também negativo.
“Por um lado é bom porque fico tranquila em saber que vou chegar em casa e não vou estar transmitindo para ninguém. Mas o lado ruim é que isso me afastou muito mais da minha família. A gente tem muito medo de transmitir para as outras pessoas. Às vezes os pacientes falam: ‘estou com saudades da minha família e eu falo: eu também estou’. A gente está abrindo mão de certas coisas pela profissão”, relata.
‘Vivemos também o outro lado’

Equipe médica aplaude técnico de enfermagem que morreu de Covid-19
Trabalhando na área da saúde há 10 anos, a enfermeira de um hospital particular, Lívia Maria Sartorelli, de 33 anos, precisou lidar de perto com a morte por conta da doença. Ela trabalhava e era amiga de Douglas Barbosa, também enfermeiro e que morreu por conta da Covid-19 no mês de abril.
No momento em que o carro funerário fazia o transporte do corpo de Douglas, enfermeiros, médicos e funcionários fizeram um corredor, todos lado a lado, e o aplaudiram.
“Foi muito difícil, sabíamos que ele estava na UTI. Acompanhei todo caso. Tínhamos esperança que ele ia vencer, que ia se recuperar. Foi um choque, na verdade. O pior aconteceu. A gente lá, na linha de frente, ficamos fragilizados para continuar, mas a gente se fortaleceu nisso também. Nunca nos passou pela cabeça recuar”, conta.
Mesmo com o medo, a enfermeira conta que nunca pensou em desistir. Ela afirma que cada dia é uma batalha e que precisou se adaptar às novas rotinas no hospital.
“Dentro do hospital, muitas vezes, o clima é de tensão. Todos trabalhando de máscaras. Não se vê mais os sorrisos, aprendemos a sorrir com os olhos. As histórias de recuperação são o que nos fortalece. O trabalho em equipe, a força e a humanização estão sendo primordiais”.
4 de 10Lívia trabalha no setor Covid-19 de um hospital particular de Sorocaba (SP) — Foto: Arquivo Pessoal
Lívia trabalha no setor Covid-19 de um hospital particular de Sorocaba (SP) — Foto: Arquivo Pessoal
A profissional que morava com os pais, mas se isolou no início da pandemia, afirma que o carinho e a humanização são muito importantes para os pacientes. Lívia relatou que um médico também ficou internado e ela pensava muito que poderia ser ela na cama de hospital.
“Vivenciamos também o outro lado. Perdemos o Douglas, que estava com a gente na linha de frente. Ver os familiares e os colegas de trabalho que não podiam nem ao menos se despedir foi uma das coisas mais tristes que já vivi. Ele é lembrado sempre com muito carinho. Buscamos forças para continuar. Tenho certeza que quando isso acabar, jamais serei a mesma pessoa de quando tudo começou”.
‘Viramos psicólogos uns dos outros’
5 de 10Profissionais da saúde usam equipamentos especiais para trabalharem no setor Covid — Foto: Arquivo Pessoal
Profissionais da saúde usam equipamentos especiais para trabalharem no setor Covid — Foto: Arquivo Pessoal
Para enfrentar os desafios da pandemia, o técnico em enfermagem Cleisson Augusto Padilha, de 26 anos, que é técnico de enfermagem em um hospital particular em Sorocaba, contou ao G1 que os profissionais têm se ajudado como podem e, às vezes, acabam virando até “psicólogos” uns dos outros.
Cleisson contou que a rotina profissional mudou muito. Antes de entrar nos quartos, mesmo que para o menor trabalho que seja, é preciso se proteger com os equipamentos de segurança.
“Emocionalmente é bem complicado, mas ainda bem temos suporte entre a gente e entre a empesa, nos damos forças. Viramos psicólogo um do outro. A gente acaba conversando, se apoiando um no outro. É um medo, insegurança de achar que a gente não pode ter uma coriza porque já acha que é sintoma”, relata.
O técnico em enfermagem garante que a empatia com o paciente é um dos quesitos mais importantes na hora do tratamento.
“A gente faz um juramento perante Deus de que a gente ia cuidar do paciente independentemente do que acontecesse. O medo é constante. Mas ele até ajuda a gente a se policiar, a se proteger mais. A gente, como profissional, tem que se ajudar até na hora de se paramentar”, diz.
Cleisson reforçou ainda que os métodos de isolamento e de higiene são fundamentais no combate à Covid-19 e que as pessoas precisam ter noção da rapidez com que a doença evoluí.
“Eu quero que eles [pacientes] tenham novos domingos em família, quero ajudar meus pacientes a não desistir. É empatia, é querer que a outra pessoa também tenha esse privilegio de lutar pela vida”.
‘Dar forças para eles vencerem’
6 de 10Valmir cuida de pacientes com coronavírus em um hospital de Sorocaba — Foto: Arquivo Peessoal
Valmir cuida de pacientes com coronavírus em um hospital de Sorocaba — Foto: Arquivo Peessoal
“Tenha força”. “Resista, tenha fé”. Há 23 anos, o enfermeiro de Sorocaba Valmir Leme, de 47 anos, trabalha na área da saúde. Na pandemia, passou a ficar na linha de frente ao combate do coronavírus. Mas esse combate também acabou sendo através de palavras de incentivo.
Valmir, atualmente, trabalha em um hospital particular, no setor da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulta e está cuidando dos pacientes com Covid-19 desde o início da pandemia.
Em entrevista ao G1, o enfermeiro contou que costuma trabalhar bastante com a humanização para ajudar os pacientes durante a recuperação. E para Valmir, palavras de incentivo são uma forma importante durante o tratamento.
“A maioria dos pacientes que vai para a UTI fica vários dias lá, longe da família e dos amigos. Então a gente tem que descontrair, dar forças para eles vencerem. Costumo sempre conversar, incentivando eles a ter forças e lutar contra as doenças. A gente que tem mais contato com esses pacientes, precisa se colocar no lugar deles e ter empatia”, diz.
Um dos pacientes atendidos por Valmir foi o Claudinei Marques Júnior, de 48 anos, que ficou 14 dias na UTI da unidade. O gerente de produção relatou ao G1 que foram as palavras de incentivo de Valmir que o ajudaram a lutar e vencer a doença.
“Eu ouvia essas vozes, mas uma que me marcou era de um homem que sempre fala coisas como ‘vai rapaz, resista’. Isso me marcou”, conta o gerente de produção.
E essa voz era a de Valmir, incentivando o paciente a se recuperar. Claudinei contou ao G1 que reencontrou o enfermeiro quando foi para a área de isolamento.
Valmir disse que ficou muito comovido em saber que participou da recuperação de Claudinei de alguma forma. O enfermeiro relembrou que conversou com Claudinei quando ele foi para a UTI e que continuou dizendo palavras de força enquanto o paciente estava desacordado.
“Incentivei ele a ter forças, fé e nunca desistir porque ele ia conseguir vencer essa batalha. Pedi para ele confiar na equipe. Graças à Deus e à força dele e à toda equipe, ele conseguiu se recuperar e hoje está em casa. Fiquei emocionado, muito grato”, comenta.
‘Mensagens do coração e sinceras’
7 de 10Mensagens de apoio em refeições alegram pacientes em Sorocaba — Foto: Arquivo Pessoal
Mensagens de apoio em refeições alegram pacientes em Sorocaba — Foto: Arquivo Pessoal
São com frases positivas e de motivação que o setor de nutrição de um hospital particular de Sorocaba encontrou uma maneira de trazer um pouco de alívio para os pacientes internados no setor Covid.
Sem poder receber visitar, ver a família ou ter algo com o que se distrair, os pacientes têm encontrado nas mensagens bons motivos para sorrir e lutar. Os bilhetes carinhosos são levados junto com as refeições para quem está internado na unidade com diagnóstico ou suspeita de coronavírus.
Em entrevista ao G1, Carina Yananaka, de 38 anos, que é coordenadora do serviço de nutrição, contou que a ideia surgiu depois que a gerente de hotelaria da unidade viu a ação sendo praticada por outros hospitais.
8 de 10Equipe do setor de nutrição de hospital em Sorocaba escreve recados para pacientes — Foto: Arquivo Pessoal
Equipe do setor de nutrição de hospital em Sorocaba escreve recados para pacientes — Foto: Arquivo Pessoal
Como o serviço de nutrição não tem contato com os pacientes, as mensagens foram a maneira encontrada para transmitir o carinho.
“Chamei a equipe e disse que íamos enviar os recadinhos, mas avisei que tinham que ser mensagens do coração, sinceras. Cada um foi criando e teve um resultado positivo”, conta Carina.
A ação tomou uma proporção gigantesca e os profissionais da saúde começaram a levar os cartões para casa e pedir ajuda aos familiares para escrever os recados.
A coordenadora contou ainda que muitos pacientes relataram que estão guardando os recados. Além dos pacientes em isolamento, as crianças internadas na unidade também estão recebendo os recados carinhosos.
“Uma das funcionárias levou a ideia para casa e as filhas começaram a escrever. Uma colaboradora perdeu o marido e escrever os recados foi uma terapia para ela. Não faz bem só para quem recebe, mas também para quem está fazendo. O detalhe mais legal é que é tudo feito a mão, com muito carinho”.
9 de 10Amigos e parentes de profissionais da saúde ajudam a escrever mensagens para pacientes — Foto: Arquivo Pessoal
Amigos e parentes de profissionais da saúde ajudam a escrever mensagens para pacientes — Foto: Arquivo Pessoal
‘Nunca pensei em desistir’
10 de 10Penélope Aparecida Esquerdo é responsável pelo setor Covid em um hospital público de Sorocaba — Foto: Arquivo Pessoal
Penélope Aparecida Esquerdo é responsável pelo setor Covid em um hospital público de Sorocaba — Foto: Arquivo Pessoal
Penélope Aparecida Esquerdo Fernandes de Oliveira, de 37 anos, é responsável pelo setor de Covid-19 de um hospital público de Sorocaba desde o início da pandemia. Ela conta que a doença mudou o convívio com os familiares e também alterou o dia a dia no hospital.
A enfermeira relatou também que, muitas vezes, os cuidados emocionais com os pacientes com Covid-19 são até maiores dos que são usados com pacientes internados com outras enfermidades.
“Boas ações e empatia em qualquer situação são muito bem-vindas. É uma ajuda que hoje a gente se esforça para dar uma necessidade maior desses pacientes que, além de estarem lutando contra essa doença, se encontram sozinhos em relação aos seus familiares”, diz.
Além disso, Penélope garante que se preocupa e cuida de toda a equipe responsável pelo setor. Segundo ela, a preocupação é com a saúde e com o bem-estar de cada colaborador.
“Nunca pensei em desistir da minha profissão. Por nenhum motivo na vida eu pensei em desistir, muito menos por conta da pandemia. É pra isso que eu estudei, é para isso que me formei e encaro essa profissão que tanto amo. Jamais vou pensar em desistir. Nessa luta eu vou até o final”.
Veja mais notícias da região G1 Sorocaba e Jundiaí
