Guarda Municipal espancado ao averiguar aglomeração diz que não teve tempo de conversar com grupo: 'Só lembro de ter levado uma pancada'

O guarda municipal que foi espancado enquanto averiguava uma aglomeração na madrugada de sábado (18) no Parque Botyra Camorim Gatti, em Mogi das Cruzes, diz que foi atacado logo que chegou ao local e que sequer teve tempo de conversar com o grupo.

Marcelo Moreno da Costa, que tem 56 anos e atua na corporação há 17, diz que foi agredido e desmaiou assim que desceu da viatura. Um vídeo gravado por pessoas que estavam no local mostra que o GCM continuou sendo espancado desacordado por, pelo menos, 10 pessoas (assista abaixo).

Ele declara que as retaliações à guarda municipal fazem parte da rotina de trabalho, mas que essa foi a primeira vez que sofreu uma agressão física grave. Marcelo foi afastado por atestado médico e ainda não tem previsão de quando retornará às atividades.

“Só me lembro de ter levado uma pancada e ter ido ao solo. Não me lembro de mais nada. Geralmente tem retaliação, atiram coisas na viatura, agridem a gente verbalmente, mas na maneira que aconteceu foi a primeira vez e eu espero que seja a última. Que Deus quiser, que seja a última”.

Vídeo mostra que guarda municipal continuou sendo agredido por diversas pessoas mesmo desacordado — Foto: Reprodução/TV Diário 1 de 3
Vídeo mostra que guarda municipal continuou sendo agredido por diversas pessoas mesmo desacordado — Foto: Reprodução/TV Diário

Vídeo mostra que guarda municipal continuou sendo agredido por diversas pessoas mesmo desacordado — Foto: Reprodução/TV Diário

Um operador de telemarketing de 20 anos, identificado como um dos agressores, foi detido em flagrante e está na cadeia de Mogi das Cruzes. Outros dois suspeitos foram localizados e um deles prestou depoimento nesta segunda-feira (20).

Durante as agressões, de acordo com informações da polícia, os suspeitos também levaram um spray de pimenta, um bastão e parte do uniforme do GCM. A Prefeitura de Mogi informou, em nota, que está prestando todo apoio ao guarda ferido.

Guarda municipal é espancado ao dispersar aglomeração em Mogi das Cruzes (SP)

Guarda municipal é espancado ao dispersar aglomeração em Mogi das Cruzes (SP)

Após o episódio, nesta segunda-feira (20), cerca de 160 guardas participaram de uma manifestação em frente à Prefeitura, segundo informações da Associação da Guarda Municipal de Mogi das Cruzes e Região.

De acordo com o advogado Carlos Alberto Zambotto, representante jurídico da Associação, o rádio da viatura em que Marcelo e a colega estavam falhou no momento da agressão, impedindo que ela acionasse apoio imediatamente.

Ele afirma que, desde outubro, a categoria pede pela digitalização do sistema, por melhorias nas condições de segurança do trabalho, além da disponibilização de armas aos guardas.

O secretário municipal de Segurança, Paulo Roberto Madureira Sales diz que aguarda por uma verba do Governo Federal para a modernização do sistema de rádio e afirma que espera pela conclusão de cursos preparatórios para que os agentes tenham acesso aos armamentos.

A agressão

O guarda relata que no sábado (18) participava de uma operação conjunta com a Polícia Militar para combater aglomerações, consumo de bebidas alcoólicas e entorpecentes em ambientes públicos de Mogi das Cruzes.

Ele estava na viatura com uma guarda quando recebeu a denúncia de que havia um grupo de pessoas na região do Centro Cívico. A equipe foi até o local para averiguar e, segundo Marcelo, a viatura foi atacada logo que chegou ao parque.

“Estávamos há 20 ou 30 metros das outras viaturas. Escutamos um barulho forte na viatura e na hora não dava pra distinguir o que era. Infelizmente a gente teve que parar. Na hora que nós paramos a viatura, o pessoal já veio para cima da gente”.

O guarda afirma que sentiu uma pancada na cabeça e que caiu no chão desmaiado. Ele relata que as agressões continuaram, mas que não se lembra. No hospital passou por exames de tomografia da face e raio-x.

“Graças a Deus não aconteceu nada de pior, não houve nenhuma fratura. Sofri luxações no rosto, que está bem inchado, olho roxo por causa do chute e muita dor nas costelas. Levei muitos chutes”, diz Moreno.

Para ele, a maior preocupação é com a família. A expectativa de Marcelo é que o caso fique como exemplo para a população e que os episódios não se repitam.

“A gente fica preocupado. O primeiro pensamento que vem é a família. Minha preocupação é só a minha família, mas na hora que eu me recuperar eu volto para trabalhar e volto para a rua novamente. A gente está aí para proteger o cidadão de bem”.

“Eu espero que, com essas imagens aí, esse pessoal que gosta de fazer pancadão, que gosta de fazer essas bagunças na rua, que pense um pouco antes de fazer esse tipo de coisa”, conclui.

Protesto e reivindicações

Nesta segunda-feira (20) a Associação dos Guardas Municipais de Mogi das Cruzes participou de uma reunião com o prefeito Marcus Melo. Na ocasião, os GCMs puderam manifestar insatisfações e preocupações da corporação. Entre os problemas relatados, segundo Zambotto, está, justamente, a falta de segurança.

“[As agressões] infelizmente, são mais comuns do que a gente imagina. A gente tem aqui, em média, de seis a sete agressões por mês, maiores ou menores. As vezes, um simples empurrão é uma agressão física. Agressão verbal é todos os dias”, declara.

Ele diz que a falta de equipamentos e sistemas adequados é uma das principais causas do problema. Para o advogado, se o rádio da viatura não tivesse falhado, a equipe poderia ter pedido ajuda e impedido que as consequências fossem mais graves.

“A guarda vendo aquela ocorrência, tentou várias vezes pedir apoio, mas o rádio não funcionava. Eles estão praticamente mudos há mais de um mês”, diz o advogado.

“Você imagina eles saírem daqui para uma região bem distante, um Piatã, um Parque São Martinho, Taiaçupeba. Lugares mais isolados, mais precária a comunicação. Se tivesse acontecido isso nessa região, esses GCMs poderiam estar mortos”.

Zambotto também destaca a falta de armamento como uma preocupação. Ele explica que a guarda não é armada e que só possuem o equipamento os agentes que fizeram a aquisição por conta própria e que conseguiram na Justiça o direito de usá-lo em serviço.

“Alguns usam armas porque a gente entra com salvo-conduto para que o armamento particular deles possa ser usado. Para que eles não tenham problema com a lei, entramos com um salvo-conduto e o judiciário permite que eles façam uso. Nem todos tem dinheiro para investir em uma arma. Isso deveria partir da Prefeitura”.

Em outubro a Associação protocolou um ofício pedindo melhoras à administração municipal, de acordo com Carlos. Após a agressão sofrida por Marcelo, a expectativa dele é que os problemas recebam mais atenção e sejam solucionados.

“O que a gente está pedindo é que eles tenham condições, treinamento, armamento. Que tenham condições de trabalhar. É o que nós pedimos. Mais de 15% de efetivo da guarda civil municipal está afastada por problemas psicológicos, depressão, estresse, por conta de tudo isso. É pressão da função deles e a pressão hierárquica que eles sofrem dentro da GCM”, completa.

O secretário Sales confirma que existam falhas no sistema de rádio de toda a Prefeitura, mas declara que já existe um projeto para resolvê-las. A solução, segundo ele, está na digitalização do sinal, o que será possível após a liberação de verbas do Governo Federal.

“Já tem um processo de licitação que está reformando toda rede para digital, só que esse processo custa em torno de R$ 7 milhões. Atualmente a rede de rádio deles é precária mesmo, de toda a Prefeitura, não só da Guarda. Do Samu, da parte da Saúde, do Serviços Urbano, parte da Educação, do transporte. Vários setores. Ocorre que existe um processo licitatório que são 540 rádios de comunicação. Vão ser colocadas três repetidoras”, diz.

Guardas municipais participaram de manifestação em frente à Prefeitura de Mogi das Cruzes nesta segunda-feira — Foto: Reprodução/TV Diário 2 de 3
Guardas municipais participaram de manifestação em frente à Prefeitura de Mogi das Cruzes nesta segunda-feira — Foto: Reprodução/TV Diário

Guardas municipais participaram de manifestação em frente à Prefeitura de Mogi das Cruzes nesta segunda-feira — Foto: Reprodução/TV Diário

Paulo diz que o valor deveria ser liberado em março, mas que sofreu atraso por causa da pandemia do coronavírus. Ele afirma que a Prefeitura recebeu um ‘sinal verde’ na última semana e que espera o recebimento do dinheiro para que a digitalização seja realizada.

“Hoje nós temos somente uma repetidora no Pico do Urubu e tem muitos buracos negros em Mogi das Cruzes. A ideia de digitalizar toda a rede da Prefeitura para evitar esses buracos negros e instalar, inclusive, mais três repetidoras na cidade. Se cair até o final do mês, o projeto já está pronto. Já damos início ao pregão e, no máximo, 30 dias está resolvido o problema”, completa o secretário.

Já sobre a liberação de armas para a corporação, o secretário afirma que a Prefeitura já recebeu autorização do Exército para dar início ao processo e que, inclusive, a cidade conta com 60 pistolas doadas pela Polícia Civil. Agora a Secretaria segue os trâmites legais para que os agentes possam trabalhar armados.

“Toda essa fase está suportada. Ocorre que para utilizar a arma de fogo da guarda municipal, a Lei Federal exige três procedimentos: que ele passe por curso psicológico, teórico e prático. Esses cursos levam, cada um deles, média de duas a três semanas. Nós já fizemos todas essas etapas”.

“Foi feito exame psicológico, alguns foram aprovados, outros foram reprovados. Já fizemos teórico e praticamente dois terços do efetivo já passaram pelo curso prático. Hoje, por sinal, está começando a penúltima ou última turma. Tem mais de 50% que passaram por esse curso”, Sales diz que após a conclusão, os laudos serão encaminhados à Polícia Federal.

Sobre a afirmação de que 15% do efetivo estaria afastado por problemas psicológicos, o secretário nega. “Quanto a procedimento psiquiátrico, não procede isso aí. Tem uma profissional e mais dois ou três com esse problema”, conclui.

GCM de Mogi das Cruzes relata que espancado ao averiguar aglomeração — Foto: Marcelo Moreno Costa/Arquivo Pessoal 3 de 3
GCM de Mogi das Cruzes relata que espancado ao averiguar aglomeração — Foto: Marcelo Moreno Costa/Arquivo Pessoal

GCM de Mogi das Cruzes relata que espancado ao averiguar aglomeração — Foto: Marcelo Moreno Costa/Arquivo Pessoal

By Tribuna ABC

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