Índice de adesão às medidas de precaução é insatisfatório, diz secretário da Saúde de Rio Claro


G1 conversou com Maurício Monteiro sobre o panorama da saúde do município no enfrentamento da Covid-19. Veja curva de contágio e entrevista completa abaixo. Secretário da Saúde de Rio Claro, Maurício Monteiro
Assessoria de imprensa de Rio Claro/Divulgação
Depois de manter suspensas as flexibilizações dos comércios e serviços por pouco mais de dois meses, Rio Claro (SP) registra uma queda gradativa no número de casos confirmados de Covid-19, de acordo com os números divulgados pela prefeitura.
Para o secretário da Saúde de Rio Claro, Maurício Monteiro, o município já passou da fase mais grave da pandemia e caminha para a etapa final do platô (estabilização dos casos confirmados no pico da linha de evolução), mas alerta que a curva de contágio pode voltar a subir se o isolamento não for mantido.
Em entrevista ao G1, o secretário também citou a dificuldade do município em contar com a colaboração dos familiares comunicantes de casos positivos, que acabam não seguindo a orientação de isolamento e quarentena. Ele também citou a preocupação da Saúde com as confraternizações de família, nas quais pessoas jovens e ativas economicamente se reúnem com avós e pessoas idosas.
Segundo Monteiro, a taxa de ocupação dos leitos de enfermaria e Unidade de Terapia Intensiva (UTI) caiu consideravelmente, principalmente em relação ao pior período já registrado na cidade, quando os hospitais tiveram mais que 100% dos leitos ocupados e precisaram recorrer ao Hospital Regional de Piracicaba.
Entre as 42 cidades da região de cobertura do G1 São Carlos e Araraquara, Rio Claro é a que mais registra casos e mortes causados pelo novo coronavírus. Até a noite de sábado (15), o município tinha 3.380 casos e 96 mortes pela doença desde o início da pandemia.
Veja o gráfico com a evolução dos casos confirmados por semana:
G1: Analisando o gráfico com a evolução dos casos em Rio Claro, é perceptível uma queda gradativa nos casos confirmados. A que o senhor atribui essa mudança?
MM: O percentual caiu muito, tanto para nós quanto para a regional de Saúde a qual pertencemos, a nossa região considera Rio Claro, Piracicaba, Limeira, Americana e Araras, que são cidades bem próximas. O quadro geral está mostrando que provavelmente estamos indo para a fase final do platô, nós estamos tendo uma redução do percentual do aumento dos casos. Agora, o número de positivados, com certeza, tem relação com o programa de testagem que nós estamos fazendo e tem finalidade também de alimentar dados para o inquérito epidemiológico e ajudar, inclusive, a própria secretária do Estado e o Ministério da Saúde, a formar uma fotografia da pandemia que nós temos aqui no município, mas também dentro do quadro geral do Brasil.
Nessa semana aqui, por exemplo, nós tivemos uma testagem de aproximadamente mais de 500 casos até o momento e ainda serão somadas o de sexta e sábado, então creio que a gente deva alcançar em torno de 700, 800 testes realizados nesta semana.
G1: Qual o perfil dos pacientes? Têm muitos jovens ou crianças positivados ou são pessoas economicamente ativas?
MM: A maior parte dos positivados, incluindo, os assintomáticos que estão sendo detectados, estão dentro da faixa economicamente ativa, estão entre aquela faixa entre 20 a 40 anos e entre 40 a 59 anos. Essas duas faixas contém a maior parte dos casos positivados. Agora dos acometidos com sintomas moderados e sintomas graves, a maior parte já se localiza dentro da faixa a partir dos 60 anos, ou seja, no grupo de risco dos idosos e também um percentual que carrega comorbidades, principalmente, casos de cardiopatas, obesos e diabéticos.
Teste para identificar a Covid-19
Ana Clara Marinho/TV Globo
G1: Você acha que essa quantidade de idosos sendo contaminados tem ligação com a resistência deles em ficar em isolamento ou por que o município tem grande quantidade de população idosa?
MM: Eu acho que é um pouco de cada fator. Rio Claro é uma cidade que tem um percentual relativamente alto da população dentro da faixa da terceira idade, a partir de 60 anos. Isso é um fator que faz com que uma parcela maior da população esteja exposta ao risco, mas também pela própria postura da população que não colaborou muito com a questão do isolamento, as pessoas ainda não entenderam que não adianta você deixar os idosos em casa e eles saírem se expor porque eles acabam levando para dentro de casa a contaminação, carreira o vírus pra dentro dos lares, o fato que a gente constatou de eventos sociais familiares que ocorreram e sabemos que ainda continuam ocorrendo, reuniões familiares, churrascos onde familiares que moram em locais distintos, mesmo dentro do próprio município, acabam se confraternizando e se expõe os idosos ao maior risco de se estar contraindo a doença e também aos próprios idosos que nós percebemos que se movimentaram muito também, acabaram saindo para ir para comércio, ou saindo com netos, pessoas mais jovens, isso também sem dúvida facilitou o agravamento desse quadro dentro dessa faixa etária dos 60 anos.
G1: A Saúde tomou alguma medida ou planeja alguma atitude para diminuir os casos entre os idosos?
MM: A partir da terceira/quarta semana que nós estávamos já dentro da quarentena do estado, nós intensificamos ainda mais a atividade educacional informativa da Saúde, tentando aumentar a distribuição de informação dentro desse grupo, então nós fizemos alguns acordos como, por exemplo, com os grupos de Vizinhança Solidária, nós sabemos que possuem muitos idosos que participam e acompanham essas redes de vizinhança disseminando esses materiais com destaque especial com a quantidade de material voltado a essa faixa da população, orientamos também os líderes religiosos das igrejas, pois sabemos que a maior parte dos frequentadores assíduos que passaram a frequentar os cultos, missas online, para que eles também fossem multiplicadores dessa informação para esse público-alvo e também em alguns serviços onde nós percebemos que havia ainda uma frequência predominante de idosos, principalmente, nos serviços que prestam assistência. E também a conscientização dos outros grupos de do risco que uma eventual falta de proteção deles representa não apenas para si, mas também para os familiares e amigos que fazem parte do grupo da terceira idade.
G1: Como está a questão da ocupação hospitalar no município de Rio Claro?
MM: No momento nós estamos com uma taxa de ocupação média de leitos, principalmente, leitos de suporte respiratório, ou seja, aqueles leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), na faixa de 60%, há uma flutuação dentro dessa faixa, que caiu sensivelmente em relação ao pior momento aí que nós tivemos no platô onde nós tínhamos uma taxa de ocupação que às vezes chegou a exceder os 100%. Não houve desatendia porque nós tínhamos os leitos de retaguarda, que nosso município pode utilizar no Hospital Regional de Piracicaba. Já nos leitos clínicos, que são leitos de enfermaria para aqueles quadros mais leves, estamos na faixa de 50%, oscilando um pouco para mais, às vezes até 70% e para menos às vezes 45%. São dados consolidados até a final da tarde de ontem [quarta-feira].
Hospital de campanha, em Rio Claro (SP), terá 26 leitos e funcionará anexo ao Pronto Atendimento do Cervezão
Divulgação/Prefeitura de Rio Claro
G1: Quais atitudes foram tomadas para reverter o aumento de casos e ocupação hospitalar?
MM: A gente têm mantido as ações que nós já vínhamos adotando antes de entrar no pico da pandemia, nós temos mantido a fiscalização dos estabelecimentos, principalmente agora que Estado colocou nossa região na fase amarela, então nós tivemos que aumentar a presença de fiscalização para garantir que as medidas de precaução sejam mantidas, inclusive, com relação à taxa de ocupação por clientes, aquela taxa simultânea, também estamos mantendo e aumentando, inclusive, o número de material disponível online para consulta e estamos inserindo as orientações com relação à conduta durante a pandemia também nos materiais relacionados a outros programas da Saúde, como a Semana do Aleitamento Materno. Dentro das equipes profissionais, nós estamos mantendo os treinamentos tanto de aparamentação, quanto de manuseio de pacientes, e a própria questão de procedimentos operacionais específicos. Mesmo que nós estejamos caminhando, aparentemente, para o final do período do topo, ou seja, quando então inicia-se a fase de caimento da pandemia na nossa região, nós não estamos fora da pandemia, ainda temos o risco de muitas pessoas que ainda não contraíram a doença e que devem se manter a postura de prevenção e de precaução para não só comprometer a capacidade do serviço de saúde, mas também de uma própria preservação da saúde dessas pessoas.
G1: Rio Claro avançou para a fase amarela do Plano São Paulo, mas cogitam a possibilidade de regressão de fase?
MM: A mudança de fase ela é uma possibilidade sempre, não importa como está o momento, até porque a Covid-19 é uma doença nova, uma patologia nova, todos nós estamos aprendendo e, com isso, quero dizer o mundo todo, porque é um vírus com características e desdobramentos do comportamento dele que nós estamos conhecendo agora e aprendendo todos os dias a como lidar com essa pandemia e tentando aprimorar de forma mais rápida possível os processos, procedimentos e protocolos. Mas a possibilidade de mudança de fase é constante porque o monitoramento do comportamento da pandemia em qualquer município é feito em tempo real, a partir do momento que nós vemos que houve uma flexibilização por parte do governo do estado, aumentando o número de atividades previstas para o funcionamento, nós vamos acompanhando o comportamento da população diante disso e também os números da nossa porta de entrada da saúde.
Caso a gente perceba que está havendo uma movimentação exagerada da população e um reflexo com aumento do número de acometidos e dos casos mais graves, obviamente a Saúde dispara a possibilidade de aumentar a restrição, ou seja, nós temos a possibilidade de, independente da posição em que está na fase que a região estiver, de adotar uma fase mais rígida, como nós já fizemos aqui em Rio Claro.
A leitura dos nossos dados aqui na Saúde não apontava para um quadro favorável para essa mudança e nós fizemos um decreto por parte do executivo, que manteve nosso município na fase vermelha. Agora nós fomos para a fase amarela e estamos fazendo o mesmo trabalho de acompanhamento, se houver a manutenção de condições favoráveis que indiquem que está havendo um decréscimo no número acometidos, um decréscimo no número de positivados, ou seja, dados consolidados que apontem que a manutenção da fase amarela ou até avanço para outras fases esteja tecnicamente viável pode acontecer.
Vigilância Sanitária de Rio Claro faz operação no comércio para orientar sobre as regras de funcionamento durante a quarentena contra o coronavírus
Reprodução EPTV
G1: Qual a maior dificuldade no seu ponto de vista de controlar a doença no município?
MM: Eu creio que todo município nós vemos que a doença vem se desenrolando e, mesmo naqueles em que chegou antes e já passou da fase que a gente ainda não tem alcançado, mais ou menos o cenário é sempre igual. O brasileiro em geral tem uma postura muito complicada porque não tem uma postura de responsabilidade, nós vemos que a população olha as coisas de maneira muito individualista, então nós tivemos problemas de manter familiares comunicantes em casa.
Aqui, nós da vigilância tivemos que ir à polícia retirar um doente que estava assintomático, mas que estava orientado a permanecer isolado em casa após atendimento de saúde. Ele foi trabalhar e não comunicou a empresa. Nós tivemos que ir lá tirar ele do ambiente de trabalho e registrar um boletim de ocorrência, é um crime contra saúde pública.
Creio que a dificuldade é igual para todos, a população tem um índice de adesão ainda insatisfatório às medidas de precaução. Em todo município tem essa dificuldade, que está relacionada com a postura da população que não aderiu na sua totalidade, óbvio, não estou generalizando, temos uma parcela que é muito colaborativa, que cumpre com sua parte, mas temos ainda um percentual muito grande da população que se sente livre da responsabilidade de manter postura de precaução, o que acaba complicando muito e esse é sem dúvida, se não for o maior, um dos maiores fatores de facilitação da disseminação do vírus.
G1: Sobre o processo de irregularidade na compra dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como anda o processo de investigação?
MM: Olha, eu acho que esse é mais um caso que cabe à Prefeitura Municipal. Nós como Fundação Municipal da Saúde, nós somos uma autarquia, temos os nossos setores de compra e temos o setor que é um grande almoxarifado que faz a gestão, admissão e qualificação dos materiais. O setor de compras da prefeitura, creio que está prestando as informações que estão sendo inqueridas. As informações que foram encaminhadas aqui para a fundação municipal de saúde por nós termos recebido essa doação de materiais da prefeitura, todas foram prestadas, as que estão entrando continuam sendo prestadas, tanto dos órgãos da própria gestão municipal e legislativo, como para outras instâncias, como Ministério Público e Tribunal de Contas, que constantemente acompanha nossos processos pelo portal da transparência da Covid. E toda informação que tange ao processo a partir do recebimento da doação desse material até a disponibilização para uso, nós prestamos a todos que foram encaminhados aqui, inclusive, com amostragem e continuaremos colaborando com tudo aquilo que for relacionado aqui com a fundação. Agora, em relação ao processo, nós não temos, não nos cabe e também não temos o menor conhecimento disso, já que é um processo feito dentro da gestão de contas da prefeitura, mas eu creio que o prefeito deve estar dando suas providências, sindicâncias como sabemos que foi instaurada para isso, e creio que o poder executivo está comparecendo com sua parcela de resposta e responsabilidade, então para nós da fundação estamos colaborando com tudo aquilo que está sendo solicitado. Mas não participamos do processo de compra em si, apenas da gestão do material a partir da doação do uso para utilização no sistema público de saúde.
Máscara é alvo de denúncia do sindicato dos servidores em Rio Claro
Reprodução/EPTV
12) A testagem da qualidade dos EPIs foi responsabilidade da Secretaria de Saúde?
MM: Na verdade, como em processo de compra, de gestão pública ou privada, aqui nas compras da Saúde nós qualificamos os fornecedores e o material. Como é feita a qualificação? É feita conforme a Lei, que não é nova, algumas bem antigas, que determinam o certificado de autorização, ou seja, alguns itens EPIs que têm o certificado de autorização como item obrigatório ele é conferido por isso, nós conferimos qual certificado ele declara atender e as normas técnicas e no momento da inspeção de recebimento. Ou seja, há um sistema que não é novo, não foi implantado para Covid-19, ate porque nós temos doença de característica muito mais contagiosa do que a Covid-19, como a meningite, tuberculose, o próprio H1N1, que demandam o uso do mesmo equipamento que já vem sendo usado há um bom tempo. Não é uma novidade nem o uso dessa paramentação, nós apenas intensificamos o uso delas em função do número de acometidos da pandemia. Mas esse material antes de ser carregado no sistema e disponibilizado, ele é conferido quanto essas documentações obrigatórias.
G1: Há alguma mensagem que o senhor quer deixar para a população de São Carlos?
MM: O importante de tudo isso é que fique claro para a população e os órgãos de imprensa nesse contexto, como é de se esperar, compartilham a informação, que fique claro que a Saúde é um órgão extremamente técnico, então todas as ações que nós tomamos e mesmo as portarias executadas pela saúde que tem força de Lei, nenhuma sai da cabeça individualmente de ninguém, são questões técnicas baseadas em protocolos e legislações já há muito estabelecidas e não poderia ser diferente. Orientados por profissionais, especialistas, cada um na sua área, tanto na área médica, área clínica, quanto também na área de vigilância em Saúde e que tudo que é possível fazer para que a gente dê um combate melhor a cada dia dentro da questão da pandemia e também de outras patologias que não deixaram de existir, a pandemia só somou a outros quadros de saúde que nós temos que manter atendimento, estão sendo conduzidos com a máxima seriedade.
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By Tribuna ABC

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