Lives da cena eletrônica viram 'refúgio' em meio à quarentena

Mariela: DJs têm de lidar com as dificuldade de se manter em tempos de pandemia — Foto: Reprodução/twitch.tv/mariela 1 de 6
Mariela: DJs têm de lidar com as dificuldade de se manter em tempos de pandemia — Foto: Reprodução/twitch.tv/mariela

Mariela: DJs têm de lidar com as dificuldade de se manter em tempos de pandemia — Foto: Reprodução/twitch.tv/mariela

“A cena eletrônica enfrenta dificuldades, apesar dos nossos esforços. Passamos por um período conturbado, sem nenhuma perspectiva de melhora. Não sabemos quando os eventos voltarão. A grande maioria dos organizadores de lives não está pagando os DJs, já que a live não é lucrativa, e as doações quase não existem. Alguns projetos mais conhecidos recebem dinheiro, mas vem de fora do País”. O desabafo da DJ Mariana de Oliveira Molina, conhecida pelo nome de seu projeto, Mariela, resume o impacto da pandemia da Covid-19 sobre os artistas e produtores de eventos da área.

DJs com cachês que podem chegar a R$ 10 mil por set (seleção de músicas mixadas), dependendo da popularidade, tiveram, da noite para o dia, de contar com a ajuda do Governo, com as próprias economias, ou com outros trabalhos, já que doações, como destaca Mariana, não são uma opção. O cenário não mudou com a flexibilização da quarentena. “Várias pessoas estão na mesma situação. Não conseguem fazer doações”, admite Paulo Enge, o DJ Booo, integrante do núcleo Cosmic Crew, que realiza diversos eventos em São Paulo.

As doações são um método que se tenta adotar em várias lives. Em alguns casos, elas podem funcionar. Mariana Molina participou de um evento colaborativo de cinco dias, onde estavam recolhendo doações para um asilo. “Achei a ideia incrível”. Mas para as demais iniciativas, o resultado é outro. Ela afirma que não conhece um único streamer, seja produtor de evento ou DJ independente, que tenha recebido doações. “Acordar sem saber como estará o País e o mundo, quando for deitar novamente, é muito difícil. Fora a adaptação ao isolamento. Ficar em casa tanto tempo, para quem estava sempre na rua, é complicado”.

Live de Paulo Enge, o DJ Booo: público dos eventos também foi afetado pela crise — Foto: Reprodução/twitch.tv/cosmiccrewdanceparties 2 de 6
Live de Paulo Enge, o DJ Booo: público dos eventos também foi afetado pela crise — Foto: Reprodução/twitch.tv/cosmiccrewdanceparties

Live de Paulo Enge, o DJ Booo: público dos eventos também foi afetado pela crise — Foto: Reprodução/twitch.tv/cosmiccrewdanceparties

Para Pedro Henrique dos Santos Amorim, DJ e produtor do evento Ikigai, que acontece na Baixada Santista, o objetivo é “manter o sonho vivo”. Ele, que é conhecido por Riik e Anubis, nomes do seu DJ set, está entre os profissionais que não perdem a esperança. “Continuamos com nossos projetos de uma forma diferente, nos adaptando às novas realidades”.

Anubis acredita que produtores e DJs devem continuar com os seus projetos, mas se adaptando a novos obstáculos — Foto: Reprodução/twitch.tv/subsolocaicara 3 de 6
Anubis acredita que produtores e DJs devem continuar com os seus projetos, mas se adaptando a novos obstáculos — Foto: Reprodução/twitch.tv/subsolocaicara

Anubis acredita que produtores e DJs devem continuar com os seus projetos, mas se adaptando a novos obstáculos — Foto: Reprodução/twitch.tv/subsolocaicara

Leonardo Ferreira, também da Ikigai, diz que há planos para as festas terem ingressos presenciais e online no futuro. Isso possibilitaria ao público estar nesses eventos de modo não presencial. “Acredito que as lives continuarão após a quarentena, mas mais motivadas pelo entretenimento do que pela renda em si”.

Na maioria das festas menores, a motivação maior vem da interação com o público. O arrecadado pelas doações é pouco, quando não, nada, afirma Leonardo Ferreira.

Leonardo Ferreira, da Ikigai, diz que há rumores que festas terão ingressos presenciais e online depois que a pandemia acabar — Foto: Reprodução/twitch.tv/subsolocaicara 4 de 6
Leonardo Ferreira, da Ikigai, diz que há rumores que festas terão ingressos presenciais e online depois que a pandemia acabar — Foto: Reprodução/twitch.tv/subsolocaicara

Leonardo Ferreira, da Ikigai, diz que há rumores que festas terão ingressos presenciais e online depois que a pandemia acabar — Foto: Reprodução/twitch.tv/subsolocaicara

Além do aspecto financeiro, profissionais da área afirmam que não conseguiriam ficar meses sem fazer o que amam. O músico e produtor Bruno Azalim, do Pulsar Festival, que acontece em Minas Gerais, conta que a ideia de transmitir os shows pela internet preenche o vazio por não poder se expressar. “As lives nos ajudam a não enlouquecer por não haver com o que se ocupar, e também pela falta de perspectiva de uma normalização na área de eventos, por conta das aglomerações”.

Ele admite ter uma grande preocupação quanto à parte financeira. “Esse é o pior momento para o mercado desde o último século”. Apesar dos fatores negativos existentes em decorrência da pandemia, Bruno acredita que haverá algum saldo positivo. “Sinto que muitos valores já estão sendo, e serão mais ainda, redefinidos. Como, por exemplo, a importância do tempo. Além disso, o que é realmente necessário possuir materialmente, e o que não é. E, principalmente, a importância da arte. Afinal, a quarentena seria mais difícil sem músicas, livros e filmes”.

Bruno Azalim, conhecido pelo seu projeto Atropp, considera importante os artistas sempre se expressarem — Foto: Reprodução/twitch.tv/cosmiccrewdanceparties 5 de 6
Bruno Azalim, conhecido pelo seu projeto Atropp, considera importante os artistas sempre se expressarem — Foto: Reprodução/twitch.tv/cosmiccrewdanceparties

Bruno Azalim, conhecido pelo seu projeto Atropp, considera importante os artistas sempre se expressarem — Foto: Reprodução/twitch.tv/cosmiccrewdanceparties

Jogo interativo

Tulio Chiarini, do núcleo Naturaíz, que organiza um evento homônimo em São Paulo, afirma que é possível continuar tendo boas experiências, mesmo com o distanciamento social. A partir das lives, a Naturaíz trouxe para o Brasil o conceito de um jogo interativo, onde os participantes se relacionam virtualmente em tempo real.

Esse jogo foi desenvolvido por uma equipe de programação da Macedônia, com base numa modificação do ambiente virtual Second Life. “Você pode criar seu personagem com o estilo que desejar, ouvir o DJ tocando em tempo real e conversar com as pessoas em público ou no privado”, explica Tulio.

No jogo, é possível dançar de várias formas, brincar com malabares e dar uma volta pela festa, ouvindo o som. “As pessoas podem, diretamente de suas casas, criar seus personagens com estilo próprio e aproveitar a apresentação dos DJs ao vivo”. A intenção com esse tipo de iniciativa é trazer um conteúdo diferenciado para o público, em meio à pandemia, e transmitir uma sensação de refúgio, além de fortalecer a visibilidade do âmbito eletrônico.

* Sob supervisão de Alexandre Lopes, Eduardo Cavalcanti e Lidiane Diniz

Nova plataforma permite interação entre participantes da live e a criação de seus próprios personagens — Foto: Reprodução/facebook.com/naturaizcrew 6 de 6
Nova plataforma permite interação entre participantes da live e a criação de seus próprios personagens — Foto: Reprodução/facebook.com/naturaizcrew

Nova plataforma permite interação entre participantes da live e a criação de seus próprios personagens — Foto: Reprodução/facebook.com/naturaizcrew

By Tribuna ABC

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