Maioria das cidades do Alto Tietê completa dois anos sem campanhas de vacinação contra a raiva


Este ano campanha foi suspensa por prevenção a transmissão da Covid-19. Mas em 2019, cidades afirmam que não receberam doses para imunizar cães e gatos. Cidades do Alto Tietê não terão campanha de vacinação antirrábica em 2020
Guilherme Berti/PMMC
A maioria das cidades do Alto Tietê completa dois anos sem campanha de vacinação contra a raiva. Os municípios que ainda têm doses afirmam que vão guardar o estoque para a necessidade de bloqueio em focos eventuais de casos de raiva.
As cidades que responderam aos questionamentos do G1 informaram que em 2019, não receberam doses suficientes da vacina antirrábica do governo federal para fazer a campanha. Já em 2020, a justificativa das prefeituras é que o Ministério da Saúde e o Governo do Estado não têm previsão para envio de doses. A Secretaria Estadual da Saúde informou que suspendeu a campanha para prevenção da Covid-19. Já o Ministério da Saúde não respondeu aos questionamentos do G1.
Com poucas doses, municípios do Alto Tietê suspendem campanha de vacinação contra a raiva; região já soma mais de 20 casos em animais
As prefeituras de Ferraz de Vasconcelos, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Poá, Santa Isabel e Salesópolis informaram que não tiveram campanha em 2019. Já Arujá e Suzano afirmaram que promoveram a imunização antirrábica no município.
Biritiba Mirim informou apenas o número de animais vacinados em 2018 e 2019. Já Guararema informou apenas que não tem previsão de campanha para 2020.
Raiva e coroanvírus
A Secretaria Estadual de Saúde explicou que a suspensão da campanha em 2020 foi discutida entre a pasta e as cidades na Comissão Intergestores Bipartite e segue recomendações do Ministério da Saúde que prevê a reprogramação da campanha antirrábica para redução do risco de contágio do novo coronavírus.
De acordo com a pasta, devido ao risco de transmissão do novo coronavírus em situações que geram aglomeração, as equipes técnicas de saúde estadual e municipais optaram por manter apenas a imunização de rotina, disponível nos serviços de saúde municipais ou estabelecimentos médico-veterinários privados, sendo responsabilidade do tutor ou proprietário zelar pela saúde do animal de estimação.
O G1 questionou o Ministério da Saúde sobre a campanha desse ano e a falta de doses no ano passado, mas não recebeu resposta.
Ausência da Campanha
A ausência de campanha de vacinação antirrábica não é um problema na visão da diretora técnica do Instituto Pasteur, doutora Luciana Hardt. Ela afirma que em todo o Estado de São Paulo, inclusive, no Alto Tietê, a raiva transmitida pela variante canina não ocorre há mais de 20 anos. “Desde 1997, o Estado não registra raiva humana provocada pela variante canina.”
Luciana justifica que quando foi decidida a suspensão da campanha desse ano por conta da pandemia do novo coronavírus, por recomendação do Ministério da Saúde, foi considerada a situação epidemiológica da raiva no Estado.
“Temos casos de raiva em animais de produção, como bois, cavalos, que são causadas por morcegos. Isso ocorre no interior todo do Estado. Isso é ciclo de raiva mais rural que não acomete cão e gato. Morcego se alimenta de sangue de bovinos, por exemplo. E não preocupa cão e gato em áreas urbanas.”
Doutora Luciana observa ainda que quando a raiva em cães e gatos é provocada pelo morcego, o animal desenvolve sintomas de paralisia. “Fica apático, afeta a coordenação motora e esses sinais já são terminais. O animal não sai de forma agressiva mordendo outros cães e pessoas. Como ocorria na variante canina na década de 70 e 80, gerando grande número de casos em cães, gatos e humanos.”
Em relação aos morcegos, a diretora faz um alerta ao tutores de animais. “Se encontrar o cão ou gato em contato com o morcego deve procurar o serviço de saúde. Principalmente, os gatos que têm extinto caçador. No caso de encontrar morcegos caídos no chão não se deve tocá-los e sim acionar a Secretaria de Saúde do município.”
A diretora destaca que independentemente de campanha, a vacina continua sendo aplicada rotineiramente em alguns municípios. Por isso, ela afirma que o tutor do animal pode entrar em contato com os serviços de zoonoses para verificar se existe agendamento para a vacinação para evitar aglomeração.
“Não é só no mês de agosto, a vacinação de rotina acontece durante todos os meses do ano. Mesmo que o animal tenha sido vacinado em agosto do ano passado, o tutor pode levar em setembro e outubro.”
Suspensão
A diretora técnica do Instituto Pasteur destaca que a campanha de vacinação antirrábica é uma questão discutida há alguns anos. Segundo Luciana Hardt, ela tem o objetivo de criar uma imunidade de rebanho para evitar a transmissão. “A campanha foi importante para atingir a eliminação da variante em cães e gatos, consequentemente, em humanos. Essa estrutura foi importante e principal ação para controle da variante canina. Porém, se vê que tecnicamente se mantiver (a vacinação) em rotina ao longo do ano não tem problema.”
Ela ressalta que essa avaliação é feita considerando a experiência nos três estados da região Sul do Brasil. “Os três estados não fazem campanha anual de vacinação desde 1995 e sem o retorno da variante 2 nos estados e não tem casos humanos.”
A diretora avalia que este ano não deve acontecer a campanha que precisa de logística para ser organizada, de tempo para divulgação, compra de material, vacinadores imunizados, controle sorológicos, etc. “Tem todo um tempo de organização que as cidades precisam em torno de 3 ou 4 meses antes. A pandemia que começou em março reduziu o tempo de trabalho e, avaliando como as coisas ficavam, definimos pela suspensão em 2020.”
Sintomas da Raiva
Luciana Hardt descreve que a raiva sempre causa sintomas nervosos. “A raiva é provocada por um vírus que é transmitido pela mordida ou arranhadura de algum mamífero, seja cão, gato ou morcegos. Esse vírus a partir da mordida atinge o sistema nervoso central.”
Por isso, a diretora aponta que os sintomas nervosos, tanto em humanos quanto em animais, vão mostrar alteração de comportamento. “Como dificuldade de locomoção, a baba, que é um sinal de uma paralisia da musculatura da garganta, e evolui sempre para paralisia e morte. Porque a doença paralisa a parte respiratória e cardíaca, provocando a morte do animal.”
Ela destaca que quando a raiva é desencadeada pela variante do morcego não tem sintomas de agressividade. “O animal fica quieto e apático.”
Confira a vacinação da raiva em cada cidade do Alto Tietê
Arujá
A Prefeitura informou que, segundo o governo federal, houve um problema no laboratório das vacinas antirrábicas. E, por isso, é preciso aguardar a normalização e o recebimento destas doses.
De acordo com a Prefeitura, a expectativa é que isso ocorra até o final do ano, mas, sem data prevista para o repasse das vacinas. Segundo a administração municipal, Arujá não tem vacinas antirrábicas animal disponíveis e também não há registros, até o momento, de casos de raiva animal no município.
Já sobre 2019, a Prefeitura destaca que o município teve a campanha que começou em julho e terminou em novembro, com um total de 15.509 animais imunizados.
Biritiba Mirim
A Prefeitura informou apenas o números de cães e gatos vacinados. Segundo a administração, em 2018, foram vacinados 4.435 cães e 1.111 gatos. Em 2019, segundo a Prefeitura, não houve campanha. E em 2020, foram vacinados 120 animais.
Ferraz de Vasconcelos
A Prefeitura informou que no final de julho a Vigilância Sanitária foi informada pelo Governo do Estado sobre a suspensão da campanha antirrábica deste ano. De acordo com a Prefeitura, a cidade não tem estoque da vacina e caso haja necessidade (aparecimento de algum animal com diagnóstico confirmado para raiva), a Zoonoses recebe a vacina suficiente para realizar o bloqueio no local.
Segundo a Prefeitura, o município não registrou caso de raiva em animais ou em humanos no ano passado e neste ano. Sobre a vacinação em 2019, a Prefeitura informou que não houve campanha, pois não teve distribuição de vacinas antirrábica pelo Ministério da Saúde.
A Prefeitura informou que em 2018, foram vacinados na cidade 8 mil cães e 2,4 mil gatos. Já em 2019, segundo a administração municipal, como não houve nenhum caso da doença a cidade não recebeu vacina e, por isso, não imunizou animais.
Guararema
A Prefeitura informou apenas que não existe previsão de campanha de vacinação antirrábica para 2020.
Itaquaquecetuba
A Prefeitura informou que não terá campanha neste ano, porque não recebeu o repasse mensal das doses devido a um atraso na entrega da vacina por questões burocráticas na importação do produto e processos de liberação junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
O município esclareceu que será mantido um estoque estratégico apenas para bloqueio de foco de eventuais casos de raiva em cães e gatos.
Já em 2019, não houve campanha de vacinação antirrábica na cidade por conta do desabastecimento da vacina. A Prefeitura afirmou que elaborou estratégias de manter estoque para bloqueios, para eventuais focos da doença. De acordo com a Prefeitura, o município não registrou nenhum caso de raiva animal ou humana em 2019 e 2020.
Mogi das Cruzes
A Prefeitura informou que não tem campanha programada para este ano, porque o Ministério da Saúde e o governo do Estado não têm previsão para o envio de doses da vacina. Em 2019, a cidade também não teve campanha.
Segundo a Prefeitura, houve um desabastecimento nacional da vacina e a maioria das doses disponíveis foram distribuídas para áreas de maior risco. A administração municipal completou que no ano passado, a vacinação foi feita no evento Bairro Feliz, além da vacinação de rotina no CCZ.
De acordo com a Prefeitura, atualmente é mantido um estoque mínimo para viabilizar a vacinação de rotina somente no CCZ. A administração afirma que recebe do Estado, todo mês, algumas doses de vacina, mas geralmente o estoque zera antes do recebimento do lote do mês seguinte.
Até o momento, a cidade já registrou um caso positivo de raiva em morcego e nenhum em humanos. Quanto aos casos de raiva em 2019, a Prefeitura informou que foram dois casos positivos em morcegos e nenhum em humano.
A Prefeitura reforça que a doença em humanos não é registrada no município há muitos anos, pelo menos desde o início dos anos 2000. Em animais domésticos de companhia (cães e gatos) também não há registros recentes. Isso se deve ao esforço de realizar as campanhas anuais de vacinação antirrábica nesses animais, o que diminuiu muito a transmissão animal-animal e animal-homem e o desenvolvimento da doença. Vale lembrar que o vírus ainda circula no município, mas principalmente em animais silvestres (morcegos), os principais responsáveis pela manutenção do vírus.
Poá
A Prefeitura informou que não tem campanha programada, porque o Ministério da Saúde e o governo do Estado não têm previsão para o envio de doses.
Ainda de acordo com a administração municipal, o Centro Estadual de Vigilância e Controle da Raiva orientou o município a fazer a manutenção da vacinação de cães e gatos de rotina e a suspensão das campanhas para 2020, por conta da pandemia da Covid-19.
Segundo a Prefeitura, o estoque da vacina antirrábica na cidade está zerado, aguardando grade para vacinação de rotina apenas para cães e gatos contactantes com morcegos ou para eventual bloqueio de foco em casos de raiva no município.
A Prefeitura informou que Poá não registrou nenhum caso de raiva animal ou em humanos esse ano e em 2019. Segundo a prefeitura, em 2018 foram vacinados 12,7 mil animais e em 2019, em vacinação de rotina, 77.
Para 2020, a Prefeitura informou que aguarda o envio das vacinas para realização de campanha ou para o estoque para vacinação de rotina.
Salesópolis
A Prefeitura informou que, por conta da pandemia da Covid-19, suspendeu a vacinação antirrábica. Em 2019, o município não teve campanha, mas houve a vacinação rotineira dos animais resultando na imunização de 153 cães e 19 gatos. O estoque atual de vacinas está zerado, segundo a Prefeitura.
O município é um dos poucos do Alto Tietê a registrar casos de raiva em animais. A Prefeitura informou que este ano já foram registrados casos em 4 bovinos e 1 ovino. E em 2019, os casos foram 20 bovinos, 7 ovinos, 2 morcegos e 2 equinos.
A Prefeitura destaca que antes que a doença retornasse ficou dez anos sem o registro da raiva na cidade. Não foi registrado nenhum caso de raiva em humanos este ano e no ano passado.
Santa Isabel
A Prefeitura informou que conta com 25 doses no estoque e não tem previsão de campanha. O município teve campanha em 2019, imunizando 953 cachorros e 40 gatos. Em 2018, foram vacinados 4.114 cachorros e 740 gatos.
De acordo com a Prefeitura, em 2019 o município teve dois casos de raiva em bovinos e nenhum em humano. Já em 2020, foi registrado um caso em bovino e nenhum em humano.
Suzano
A Prefeitura informou que por enquanto não há programação para campanha na cidade, porque o Ministério da Saúde e o Governo do Estado não têm previsão para o repasse das vacinas.
De acordo com a administração, a campanha de 2019 foi realizada com as vacinas solicitadas aos municípios vizinhos e à cidade de São Paulo. Um total, de aproximadamente, 33 mil animais foram imunizados e em 2018, foram aproximadamente 31 mil animais imunizados.
A Prefeitura destacou que pelo menos nos últimos 16 anos não há registro de casos positivos de raiva – em humanos ou animais – no município.

By Tribuna ABC

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