1 de 1Imagem mostram cloroquina manipulada em laboratório — Foto: Dirceu Portugal/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Imagem mostram cloroquina manipulada em laboratório — Foto: Dirceu Portugal/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Médicos que integram o Comitê da Covid-19 em Sertãozinho (SP) pediram nesta quarta-feira (22) o desligamento do grupo que orienta as políticas de enfrentamento à pandemia na cidade.
Em uma carta enviada ao prefeito Zezinho Gimenez (sem partido), eles alegam que o motivo é a adoção, contrária a um parecer do próprio comitê, do uso de cloroquina e azitromicina na rede municipal para tratar pacientes com sintomas de coronavírus.
Procurada, a Prefeitura informou que já tinha conhecimento sobre o posicionamento contrário da equipe de infectologistas, mas que vai manter a decisão do protocolo medicamentoso precoce, seguindo criteriosamente as recomendações do Ministério da Saúde.
Segundo o documento assinado pelos infectologistas Marilia Borsari, Renata Abduch, Sheila Cristina Teodoro e Victor Franco Oba, em 1º de julho, o Comitê emitiu um parecer técnico em que afirma que não existem estudos que comprovem o benefício dos medicamentos em pacientes graves.
“No município de Sertãozinho, contraindicamos o uso em pacientes ambulatoriais com sintomatologia leve ou moderada nesse momento, seguindo recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS)”, diz o texto, que ainda cita agências de saúde de outros países.
Na terça-feira (21), o prefeito anunciou a implantação da medicação na rede pública, apesar de ter recebido orientação contrária dos especialistas. Na opinião do prefeito, pacientes da rede pública estão sendo prejudicados em relação aos da rede privada por não terem sequer a oportunidade discutir a utilização com os médicos.
“Estamos vivenciando um embate entre ciência e medicina com duas vertentes, uma a favor e outra contra, chegando a influenciar a parte política. Também estamos presenciando a utilização da cloroquina e da azitromicina em planos de saúde, medicina privada, em várias cidades do país”, disse.
Protocolo municipal
Segundo o prefeito, a prescrição será feita por orientação médica após avaliação clínica e realização de exames complementares. O paciente deve autorizar o uso por escrito.
Ainda segundo Gimenez, a avaliação médica e a prescrição pela rede municipal só terão validade se feitas por especialistas da Unidade Básica de Saúde do Jardim Helena, do Polo Covid da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) e do complexo de saúde do distrito de Cruz das Posses.
Os medicamentos serão retirados nas unidades da farmácia do município, com exceção da cloroquina, que será retirada com receita em farmácia de manipulação contratada pela Prefeitura.
A Prefeitura fez um investimento de R$ 26,6 mil na compra de cinco mil comprimidos de azitromicina e seis mil de cloroquina.
Discussão
Em maio, o governo federal liberou o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no Sistema Único de Saúde (SUS) até para casos leves de novo coronavírus. Antes disso, a recomendação previa o remédio para casos graves.
Em julho, o Ministério da Saúde enviou um ofício à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, pedindo que a instituição dê ampla divulgação ao tratamento com uso de cloroquina e hidroxicloroquina como medicamentos que podem ser utilizados nos primeiros dias de sintomas de Covid-19.
Pesquisas já apontaram que a droga não trouxe benefícios para diferentes perfis de pacientes, sejam os casos leves ou hospitalizados, e ela foi até mesmo associada à piora da situação dos pacientes.
Os médicos alertam para os efeitos colaterais do medicamento, como a arritmia cardíaca. A Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu os testes com o medicamento.
