Mortes em casa por causas naturais aumentam em 26% no Alto Tietê, durante a pandemia do coronavírus

Cemitério São Salvador, em Mogi das Cruzes; cidade foi a que registrou o maior número de mortes em casa — Foto: Yasmin Castro/ G1 1 de 2
Cemitério São Salvador, em Mogi das Cruzes; cidade foi a que registrou o maior número de mortes em casa — Foto: Yasmin Castro/ G1

Cemitério São Salvador, em Mogi das Cruzes; cidade foi a que registrou o maior número de mortes em casa — Foto: Yasmin Castro/ G1

Cresceu em 26% o registro de mortes provocadas por causas naturais em domicílio nas cidades do Alto Tietê, durante a pandemia do novo coronavírus (Covid-19), segundo informações da Associação Nacional de Registradores de Pessoas Naturais (Arpen).

Entre março e junho de 2020, foram 591 mortes por insuficiência respiratória, pneumonia, septicemia, síndrome respiratória aguda grave (SRAG), acidente vascular cerebral (AVC), infarto, causas cardiovasculares inespecíficas, entre outros. No mesmo período de 2019 foram 468.

De acordo com a Arpen, o levantamento leva em consideração o local de falecimento constante nas declarações de óbitos atestadas pelos médicos que a preencheram. As causas naturais foram consideradas nos casos em que não houve menção à Covid-19, confirmada ou suspeita.

O aumento é ainda maior se consideradas apenas as mortes cardiovasculares em casa. Foram 65 em 2019 e 145 em 2020, cerca de 123% a mais. Já entre as causas respiratórias houve queda de 57%. Em ambos os anos, Mogi das Cruzes foi a cidade com mais óbitos em domicílio.

Dos dez municípios da região, apenas Biritiba Mirim, Guararema e Salesópolis não aparecem no levantamento, pois o Especial só inclui as cidades cujo cartório registrou mais de 50 óbitos por coronavírus.

Para a especialista em medicina legal e perícia médica Raquel Barbosa Cintra, que é coordenadora adjunta do curso de medicina da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), a mudança do comportamento da população, que passou a ficar mais tempo em casa e deixou de buscar assistência geral em saúde, pode justificar aumento dos números.

Mortes por cidade

Mortes por causas naturais em domicílio
Comparação entre os períodos de março e junho de 2019 e 2020
Fonte: Portal da Transparência do Registro Civil da Associação Nacional de Registradores de Pessoas Naturais (Arpen)

O maior aumento foi registrado em Santa Isabel, que passou de 9 mortes em 2019 para 17 neste ano, cerca de 88% a mais. Em seguida está Poá, que registrou um aumento de 61%. Foram 31 em 2019 e 50 em 2020.

Itaquaquecetuba e Ferraz de Vasconcelos registraram aumentos de, respectivamente, 39% e 38%. Na primeira, o número passou de 86 para 120 e, na segunda, de 42 para 58.

Em Suzano, o aumento no número de mortes naturais em domicílio foi de 22%. Dos 104 óbitos no ano passado, a cidade passou para 127. Já Mogi das Cruzes foi de 160 para 194 em 2020, um aumento de 21%.

Arujá foi a única cidade da região que registrou queda. Em 2019, o cartório da cidade registrou 36 mortes por causas naturais em casa. Neste ano, durante a pandemia da Covid-19, foram 25, 30% a menos.

Cardiovasculares x Respiratórias

Quando comparadas apenas as mortes provocadas por problemas cardiovasculares, incluindo AVC, infarto, entre outras inespecíficas, o aumento chega a 123%.

Em números absolutos, Mogi foi o município que registrou mais óbitos em ambos os anos. Foram 36 em 2019 e 86 em 2020. Itaquaquecetuba, que registrou 7 óbitos no último ano, foi para 22. Em Poá o número passou de 4 para 13.

Assim como no número total de mortes, Arujá também foi a única cidade que registrou queda nos óbitos por razões cardiovasculares. Foram 12 em 2019 e 4 neste ano.

Mortes por causas cardiovasculares em domicílio (entre março e junho)

CIDADE 2019 2020
Arujá 12 4
Ferraz de Vasconcelos 2 8
Itaquaquecetuba 7 22
Mogi das Cruzes 36 86
Poá 4 13
Santa Isabel 3 6
Suzano 1 6

Entre as causas respiratórias, no entanto, o número de óbitos em casa caiu em quase todas as cidades da região. O mais expressivo foi em Mogi das Cruzes. Dos 81 óbitos causados por insuficiência, pneumonia e SRAG m 2019, a cidade foi para 33 no período analisado.

Mortes por causas respiratórias em domicílio (entre março e junho)

CIDADE 2019 2020
Arujá 7 2
Ferraz de Vasconcelos 1 4
Itaquaquecetuba 3 2
Mogi das Cruzes 81 33
Poá 1 0
Santa Isabel 3 0
Suzano 1 0

Comportamento da população pode justificar aumento

Por causa do coronavírus, população passou a ficar mais em casa e deixou de cuidar da saúde, aponta médica — Foto: Radoslav Zilinsky/Getty Images/Arquivo 2 de 2
Por causa do coronavírus, população passou a ficar mais em casa e deixou de cuidar da saúde, aponta médica — Foto: Radoslav Zilinsky/Getty Images/Arquivo

Por causa do coronavírus, população passou a ficar mais em casa e deixou de cuidar da saúde, aponta médica — Foto: Radoslav Zilinsky/Getty Images/Arquivo

Por causa da pandemia, o Governo do Estado de São Paulo decretou que os municípios interrompessem a realização de autópsias nos casos em que a morte ocorreu em casa e por razões naturais. O objetivo é minimizar os riscos de transmissão do coronavírus.

Para identificar o motivo do óbito, as cidades passaram a realizar uma autópsia verbal, que consiste no preenchimento de um questionário pré-estabelecido pela Secretaria do Estado da Saúde. As perguntas são feitas para quem presenciou a morte e, em seguida, o médico tenta traçar a possível causa.

“A gente usa o raciocínio clínico, porque a gente conhece as doenças, sabe como as coisas vão andando. Não necessariamente a gente vai chegar na causa real do óbito, mas sim em uma causa sindrômica. Então eu posso dizer [por exemplo] que foi uma insuficiência cardíaca, mas não sei a causa, se foi um infarto”, comenta.

Para Raquel, a causa do aumento das mortes em casa pode estar associada ao comportamento da população, que durante a pandemia deixou de buscar atendimento médico para doenças crônicas.

“Como todo mundo foi orientado que ficasse em casa, as pessoas também deixaram de procurar algumas assistências da saúde em geral. Algumas pessoas faltaram em atendimento médico ambulatorial, porque acharam que o serviço não estavam funcionando. Deixaram os remédios que elas faziam uso crônico acabarem e não foram buscar mais. Acabam falecendo em decorrência das doenças em si, do mal cuidado na saúde”, aponta.

A médica diz que a desinformação, neste caso, é um problema. Ela lembra que a recomendação de que os pacientes busquem atendimento somente em situações essenciais continua, mas que as pessoas devem se lembrar que a manutenção da saúde também é importante neste período.

“Quando você fala ‘vá ao médico só se for essencial’, quem é que vai julgar o que é essencial? É a própria pessoa. Qual é o conhecimento que ela tem para julgar o que é essencial ou não do ponto de vista técnico? Provavelmente nenhum. Às vezes ela sonega uma doença pensando que não era importante, mas clinicamente era”.

“Tem gente que acha que ficar um dia sem tomar o remédio da pressão não dá nada. É mentira isso. Dá e dá muito errado. Às vezes vai tomar uma cerveja e não toma o remédio. As pessoas têm um mau cuidado prévio da saúde e agora está tudo escancarado”, destaca a especialista.

Raquel ainda destaca que o aumento no índice de permanência domiciliar também pode estar relacionado ao crescimento do número. A médica explica que como a população passou a ficar mais tempo em casa, as mortes que antes aconteceriam em hospitais e na via pública, por exemplo, passaram a ocorrer onde o paciente vive.

“As pessoas passaram a sair menos por conta da orientação das secretarias municipais, estaduais e do próprio Ministério da Saúde. Elas passaram a ficar mais dentro de casa. A gente morre na rua porque está na rua, mas se a gente estivesse em casa, morria em casa”, comenta.

A médica lembra ainda que a orientação de que a população fique em casa continua, mas que manter os cuidados com doenças crônicas continua sendo tão importante quanto a preocupação com a Covid-19.

“A gente tem um grande índice de mortalidade por doenças que estão relacionadas à hipertensão, infarto, AVC. O fato do cara não tomar o remedinho da pressão, aumenta a chance dele ter um AVC”.

“Às vezes também é medo de pegar a Covid. A pessoa passou mal em casa, teve um mal súbito, mas fica com medo de ir ao hospital por causa da Covid-19. Aí ela não vai e morre por falta de assistência, mas não porque ninguém deu assistência, mas porque ela efetivamente não procurou”, conclui.

CORONAVÍRUS

By Tribuna ABC

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