1 de 5Foto de arquivo de 31 de outubro de 2010 do então candidato à Presidência da República pelo PSDB, José Serra, e sua filha Verônica Serra durante entrevista coletiva realizada no comitê central da campanha, no Centro de São Paulo — Foto: Robson Fernandjes/Estadão Conteúdo/Arquivo
Foto de arquivo de 31 de outubro de 2010 do então candidato à Presidência da República pelo PSDB, José Serra, e sua filha Verônica Serra durante entrevista coletiva realizada no comitê central da campanha, no Centro de São Paulo — Foto: Robson Fernandjes/Estadão Conteúdo/Arquivo
No pedido de busca e apreensão na casa do senador e ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB), o Ministério Público Federal em São Paulo (MPF-SP) argumentou à Justiça que quatro obras do pintor Cândido Portinari podem ter sido utilizadas para a prática de lavagem de dinheiro. O senador foi denunciado por lavagem de dinheiro na última sexta-feira (leia mais abaixo).
Na investigação, os procuradores identificaram a transferência de 326 mil euros da offshore Hexagon, controlada pelo empresário José Amaro Ramos, para a offshore Dortmund, gerida por Verônica, filha de Serra. A Hexagon disse que transferiu a quantia por meio da compra e venda das quatro obras.
As buscas na casa de Serra, em Alto de Pinheiros, ajudariam a esclarecer a transação, de acordo com o MPF.
“(…) A eventual busca na residência de José Serra pode melhor elucidar uma das transações específicas, na qual a Hexagon justifica a transferência de 326 mil euros para a Dortmund com a compra e venda de ‘quatro portinaris’. Assim, é possível esclarecer, na busca, se há a existência de lavagem de dinheiro em favor de José Serra por meio de obras de arte, com o respectivo pagamento no exterior (…)”, apontaram os procuradores no documento.
Segundo o MPF, as buscas visariam, principalmente, analisar a relação de Serra com a offshore Dortmund, já que ele não realizou operações diretamente com ela, mas teria sido seu “real beneficiário”, conforme outras evidências compiladas pelos procuradores.
“Grande parte dos atos típicos de lavagem de capitais se perfaz precisamente com a participação de interpostas pessoas, que ocultam temporariamente – e assim dissimulam – seu real beneficiário. Em poucas palavras: no contexto desvelado, o fato de que José Serra não realizou operações a partir da Dortmund recomenda a busca de medidas voltadas a compreender se e como ele delas veio a se beneficiar”, argumentou o MPF.
No despacho que autorizou as buscas na sexta-feira (3), o juiz Diego Paes Moreira, da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, atendeu parcialmente a este pedido. Considerou a hipótese adequada “para justificar a busca de eventuais documentos de negociação (compra ou venda) de obras de arte”, pois é uma prática já vista em operações financeiras suspeitas, mas não liberou a apreensão das obras de arte em si – “diligência que exige a prévia análise da documentação pertinente às eventuais transações”.
Em nota, a defesa do senador José Serra informou que ainda não teve acesso a todos os procedimentos existentes, “o que por si só demonstra uma forte violação dos seus direitos”. “A decisão judicial só confirma a percepção inicial de total desnecessidade da busca e da ausência absoluta de base legal para a mesma”, escreveram os advogados em nota.
A defesa de Verônica Allende Serra informou nesta segunda-feira (6) que continua na expectativa de ter acesso a todos os procedimentos para apresentar a sua defesa, e acrescentou que “diante de especulações quanto ao pretenso envolvimento em venda e compra de valiosas obras de arte, o advogado Antonio Pitombo esclarece que isso jamais ocorreu e se trata de uma inverdade, sem qualquer base fática”.
Dinheiro convertido em ações
Em sua decisão, o juiz Diego Paes Moreira observou alguns elementos que indicam a suposta aplicação em ações de parte do dinheiro investigado ao longo de anos, inclusive daquele que teria sido conseguido por meio da venda dos quadros.
Em 31 de março de 2006, a Hexagon teria realizado uma transferência para a Dortmund no valor de 326 mil euros.
Por meio da análise do extrato bancário da Dortmund foi constatado que 200 mil euros do montante foram enviados a outra conta bancária e 121 mil euros foram convertidos em dólar e aplicados em ações da Heinz e da Leucadia National.
Dos 200 mil euros remanescentes, 152 mil euros teriam sido utilizados para o pagamento de 3.760 ações da Inbev SA.

José Serra é denunciado pela Lava Jato; 5 pontos para entender o caso
Serra denunciado pela Lava Jato
Na sexta-feira, a força-tarefa da Operação Lava Jato em São Paulo denunciou o senador e ex-governador de São Paulo José Serra e a filha dele, Verônica Allende Serra, por lavagem de dinheiro.
Segundo o MPF, a Odebrecht pagou a Serra cerca de R$ 4,5 milhões entre 2006 e 2007, supostamente para usar na sua campanha ao governo do estado de São Paulo; e cerca de R$ 23 milhões, entre 2009 e 2010, para a liberação de créditos com a Dersa, estatal paulista extinta no ano passado.
Serra não vai responder a crimes atribuídos a ele até 2010 porque já prescreveram, mas responderá por supostos crimes de lavagem de dinheiro que ocorreram após essa data. .
2 de 5Arte mostra denúncia do Ministério Público contra José Serra — Foto: Arte/G1
Arte mostra denúncia do Ministério Público contra José Serra — Foto: Arte/G1
SERRA DENUNCIADO PELA LAVA JATO
A força-tarefa da Operação Lava Jato em São Paulo denunciou o senador e ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB) e a filha dele, Verônica Allende Serra, por lavagem de dinheiro. A Polícia Federal fez buscas na casa em nome do tucano, em Alto de Pinheiros, Zona Oeste da capital paulista, na manhã desta sexta-feira (3).

Lava Jato denuncia José Serra por lavagem de dinheiro, PF cumpre mandado de busca
Segundo os investigadores, os agentes foram recebidos apenas pela ex-mulher de Serra, Mônica. Na casa foram apreendidos pen-drives, HDs e computadores. Serra não estava no local por motivos de saúde, também segundo os agentes.
José Serra, que tem 78 anos, foi eleito governador do estado no pleito de 2006, tendo assumido e governado de 1º de janeiro de 2007 até abril de 2010, quando renunciou para concorrer à Presidência (o tucano, entretanto, não se elegeu). No pleito de 2018, o tucano foi eleito senador pelo estado de São Paulo.
Em nota, Serra criticou a operação e disse que as buscas e apreensões realizadas em sua residência foram “medidas invasivas e agressivas”.
Também em nota, a assessoria de Serra disse que a operação “causa estranheza e indignação”. “Serra reforça a licitude dos seus atos e a integridade que sempre permeou sua vida pública. Ele mantém sua confiança na Justiça brasileira, esperando que os fatos sejam esclarecidos e as arbitrariedades cometidas devidamente apuradas”.
3 de 5O senador José Serra (PSDB-SP) discursa no plenário do Senado Federal — Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
O senador José Serra (PSDB-SP) discursa no plenário do Senado Federal — Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
Partido de Serra, o PSDB disse confiar no senador e defende investigação dos fatos.
Segundo o Ministério Público Federal, a Odebrecht pagou a Serra cerca de R$ 4,5 milhões entre 2006 e 2007, supostamente para usar na sua campanha ao governo do estado de São Paulo; e cerca de R$ 23 milhões, entre 2009 e 2010, para a liberação de créditos com a Dersa, estatal paulista extinta no ano passado.
Os procuradores concluíram que houve lavagem de dinheiro usando a técnica “follow the money” (“siga o dinheiro”, em tradução livre).
A denúncia diz que Serra e Verônica praticaram lavagem de dinheiro de obras do Rodoanel Sul no exterior de 2006 a 2014.
O senador não vai responder a crimes atribuídos a ele até 2010, como corrupção. Esses crimes já prescreveram, segundo a denúncia. Como Serra tem mais de 70 anos, o tempo para os crimes prescreverem cai pela metade.
No entanto, o tucano responderá por supostos crimes de lavagem de dinheiro que ocorreram após essa data, e que, segundo o MPF, foram cometidos até 2014. Segundo a denúncia, a cadeia de transferência e ocultação do dinheiro ocorreu de 2006 a setembro de 2014 e foi controlada pela filha Verônica.
Em nota, a Odebrecht diz colaborar com a Justiça. “A Odebrecht, hoje comprometida com atuação ética, íntegra e transparente, colabora com a Justiça de forma permanente e eficaz para esclarecer fatos do passado”.
Veja quem foi denunciado
- José Serra: hoje senador, ex-governador de SP foi denunciado duas vezes por lavagem de dinheiro
- Verônica Allende Serra, filha de Serra, foi denunciada duas vezes por lavagem de dinheiro

Lava Jato denuncia José Serra por lavagem de dinheiro e PF cumpre mandado de busca
Como funcionou o esquema, segundo o MPF
No fim do ano eleitoral de 2006, conforme apontado na denúncia, Serra solicitou ao executivo da Braskem, Pedro Novis, que intermediava a relação com a Odebrecht e hoje é colaborador da Justiça, o pagamento de R$ 4,5 milhões e pediu para receber o montante não no Brasil, mas no exterior, por meio da offshore Circle Techincal Company, indicada pelo empresário José Amaro Pinto Ramos, amigo do tucano por anos.
Segundo as investigações, Ramos é apontado como lobista ligado ao PSDB e abriu na Suíça uma conta da offshore “Circle Technical Company”, controlada por Verônica Serra, filha do senador, que recebia esses pagamentos indevidos.
De acordo com a denúncia do MPF, o já conhecido “Departamento de Operações Estruturadas” da construtora Odebrecht fez, entre 2006 e 2007, numerosas transferências para essa companhia por meio de outras offshores ligadas à empreiteira no exterior.
A partir daí, a “Circle Technical Company” distribuía os valores para as outras contas de empresas – entre elas a Dortmund Internacional, no Panamá, criada por um cidadão uruguaio, mas com uma procuração que dava à Verônica Serra poderes para gerir os valores.
4 de 5Mapa esquematiza caminho do dinheiro pago pela Odebrecht no exterior em esquema ligada ao senador José Serra. — Foto: Reprodução/TV Globo
Mapa esquematiza caminho do dinheiro pago pela Odebrecht no exterior em esquema ligada ao senador José Serra. — Foto: Reprodução/TV Globo
O objetivo do esquema, segundo os procuradores federais, era esconder tanto a origem quanto os verdadeiros beneficiários da propina paga para que a Odebrecht fosse favorecida nas obras do trecho sul do Rodoanel de São Paulo.
O MPF obteve autorização na Justiça Federal para o bloqueio de cerca de R$ 40 milhões em uma conta na Suíça, ligado ao esquema. José Amaro Pinto Ramos é citado como responsável pela operação das transferências, mas não foi denunciado pelo MPF porque tem mais de 70 anos e os crimes atribuídos a ele também prescreveram.
A construção do anel viário começou em 1998 e não terminou até a presente data. Quando for finalizado, o rodoanel terá 176 quilômetro de extensão e vai interligar 10 rodovias da Grande São Paulo.

Serra é denunciado pela Lava-Jato por lavagem de dinheiro e alvo de buscas pela PF
Buscas contra empresário
Na operação desta sexta (3), a PF cumpriu oito mandados de buscas e apreensão em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Em São Paulo, além do endereço de José Serra, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão um imóvel na Vila Nova Conceição, na Zona Sul da cidade. No endereço, o alvo da operação era o empresário Ronaldo Cezar Coelho, que foi também tesoureiro do PSDB. Ele não é citado na denúncia apresentada pelo MPF.
À TV Globo, o advogado Jorge Salomão, responsável pela defesa do empresário, disse que o escritório de advocacia dele foi acionado por Coelho para acompanhar a busca e apreensão, mas que nada foi levado pelos agentes da PF. “Nada foi apreendido. A investigação é sigilosa e não temos detalhes do que vieram buscar”, disse.
Empresas ligadas ao empresário no Rio de Janeiro também foram alvos. “Não sei qual é a relação e se há relação entre o senador Serra e o meu cliente”, disse o advogado.
A denúncia é uma das etapas das investigações. Após ela ser apresentada, a Justiça decide se a aceita ou não. Posteriormente, se aceitar, decide se condena ou absolve os réus.

José Serra é denunciado pela Lava Jato; 5 pontos para entender o caso
‘Follow the money’
Os procuradores chegaram à conclusão que houve lavagem de dinheiro usando a técnica “follow the money” (“siga o dinheiro”, em tradução livre).
A denúncia encaminhada pela força-tarefa da Lava Jato em São Paulo para a 6ª Vara Federal Criminal no estado contra Serra e Verônica diz que os dois praticaram lavagem de dinheiro de obras do Rodoanel Sul no exterior de 2006 a 2014.
Esse dinheiro, segundo a denúncia, era proveniente de crimes como:
- corrupção passiva e ativa
- fraudes à licitação
- cartel
O dinheiro vinha da construtora Odebrecht que manteve contratos públicos com o governo de São Paulo.
A Odebrecht chegou a pagar R$ 4,5 milhões entre 2006 e 2007 para a campanha de Serra ao governo de São Paulo. Serra indicou que queria receber esse montante no exterior, por meio da offshore de Pinto Ramos.
Depois, a Odebrecht pagou, entre 2009 e 2010, cerca de R$ 23,3 milhões a Serra para a liberação de créditos com a Dersa, estatal paulista extinta no ano passado.
A relação de Serra com a Odebrecht era intermediada pelo executivo da Braskem e hoje colaborador da Justiça, Pedro Augusto Ribero Novis, vizinho do senador em São Paulo. Por isso, Serra ganhou o codinome “vizinho” nas planilhas da Odebrecht.
“Em razão dessa proximidade, cabia sempre a Pedro , em nome da Odebrecht, receber de José Serra, em encontros realizados tanto em sua residência quanto em seu escritório político, demandas de pagamentos, em troca de ‘auxílios’ diversos à empreiteira, como os relativos a contratos de obras de infraestrutura e a concessões de transporte e saneamento de seu interesse.”
A Odebrecht fazia os pagamentos de propinas por meio do “Setor de Operações Estruturadas”.
O que diz Serra
Serra criticou, em nota à imprensa, a operação afirmando que a busca e apreensão realizada em sua residência foram “medidas invasivas e agressivas”.
Leia a íntegra da nota:
“Causa estranheza e indignação a ação deflagrada pela Força Tarefa da Lava Jato de São Paulo na manhã desta sexta-feira (3) em endereços ligados ao senador José Serra. Em meio à pandemia da Covid-19, em uma ação completamente desarrazoada, a operação realizou busca e apreensão com base em fatos antigos e prescritos e após denúncia já feita, o que comprova falta de urgência e de lastro probatório da acusação.
É lamentável que medidas invasivas e agressivas como a de hoje sejam feitas sem o respeito à Lei e à decisão já tomada no caso pela Suprema Corte, em movimento ilegal que busca constranger e expor um senador da República.
O senador José Serra reforça a licitude dos seus atos e a integridade que sempre permeou sua vida pública. Ele mantém sua confiança na Justiça brasileira, esperando que os fatos sejam esclarecidos e as arbitrariedades cometidas devidamente apuradas”.
A assessoria de Serra também divulgou nota: Leia a íntegra:
“Causa estranheza e indignação a ação deflagrada pela Força Tarefa da Lava Jato de São Paulo na manhã desta sexta-feira (3) em endereços ligados ao senador José Serra. Em meio à pandemia da Covid-19, em uma ação completamente desarrazoada, a operação realizou busca e apreensão com base em fatos antigos e prescritos e após denúncia já feita, o que comprova falta de urgência e de lastro probatório da Acusação.
É lamentável que medidas invasivas e agressivas como a de hoje sejam feitas sem o respeito à Lei e à decisão já tomada no caso pela Suprema Corte, em movimento ilegal que busca constranger e expor um senador da República.
O Senador José Serra reforça a licitude dos seus atos e a integridade que sempre permeou sua vida pública. Ele mantém sua confiança na Justiça brasileira, esperando que os fatos sejam esclarecidos e as arbitrariedades cometidas devidamente apuradas.”
Em nota, o advogado Eduardo Carnelós, que defende o empresário José Amaro Pinto Ramos, manifestou “indignação com a violência de que ele foi vítima nesta data, ao ter seu lar submetido a uma devassa, em cumprimento a uma decisão judicial, cujo teor, até às 18h, não é do conhecimento de ninguém”.
A defesa de Ramos diz que qualquer crime imputado a ele já prescreveu.
“Os fatos atribuídos a José Amaro, homem que tem hoje 84 anos de idade, teriam ocorrido em 2006 e 2007, há pelo menos treze anos, portanto. Esse tempo é mais do que suficiente para levar à prescrição de qualquer crime que pudesse ser imputado a Ramos, tanto que ele não foi denunciado”, afirmou Carrnelós.
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