1 de 3Idoso ficou internado por cerca de 11 dias e morreu em menos de duas horas após alta médica — Foto: Arquivo Pessoal/André Arakaki
Idoso ficou internado por cerca de 11 dias e morreu em menos de duas horas após alta médica — Foto: Arquivo Pessoal/André Arakaki
Um idoso de 78 anos morreu menos de duas horas após receber alta médica em um hospital particular de Santos, no litoral de São Paulo. Pedro Hideo Arakaki ficou internado por 11 dias, após ser diagnosticado com Covid-19. O filho, o policial civil André Luis Arakaki, suspeita que o concentrador de oxigênio fornecido pelo hospital para o pai usar em casa apresentou defeito, e isso pode ter causado a morte do homem. Além disso, ele desconfia que houve negligência médica, pelo fato de o idoso ter sido liberado em menos de 20 dias.
André relata que o pai começou a apresentar sintomas da doença no dia 2 de julho. Pedro passava alguns dias na casa do filho e foi levado ao Hospital de Bertioga, onde foi feito o exame de swab nasal. No local, foi constatado que a saturação do paciente estava abaixo de 90 e, por isso, foi definida sua internação. Como ele tem convênio médico, foi transferido para a Beneficência Portuguesa, em Santos, no mesmo dia.
O idoso apresentou melhora no quadro clínico e foi liberado a voltar para casa. Dias depois, o resultado do exame confirmou o contágio pelo novo coronavírus. No dia 5, ele voltou a passar mal e foi novamente internado na mesma unidade, onde permaneceu sob cuidados médicos até 16 de julho.
“De acordo com o boletim médico liberado toda manhã, ele vinha evoluindo positivamente. Eu estava de prontidão para levá-lo para casa naquele dia, só que não deixaram, teve que a ambulância fazer a locomoção. Ele deve ter ido no cilindro de oxigênio. Essa foi a primeira suspeita, porque as enfermeiras alegavam que ele estava saturando 98 sem o auxílio de aparelhos, essa é a observação para poder dar alta”, explica o filho.
Ele conta que, ao chegar em casa, o pai estava bem, falante e brincando, totalmente são, e até subiu as escadas sozinho para chegar ao apartamento, que fica no primeiro andar. No imóvel, já estava o concentrador de oxigênio, fornecido pelo hospital, conforme informa André.
2 de 3Família busca respostas para a morte do idoso de 78 anos — Foto: Arquivo pessoal/André Arakaki
Família busca respostas para a morte do idoso de 78 anos — Foto: Arquivo pessoal/André Arakaki
“Esse aparelho ia de 0 a 5 mililitros por minuto. Eles [equipe médica] alegaram que meu pai tinha que completar o restante da quarentena em casa, e como estava saturando bem, o concentrado seria só para dar um conforto e estabilidade maior”, afirma. O aparelho foi ligado assim que o pai chegou em casa e, depois de um tempo, começou a apresentar problemas.
“Ele falava que não estava chegando oxigênio. Ligamos para a empresa fornecedora, e eles passaram as coordenadas”, conta. Na ocasião, foi verificado se a mangueira estava dobrada, se o aparelho estava bem encaixado e se estava ligado corretamente na tomada. Após cerca de 30 minutos, o pai de André começou a se queixar de uma forte dor nas costas e apresentou bastante dificuldade de respiração.
“Acredito que, ali, ele estava entrando em parada cardíaca já”, afirma. A família fez o chamado para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que chegou bem rápido, conforme relata o policial. O idoso foi levado novamente para a unidade, onde foi entubado e passou por procedimento de reanimação, mas ele não resistiu, falecendo menos de duas horas após a alta.
O atestado de óbito apontou morte por insuficiência respiratória e pneumonia em decorrência da Covid-19, conforme informou o filho.
Alta suspeita
Segundo André, o pai recebeu a alta de uma médica que já havia sido alvo de reclamações de sua família. Os parentes já haviam pedido junto à auditoria do hospital, em fevereiro de 2019, para a profissional não atendê-lo mais. À época, o idoso foi atendido pela médica em questão, que passou a dosagem de 30 gotas de um medicamento que quase levou Pedro a óbito, segundo o filho.
“Na época, ela alegou que foi erro de dosagem. Ela falou que era de 2 a 3 gotas e eu coloquei 30. Eu tenho prova disso, tenho um receituário assinado por ela. Agora, ela dá alta e me pai morre. É estranho um idoso, com histórico de saúde complicado, que tinha enfisema pulmonar e Covid, receber alta em 11 dias. Normalmente, a gente vê os idosos levarem de 20 a 25 dias para se recuperarem. Fora o aparelho, que parece que não estava funcionando”, afirma.
André explica que, aproximadamente dois minutos após ser ligado, o aparelho começou a apresentar um ‘bip sonoro’ e uma luz amarela intermitente, e que isso não é comum. As instruções foram todas seguidas por ele, para que o pai pudesse usar o aparelho, no entanto, o equipamento apresentou esse problema.
3 de 3Após poucos minutos de funcionamento, uma luz amarela piscava sem interrupção, conforme relata o filho — Foto: Arquivo pessoal/André Arakaki
Após poucos minutos de funcionamento, uma luz amarela piscava sem interrupção, conforme relata o filho — Foto: Arquivo pessoal/André Arakaki
“Na minha casa, eu fiz todos os procedimentos, e apresentou de novo insuficiência de oxigênio ou mal funcionamento”. O policial ainda afirma que o hospital está demorando a entregar o prontuário médico de Pedro, já solicitado pela família. A previsão para envio do documento era segunda-feira (20), mas até o momento não foi entregue.
“Para mim, o aparelho está com defeito, não é normal ele estar apitando. Eu fiz todos os procedimentos que o técnico pediu para fazer, e ele continuou apitando. E quando à alta, parece que foi uma negligência médica, mas isso só a investigação vai dizer. Eu não tinha o que fazer, ele morreu nos meus braços”, desabafa.
André registrou boletim de ocorrência na Delegacia Sede de Bertioga, cidade onde mora, e o aparelho foi apreendido para perícia. O caso foi encaminhado para o 5º DP de Santos, onde será investigado pela Polícia Civil.
O G1 entrou em contato com a assessoria do Hospital Beneficência Portuguesa de Santos, mas até a última atualização dessa reportagem não obteve retorno.
