
A falta de estrutura tecnológica e de espaço adequado estão entre os principais motivos para que o processo de aprendizagem seja menos produtivo. Além da falta de estrutura tecnológica e espaço para estudar, Jhenifer também teve que lidar com o luto pela morte da avó.
Arquivo pessoal/ Jhenifer de Souza Fortunato
Dividir uma casa de quatro cômodos com mais cinco pessoas durante 24 horas é a realidade de uma estudante de psicologia que mora em Santa Isabel desde que a pandemia do coronavírus começou. Jhenifer de Souza Fortunato, de 22 anos, divide o espaço com a mãe e os quatros irmãos mais novos, por muito mais tempo. Antes também dividia a casa com a avó, mas ela morreu com Covid-19 recentemente.
Dos seis integrantes da família, três estão estudando à distância usando notebook e os aparelhos celulares. Para Jhenifer, estudante de psicologia de uma universidade particular em Mogi das Cruzes, a falta de espaço impacta diretamente o aproveitamento das aulas remotas. E com o luto, também surgiram as dificuldades emocionais.
“Está sendo complicada a situação, porque eu tenho bastante dificuldade para me concentrar. Para que o estudo seja algo proveitoso, eu preciso de silêncio e lugar com o mínimo de distrações possíveis, porém isso é quase impossível no meu caso, pela quantidade de pessoas, pelo barulho e por não ter um lugar exclusivo para estudar. Meus irmãos que estudam também enfrentam o mesmo problema. A adaptação está sendo realmente muito difícil, principalmente porque temos criança em casa e mantê-las em silêncio é uma missão impossível”.
Os custos com energia e alimentação também aumentaram para a família durante a quarentena. “A energia aumentou significativamente, além dos custos com alimentação, porque passarmos mais tempo em casa e comemos com mais frequência”, ressalta.
Segundo a estudante de psicologia, as irmãs mais novas assistem as aulas gravadas e estudam sozinhas. Uma está no ensino médio e a outra no último ano do ensino fundamental, de uma escola estadual do bairro da cidade.
“Minhas irmãs estão fazendo as atividades e se virando como podem, mesmo sem a estrutura esperada. Quando eles têm dúvidas, eles consultam os professores, perguntam para mim ou para minha mãe. Elas têm dificuldades. O aproveitamento não está sendo o esperado, mas é o possível para o momento atual”, conta Jhenifer.
Mesmo com os professores disponíveis para tirar dúvidas dos alunos, Jhenifer sente falta das aulas presenciais. “É mais fácil compreender e tirar as dúvidas quando o professor está ali, cara a cara. Tem a questão da estrutura também, a sala de aula foi pensada para que fosse um local de aprendizagem, já minha casa não”, lamenta.
Ester Lopes, também mora em Santa Isabel e tem 21 anos. A estudante de fisioterapia teve que se adaptar a uma nova rotina com a quarentena. Depois de passar três anos dividindo a casa com os amigos para poder estudar em Ribeirão Preto, com a pandemia e o cancelamento das aulas presenciais, teve que voltar a morar com a mãe e o irmão mais novo.
“Na minha casa cada um tem um quarto, então temos esse privilégio de ter espaço. Mas para mim foi difícil no começo, porque já fazia três anos que eu não morava com meus pais. Eu fazia o meu horário e não tinha interrupção. Quando eu voltei para a casa, eu tive que lidar com a rotina da minha mãe e do meu irmão. Porque eu e meu irmão estudamos remotamente, e minha mãe está em home office. O meu maior desafio foi aprender a dividir o espaço”.
Para a estudante de fisioterapia, estudar à distância está sendo um desafio. As matérias teóricas foram adiantadas e os professores escolhem o método de ensino, alternando entre aulas gravadas e em tempo real. “Eu consolido muito o que eu aprendo vendo os pacientes, e agora não posso fazer isso. Eu também tinha muito o costume de pegar livros na biblioteca. Além de que toda a interação entre professor e aluno na aula retoma é totalmente diferente”, explica.
Ester estuda à distância e divide o espaço com a mãe que trabalha em home office.
Arquivo pessoal/Ester Lopes
Para Ester, o rendimento nas aulas presenciais era maior. “Eu sinto que estou aprendendo em um ritmo mais lento, com menos motivação e foco. Meu curso é da área da saúde, e eu sinto muita falta das aulas práticas e das visitas com os pacientes”, conta.
A psicopedagoga institucional e mestre em psicologia da educação Rony Gladys Albuquerque Lins Melo explica que, entre os requisitos básicos para a aula on-line, está o espaço adequado e sem interferências.
“Pensa, uma pessoa está estudando e aparece uma criança correndo, um cachorro latindo, entre outras variáveis que tiram a atenção. Quando não conseguimos prestar a atenção, o nosso cérebro não registra o necessário.Então é necessário um local separado das pessoas e silencioso”.
Segundo a psicopedagoga, quando mais velha for a criança, mais fácil será o ensino on-line. “A criança não consegue reter a atenção em uma aula online de cinco horas. Então é preferível ter uma quantidade menor de disciplinas, mas que a criança realmente aprenda. Neste momento estamos tendo um ganho emocional, mas os alunos estão perdendo aprendizado, que pode ser recuperado porque o ensino é acumulativo”, ressalta.
Crianças até 6 anos precisam do acompanhamento dos pais durante as aulas. Já as crianças até 10 anos precisam realizar as atividades sozinhas para criar uma rotina e os pais devem verificar.
“O mais importante é motivar as crianças, falar da importância das aulas e não desmerecer o método de ensino. Então os pais precisam estar motivando com a presença, com horário e com local adequado. A rotina é fundamental, não é porque a aula é online que pode ser feita a qualquer hora”, explica Rony Gladys Albuquerque Lins Melo.
De acordo com a psicopedagoga, no retorno das aulas, os professores deverão fazer uma avaliação do que os alunos aprenderam e oferecer recuperação do conteúdo que está defasado. “É necessário que todos tenham atingido os conteúdos mínimos para continuar com o processo de aprendizagem e não ficar lacunas”, ressalta.
Ainda segundo Rony Gladys, no retorno das aulas, o acolhimento deve ser o mais prazeroso possível. “Não adianta as escolas quererem voltar e correr com os conteúdos. Isso não deve ser feito, porque a criança vai assustar, vai cansar e não vai aprender. Tudo tem seu tempo. É preciso fazer a avaliação e ir ensinando, sempre buscando encontrar quais são as maiores dificuldades, para colocar no processo de aulas paralelas”, explica.
Texto supervisionado por Fernanda Lourenço*
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