Substituto de coordenadora exonerada do Inpe diz que terá autonomia e que não aceitaria manipular dados: ‘tenho um currículo a zelar’

Gilvan Sampaio é novo coordenador de estudos sobre Amazônia — Foto: Reprodução/TV Vanguarda 1 de 1
Gilvan Sampaio é novo coordenador de estudos sobre Amazônia — Foto: Reprodução/TV Vanguarda

Gilvan Sampaio é novo coordenador de estudos sobre Amazônia — Foto: Reprodução/TV Vanguarda

O novo responsável pela coordenação dos estudos sobre a Amazônia no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) disse que vai manter trabalho de monitoramento independente e transparente na instituição. Gilvan Sampaio é pesquisador na instituição há 25 anos e vai assumir coordenação de estudos sobre a floresta.

De acordo com o pesquisador, a exoneração de Lúbia Vinhas, da coordenação-geral de Observação da Terra, na última segunda-feira (13) não vai interferir nos trabalhos de pesquisa.

A Observação da Terra é a área do Inpe responsável, entre outras atribuições, pelo monitoramento da devastação da Amazônia, por meio do sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter). Lúbia estava à frente do setor e foi exonerada depois de um alerta de desmatamento recorde.

De acordo com a nota emitida pelo Inpe nesta segunda, a mudança faz parte da reestruturação do instituto, proposta pelo diretor interino, Darcton Damião. Em outubro de 2019, ele havia anunciado que faria a fusão entre os setores de desmatamento e previsão do tempo. A pretensão foi colocada em prática com a saída de Lúbia. Gilvan Sampaio, atual responsável pelo Cento de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, passa a assumir esse posto.

Gilvan está à frente do Cptec e integra o Inpe há 25 anos como pesquisador. Suas áreas de estudo são os impactos das mudanças de usos da terra e do aquecimento global no clima. Ao G1, ele garantiu que no novo cargo vai garantir a transparência dos dados.

“Eu tenho um currículo a zelar e não aceitaria uma posição como essa para tolir ou manipular qualquer dado ou informação. Estou colocando a minha carreira em jogo. Nos deram autonomia de que faríamos toda divulgação dos dados como eles são. Eu seria um dos primeiros a sair, caso isso não acontecesse”, diz Gilvan.

A reestruturação deveria ser feita apenas após a publicação em Diário Oficial, o que ainda não ocorreu. Segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC), detalhes devem ser repassados na coletiva de imprensa marcada para esta terça-feira (14), às 15h.

Segundo Gilvan, foram enxugadas as coordenações do Inpe, que antes contava com 15 pessoas. Com a mudança, os grupos de atuação se concentram em direção; coordenação geral para questões ambientais; engenharia e espaço; infraestrutura e vice-direção.

“Não há nenhuma recomendação ou ordem de cima para baixo para que isso seja usado para omitir ou atrapalhar informações geradas pelo Inpe”, completou Gilvan.

De acordo com o Inpe, Lúbia vai assumir como Chefe da Divisão de Projeto Estratégico, que tratará implementação da nova Base de Informações Georreferenciadas (“BIG”) do instituto.

Carta aberta

Dois grupos de pesquisadores divulgaram cartas abertas pedindo cautela sobre a nova estrutura. Eles alertam que o projeto prevê enxugamento de setores e que só deveria ser feita após a eleição de um novo diretor.

Darcton está no cargo como interino. A nova escolha está em processo e tem nove nomes que disputam o cargo, segundo apurou o G1. As identidades não foram reveladas.

Em uma das cartas, os pesquisadores citam que existe uma estrutura paralela de gestão da instituição, caracterizada pela “verticalização e unificação de comando aos moldes das estruturas militares, claramente na contramão das tendências atuais de pesquisas em redes colaborativas com liberdade acadêmica e autonomia científica”.

Os pesquisadores ainda questionam que, com o novo modelo aprovado, Darcton seria beneficiado na disputa pelo cargo oficial. Ele foi nomeado depois da exoneração do ex-diretor Ricardo Galvão, após a polêmica envolvendo o presidente Jair Bolsnaro (sem partido) sobre os dados da Amazônia.

“No limite, o Comitê de Busca terá que enfrentar o dilema entre desclassificar o atual Diretor interino, por eventualmente apresentar um plano de gestão completamente desalinhado ao INPE que hoje existe oficialmente, ou desclassificar os demais candidatos, por apresentarem planos em desacordo com a estrutura prestes a ser implantada”.

By Tribuna ABC

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