Foto de arquivo mostra estátua ‘Diana Caçadora’, danificada, na Praça Pedro Lessa, no Vale do Anhangabaú, centro da cidade de São Paulo — Foto: Antonio Milena/Estadão Conteúdo
Foto de arquivo mostra estátua ‘Diana Caçadora’, danificada, na Praça Pedro Lessa, no Vale do Anhangabaú, centro da cidade de São Paulo — Foto: Antonio Milena/Estadão Conteúdo
Pouco mais de um ano após o furto de uma estátua no Anhangabaú, no Centro de São Paulo, ativistas reivindicam, por meio de um abaixo-assinado lançado nesta terça-feira (18), um monumento em homenagem às negras e negros. O vale passa por revitalização e as obras devem acabar ainda este ano após atraso no cronograma.
Em novembro, a polícia de São Paulo concluiu a investigação sobre o furto da escultura “Diana, a Caçadora” no canteiro de obras para requalificação do Vale do Anhangabaú, sem localizar o monumento e sem encontrar indícios da autoria do crime.
As ONGs Movimento Acredito e Educafro iniciaram, então, uma campanha por uma estátua negra no local.
“Durante os protestos contra o assassinato de George Floyd muitas estátuas foram derrubadas ao redor do mundo. Penso que, paralelamente, também devemos construir os símbolos que realmente nos representam. É uma oportunidade de São Paulo se posicionar de forma antirracista, especialmente neste ano em que a discussão foi tão grande”, argumentou Samuel Emílio, idealizador da campanha.
7 de junho – Manifestantes derrubam estátua do traficante de escravos Edward Colston, em Bristol, na Inglaterra — Foto: Ben Birchall/PA via AP
7 de junho – Manifestantes derrubam estátua do traficante de escravos Edward Colston, em Bristol, na Inglaterra — Foto: Ben Birchall/PA via AP
“Se tivermos um monumento negro, no centro da maior cidade da América Latina, a gente finalmente dá um reconhecimento às pessoas que ajudaram a construir esse país, e mostra que as negras e negros também merecem um lugar de protagonismo”, continuou.
No abaixo-assinado, as ONGs convidam a própria população a indicar uma referência negra que gostaria de ver representada no Vale do Anhangabaú.
“Penso que muita gente merecia virar monumento – Dandara e Zumbi dos Palmares, Poderia ser Abdidas, Marielle, Carolina de Jesus, Tereza de Benguela… Mas acho que ninguém melhor do que os próprios paulistanos para escolher a estátua para o centro da cidade. A ideia é apresentar as sugestões para que a gestão atual analise”, explicou Samuel Emílio.
Em junho deste ano, diversos monumentos foram derrubados no mundo durante protestos antirracismo. Nos Estados Unidos, estátuas de Cristóvão Colombo foram alvo de depredação, assim como outros monumentos que representam figuras ligadas à escravidão e à Guerra Civil.
No mesmo mês, na Inglaterra, manifestantes picharam uma estátua de Winston Churchill com a frase “era um racista”, em Londres, e um grupo jogou em um rio a estátua do traficante de escravos Edward Colston, em Bristol, no sul do país.
Na capital paulista, o Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera, zona sul da capital, já foi alvo de questionamentos pela população por muitas vezes, já que a obra é uma homenagem aos colonizadores que realizaram expedições em busca de metais preciosos e índios para escravizar nos séculos 17 e 18.
Foto de arquivo, tirada em 2016, mostra Monumento às Bandeiras pintado com tinta colorida — Foto: Felipe Rau/Estadão Conteúdo
Foto de arquivo, tirada em 2016, mostra Monumento às Bandeiras pintado com tinta colorida — Foto: Felipe Rau/Estadão Conteúdo
Furto no Anhangabaú
“Diana, a Caçadora” foi furtada da Praça Pedro Lessa no dia 19 de junho de 2019, conforme relatou no boletim de ocorrência um segurança do Consórcio Central, responsável pelas obras. O desaparecimento da estátua, feita de bronze com mais de dois metros de altura, só foi percebido dias mais tarde.
A base da estátua foi danificada durante o crime, mas antes disso, a escultura já havia tido o braço e o arco removidos, posteriormente localizados, e então guardados no Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal de Cultura.
O furto da estátua foi investigado pelo 3º Distrito Policial (DP) dos Campos Elíseos, mas a obra não foi localizada, nem foram encontrados indícios da autoria do crime, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP).
De acordo com a prefeitura de São Paulo, o caso foi arquivado, mas o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal de Cultura solicitou que sejam tomadas providências referentes à apuração de eventual responsabilidade civil da contratada para obras e segurança do canteiro.
O Consórcio Central foi questionado pelo G1 e disse que, à época do crime, tomou todas as providências cabíveis e não poupou esforços para colaborar com as investigações, fornecendo todos os dados e informações solicitadas.
A escultura “Diana, a Caçadora” foi colocada no Vale do Anhangabaú em 1944, durante a gestão do então prefeito Prestes Maia, e foi feita pelo Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo (LAOSP), em uma reprodução da original de Jean-Antoine Houdon, exposta no Museu do Louvre. Outras três réplicas da escultura existem na cidade – no Theatro Municipal, no Parque Ibirapuera e no Liceu.
A deusa Diana representa a protetora da natureza na mitologia grega. O trabalho de Houdon causou impactou à época de sua apresentação, no Salão de Paris de 1777, devido a representação da deusa nua e em movimento de corrida.

Estátua do Vale do Anhangabaú é furtada
Identidade e espaço público
O G1 conversou com a artista e professora Giselle Beiguelman, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Ela explica que o furto da estátua revela uma sociedade confusa sobre o que é o bem público – se é de ninguém ou de todo mundo.
“O caso evidencia como é esgarçada a noção de espaço público, de bem público no Brasil. Nós temos uma historia de violência social tão grande e de concentração de poder tão constante, que os bens públicos estão constantemente sob ataque – por isso, também, que o espaço público é alheio à população, e é rarefeita a noção do bem comum entre nós, que carecemos de uma identidade”, explicou a professora.
Giselle acrescentou que a pertinência de estátuas nos grandes centros urbanos vem sendo discuta em todo o mundo desde os primeiros anos da década de 2.000, quando disputas narrativas passaram a constituir de modo mais intenso o debate politico.
“Recentemente, em função da morte de George Floyd, isso se tornou midiático, mas não é de agora que vários grupos sociais se expressam. Basta pensar no Monumento às Bandeiras”, relembrou. “A sociedade tem questionado a história que esses monumentos guardam e consagram em todo o mundo, e São Paulo tem ainda um perfil particular devido a aleatoriedade com que uma série de obras foi implantada, e também devido a uma questão paradoxal de nomadismo desses monumentos. Carecemos de uma identidade com as obras que estão nas ruas e praças”, completou.
Pichação com a frase ‘era um racista’ é vista na estátua de Sir Winston Churchill na Parliament Square, em Londres, na segunda-feira (8) — Foto: Isabel Infantes/AFP
Pichação com a frase ‘era um racista’ é vista na estátua de Sir Winston Churchill na Parliament Square, em Londres, na segunda-feira (8) — Foto: Isabel Infantes/AFP
