Após mudar cara do Anhangabaú, Prefeitura de SP promete museu no Vale com elevador até o Viaduto da Chá

Ilustração mostra como deve ficar o futuro Museu da Cidadania e dos Direitos Humanos, na Galeria Prestes Maia, centro da cidade de São Paulo — Foto: Prefeitura de São Paulo/Divulgação 1 de 8
Ilustração mostra como deve ficar o futuro Museu da Cidadania e dos Direitos Humanos, na Galeria Prestes Maia, centro da cidade de São Paulo — Foto: Prefeitura de São Paulo/Divulgação

Ilustração mostra como deve ficar o futuro Museu da Cidadania e dos Direitos Humanos, na Galeria Prestes Maia, centro da cidade de São Paulo — Foto: Prefeitura de São Paulo/Divulgação

O museu que será implantado no novo Anhangabaú será conectado ao viaduto do Chá, por meio de um elevador, e, com isso, deve unir os espaços em prol do circuito de cultura e artes na região central da cidade de São Paulo.

Na terça-feira (1), a Prefeitura de São Paulo republicou o edital de concorrência para concessão do Vale do Anhangabaú, que visa a transferência da gestão da área para iniciativa privada, em troca da exploração comercial. A disputa havia sido suspensa após pedidos de correções pelo Tribunal de Contas do Município (TCM), que identificou irregularidades na licitação.

Neste novo edital, a prefeitura incluiu como responsabilidade da futura concessionária a implantação do Museu dos Direitos Humanos e Cidadania na Galeria Prestes Maia, que liga a Praça do Patriarca até o Anhangabaú, por baixo do Viaduto do Chá.

O projeto, no entanto, não atenua críticas de urbanistas e entidades sobre uma aparente desvalorização da memória causada pela reconstrução do vale, um dos cartões postais da capital paulista (leia mais abaixo).

De acordo com a gestão Bruno Covas (PSDB), o futuro museu vai ocupar uma área de 2 mil m² no primeiro pavimento da galeria – o Museu da Língua Portuguesa, por exemplo, tem pouco mais de 4 mil m², e, o do Futebol, quase 7 mil m².

Ainda segundo a prefeitura, as exposições terão temática sempre relacionadas às histórias das lutas pelos Direitos Humanos, praticadas por uma diversidade de vozes. A expectativa é de que cada exposição sempre culmine na conclusão sobre a importância do respeito e da tolerância, ampliando a noção de cidadania.

Mapa mostra o projeto do Museu da Cidadania, que será implantado na Galeria Prestes Maia — Foto: Prefeitura de São Paulo/Divulgação 2 de 8
Mapa mostra o projeto do Museu da Cidadania, que será implantado na Galeria Prestes Maia — Foto: Prefeitura de São Paulo/Divulgação

Mapa mostra o projeto do Museu da Cidadania, que será implantado na Galeria Prestes Maia — Foto: Prefeitura de São Paulo/Divulgação

O Museu, de acordo com a prefeitura, será um percurso expositivo, cercado de paredes de video wall, alternados com espaços para instalações artísticas. O local vai ter ainda um centro de documentação, um salão e um auditório com 100 lugares para palestras, além de outras duas salas de exposições temporárias.

“Uma característica que acho importante é que ele não será um ‘museu de destino’. Não esperamos que as pessoas saiam para visitar o museu. Ele vai estar na passagem, em meio à circulação de pessoas, possibilitando que desfrutem do museu, sem que necessariamente tenham ido para isso. Acho que esse conceito, de estar no caminho das pessoas, agrega à identidade de um museu da cidadania”, disse Marcos Cartum, autor do projeto e também da premiada Praça das Artes, espaço cultural anexo ao Theatro Municipal, que virou um modelo de como devem ser os edifícios no centro requalificado.

“Todos os equipamentos com função cultural, que fazem parte do complexo do Anhangabaú, têm que dialogar em um circuito, como o Sesc 24 de Maio, o Municipal, o CCBB, a Praça das Artes, o Museu da Cidade e o Pateo do Collegio. A Galeria Prestes Maia, que já tem uma vocação para as artes, é importante na somatória de intervenções pelo resgate da área central”, completou.

Ilustração mostra expectativa de como será a entrada do Museu da Cidadania, pela entrada da Praça do Patriarca, com uso da marquise como tela de projeção — Foto: Prefeitura de São Paulo/Divulgação 3 de 8
Ilustração mostra expectativa de como será a entrada do Museu da Cidadania, pela entrada da Praça do Patriarca, com uso da marquise como tela de projeção — Foto: Prefeitura de São Paulo/Divulgação

Ilustração mostra expectativa de como será a entrada do Museu da Cidadania, pela entrada da Praça do Patriarca, com uso da marquise como tela de projeção — Foto: Prefeitura de São Paulo/Divulgação

Galeria Prestes Maia

A Galeria Prestes Maia foi inaugurada em 1940, muito antes do Vale do Anhangabaú adquirir a configuração que se tornou um cartão-postal da cidade de São Paulo na década de 1980, e já nasceu como um espaço cultural, recebendo eventos como o Salão Paulista de Belas Artes, e artistas como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Alfredo Volpi e Victor Brecheret.

Na década de 1970, a região já começava a se degradar, o local perdeu sua função original, e passou a abrigar postos administrativos de órgãos públicos, como a Cohab. Só na década de 1990 começaram discussões sobre um convênio com o Museu de Arte de São Paulo (Masp), cuja filial foi implantada ali no ano 2.000.

Essa sucursal operou poucas vezes, recebendo quatro exposições, pois a direção do Masp alegava que infiltrações no Viaduto do Chá inviabilizavam a disposição de obras de arte no local. A prefeitura, então, pediu o prédio de volta, que passou ser usado exclusivamente como um anexo da gestão municipal.

De acordo com Marcos Cartum, autor do futuro Museu dos Direitos Humanos e Cidadania, a impermeabilização do Viaduto do Chá deverá necessariamente ser realizada pela futura concessionária.

Foto de arquivo, tirada em 2009, mostra a Galeria Prestes Maia — Foto: Itaci Batista/Estadão Conteúdo 4 de 8
Foto de arquivo, tirada em 2009, mostra a Galeria Prestes Maia — Foto: Itaci Batista/Estadão Conteúdo

Foto de arquivo, tirada em 2009, mostra a Galeria Prestes Maia — Foto: Itaci Batista/Estadão Conteúdo

Memórias do Anhangabaú

Ao mesmo tempo em que planeja a implantação de um museu para criar um vínculo do paulistano com a própria história, a Prefeitura de São Paulo está na iminência de reinaugurar, totalmente reconstruído, um Vale do Anhangabaú, que já foi o palco para 1,5 milhão de pessoas no movimento Diretas Já, em 1984.

A Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP) emitiu um posicionamento por meio de uma carta aberta, em que argumenta que “São Paulo, a cidade que se destrói e reconstrói sistematicamente, tem perdido a oportunidade de salvaguardar lugares singulares e merecedores de reconhecimento. Assim era o projeto que ali estava, elegante, merecedor de respeito, criador de memórias”, disse a entidade, que não foi a única a se manifestar contra a reconstrução total da área.

Rosa Kliass, a autora do projeto original do Vale do Anhangabaú, junto a Jorge Wilheim, chegou a enviar em 2015 um cartão-postal para lembrar ao então prefeito Fernando Haddad (PT), que iniciou as tratativas para reconstrução do vale, que o desenho fora feito mediante concurso público e que demandava recuperação, sim, mas não sua completa reconstrução.

Cartão-postal do Anhangabaú enviado pela arquiteta e urbanista Rosa Kliass ao ex-prefeito Fernando Haddad — Foto: Arquivo Pessoal 5 de 8
Cartão-postal do Anhangabaú enviado pela arquiteta e urbanista Rosa Kliass ao ex-prefeito Fernando Haddad — Foto: Arquivo Pessoal

Cartão-postal do Anhangabaú enviado pela arquiteta e urbanista Rosa Kliass ao ex-prefeito Fernando Haddad — Foto: Arquivo Pessoal

A opinião de Rosa é compartilhada pela filha de Jorge, a socióloga, Ana Wilheim. “Acho imperdoável mudar um projeto que ganhou um concurso público e que trouxe inovação, sem preservar nada do que tinha. É um crime. O mundo inteiro, os países europeus que a gente admira, estão preservados. As cidades crescem, mas não é preciso destruir a referência histórica que se tem”, argumentou Ana ao G1.

“A paisagem de uma cidade é aonde me reflito e reconheço, e deve ser um lugar que cuido e respeito. Se você mata a identidade de uma paisagem, você mata a possibilidade de amá-la. Agora, se você faz manutenção, você constrói valor, empatia, pertencimento. Isso é construir uma paisagem na cidade. Foi o que Jaime Lerner fez em Curitiba. Como se tem dinheiro para uma obra desse porte, mas não se tem dinheiro para fazer manutenção nem de um parquinho infantil? Urbanismo é só fazer obra, ou trata de manutenção também?”, questionou Ana Wilheim.

A Associação Preserva São Paulo, que no ano passado paralisou temporariamente as obras, após uma representação no Ministério Público, considera que, inclusive, houve pouco estudo arqueológico na área.

“Na ação que protocolamos conseguimos salvar os postes da Light, luminárias de quase 100 anos. Não me parece que tenham feito sequer um estudo de impacto ambiental, pois para tirar um arbusto levam-se meses, e removeram diversas árvores. Além disso provavelmente desconsideraram vestígios arqueológicos também”, disse Jorge Rubies, presidente da entidade.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo disse que não está correta informação sobre os postes, que sempre estiveram mantidos no projeto. A gestão municipal disse também que houve acompanhamento arqueológico, mas apenas nas encostas próximas à escadaria que liga o vale ao Edifício Sampaio Moreira, pois o Anhangabaú fica sobre laje e túneis. O serviço identificou trilhos dos antigos bondes da capital. Sobre o impacto ambiental, a prefeitura disse que o manejo arbóreo foi aprovado pela Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente.

Foto de arquivo tirada em 2010 mostra luminária centenária do Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo — Foto: Alf Ribeiro/Estadão Conteúdo 6 de 8
Foto de arquivo tirada em 2010 mostra luminária centenária do Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo — Foto: Alf Ribeiro/Estadão Conteúdo

Foto de arquivo tirada em 2010 mostra luminária centenária do Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo — Foto: Alf Ribeiro/Estadão Conteúdo

Os skatistas, que frequentam o vale do Anhangabaú há pelo menos três décadas, realizaram uma manifestação quando se depararam com tapumes cercando a área em junho do ano passado. Eles fizeram um abaixo-assinado, que contou com 10 mil assinaturas, e que foi levado até a prefeitura como um pedido de atenção pelo poder público.

“Abandonado, o Anhangabaú foi apropriado pelo skate, e se tornou muito importante para essa cultura, do mesmo modo que o Macba, em Barcelona, que o Southbank, em Londres, que o Hotel de Ville, em Lyon, que o Love Park, na Filadélfia. São todos lugares icônicos porque é onde gerações criam cenas. É um patrimônio imaterial, que não fica guardado dentro de um prédio. É da comunidade. É a memória do vale. A cultura do skate”, disse à reportagem o skatista profissional Murilo Guimarães Romão.

De acordo com ele, a prefeitura os recebeu à época e argumentou que colocaria uma pista no novo projeto.

“A questão é que não se tratava de uma pista, mas de uma cultura de 30 anos. Uma contracultura, na verdade. A intenção nunca foi treinar o skate, mas se apropriar da cidade, utilizar o mobiliário urbano, ressignificar os lugares. Nunca foi só uma pista”, continuou Romão.

Romão disse que a SPUrbanismo, então, topou implementar uma área para o skate entre a São Bento e a Santa Ifigênia, reutilizando os mesmos granitos do Anhangabaú, que quase viraram entulho na substituição pelo piso de concreto.

Imagem feita pelo videomaker suíço Tristan Zumbach mostra skatista utilizando detalhes do vale do Anhangabaú — Foto: Tristan Zumbach/Arquivo Pessoal 7 de 8
Imagem feita pelo videomaker suíço Tristan Zumbach mostra skatista utilizando detalhes do vale do Anhangabaú — Foto: Tristan Zumbach/Arquivo Pessoal

Imagem feita pelo videomaker suíço Tristan Zumbach mostra skatista utilizando detalhes do vale do Anhangabaú — Foto: Tristan Zumbach/Arquivo Pessoal

O que diz a Prefeitura

O G1 também ouviu o outro lado da história, por meio de representantes das duas gestões que trabalharam efetivamente no novo vale. Questionado se não deveria ser preservada a memória do Anhangabaú, o arquiteto e urbanista Fernando de Mello Franco, que foi secretário de Desenvolvimento Urbano na gestão Fernando Haddad, considerou válida a discussão, mas ainda acredita que a necessidade da obra era prioridade.

“Qual memória? Porque o Anhangabaú já teve um córrego que passava por ele, já teve uma plantação de chá, depois se transformou com a política rodoviarista, e depois teve o trabalho da Rosa Kliass e do Jorge Wilheim. O Anhangabaú passou por uma série de transformações. Eu não saberia dizer qual é a memória do Ahangabaú exatamente. Mas, sim, questionar se a necessidade de requalificar o Anhangabaú demandaria uma mudança total ou parcial, de fato, é um ponto válido de debate”, reconheceu.

Luís Eduardo Brettas, que ajuda a coordenar o projeto desde o dia 1, e hoje compõe a SP Urbanismo, pensa igual – ele considera inquestionável a necessidade da obra, mesmo que ao custo de desconfigurar o vale.

“O projeto do vale é um trabalho de requalificação. Fizemos uma infraestrutura subterrânea, por exemplo. Construímos duas mega galerias para resolver problemas de comunicação e dados. São galerias caminháveis, de modo que daqui pra frente não teremos que quebrar nada na superfície. Assim, as referências deixam de existir realmente porque foi necessário mudar a altura do terreno. Faz parte do desenvolvimento da cidade”, argumentou ele, que também disse que a prefeitura viu a montagem que circula nas redes sociais com o antes e o depois do vale.

“É obvio que surpreende. A área está em obras! O plantio acabou de ser feito! Posso te mostrar uma foto do vale da Rosa e do Jorge no dia da inauguração e você vai ver que é muito semelhante”, defendeu.

Acima, foto de arquivo, tirada em 2006, mostra vista do vale do Anhangabaú; abaixo, vale em obras de readequação e revitalização — Foto: Clayton de Souza/Estadão Conteúdo/Arquivo e Van Campos/Fotoarena/Estadão Conteúdo 8 de 8
Acima, foto de arquivo, tirada em 2006, mostra vista do vale do Anhangabaú; abaixo, vale em obras de readequação e revitalização — Foto: Clayton de Souza/Estadão Conteúdo/Arquivo e Van Campos/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Acima, foto de arquivo, tirada em 2006, mostra vista do vale do Anhangabaú; abaixo, vale em obras de readequação e revitalização — Foto: Clayton de Souza/Estadão Conteúdo/Arquivo e Van Campos/Fotoarena/Estadão Conteúdo

By Tribuna ABC

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