1 de 6Artista faz trabalhos manuais com material biológico em Mongaguá, SP — Foto: Divulgação/Renan Cardoso
Artista faz trabalhos manuais com material biológico em Mongaguá, SP — Foto: Divulgação/Renan Cardoso
Uma jovem artesã de 31 anos, moradora de Mongaguá, no litoral de São Paulo, resolveu tentar materializar o sentimento das pessoas e transformá-lo em joias. Taciana Pororoca cria brincos e pingentes que levam leite materno, placenta desidratada, cordão umbilical, cinzas de pessoas mortas, cabelos e até mesmo pelo de animais de estimação. Em entrevista ao G1, ela conta que as pessoas enxergam nas peças uma maneira de eternizar o momento de despedida.
Embora o artesanato sempre tenha feito parte de sua vida, ela relata que começou a se interessar pelas joias nada tradicionais em 2017, quando viu uma reportagem sobre joias de leite materno. “Fiquei fascinada, encantada mesmo. Nunca tinha ouvido fala. A partir disso, comecei a pesquisar como fazia e busquei maneiras de viabilizar a confecção”, afirma. Ela desenvolveu seu próprio método de criação e, com isso, surgiu a ideia de trabalhar com outros materiais além do leite.
“Se você quer preservar alguma coisa, você tem que fazer isso para ficar na história. Não estou desvalorizando a amamentação, mas tem mães que não conseguiram amamentar e querem eternizar de outra maneira. Cada pessoa tem uma história. Aí, eu comecei a desenvolver joias com cabelo, cordão umbilical, com dente, placenta e até cinzas”, explica.
2 de 6Joias feitas com cordão umbilical e placenta, respectivamente — Foto: Divulgação/Kamila Nakada
Joias feitas com cordão umbilical e placenta, respectivamente — Foto: Divulgação/Kamila Nakada
Ela encontrou na paixão pela arte, o poder de transformar um sentimento em algo material. Depois de um tempo confeccionando peças com material humano, ela passou a receber pedidos de pessoas que queriam fazer acessórios com cinzas de pets cremados. A partir disso, ela teve a ideia de trabalhar também com pelo de animais ainda vivos, para que os donos também pudessem ter uma joia de seu mascote.
Confecção das peças
Taciana explica que, além do material biológico, ela também utiliza o poliuretano – uma espécie de resina -, ouro e prata para confeccionar os pingentes e brincos, que podem ter vários formatos. A coleta do material pode ser feita presencialmente, ou então, pode ser enviado pelo correio.
“Eu recebo o material do Brasil inteiro. No caso do leite materno, peço para a cliente mandar 5 ml de leite, quase duas colheres de sopa, dentro de uma garrafinha pet. Muitas pessoas até perguntam se não fica azedo, mas isso não importa muito. O que importa mesmo é se ele vai estar branco e isso sempre acontece. Na verdade, ele precisa de diversos dias, até meses para mudar a coloração natural”, conta.
3 de 6Pingentes feitos com leite materno e cabelo humano — Foto: Divulgação/Jumaira Lima
Pingentes feitos com leite materno e cabelo humano — Foto: Divulgação/Jumaira Lima
Já com a placenta, ela pede para que a mãe envie o material já desidratado. “É mais chatinho, porque é um pedaço de tecido com sangue. Para desidratar, ela corta umas tiras da placenta e coloca no forno até esturricar. Aí está pronto para me enviar”. A partir do recebimento, ela já começa a elaborar a joia, conforme o desejado pelo cliente.
“Às vezes a cliente tem tanto carinho por aquele material que ela quer algo exatamente igual ao de alguma peça que eu já fiz. Tem outras que conseguem confiar ao ponto de me falarem para fazer o que eu quiser. Nesse caso, eu consigo pensar no que ela quer da joia, se é um formato diferente ou uma posição. Isso é muito legal, porque são joias diferenciadas”, explica a artesã.
4 de 6Além de resina, em algumas peças a artesã usa leite materno — Foto: Divulgação/Renan Cardoso
Além de resina, em algumas peças a artesã usa leite materno — Foto: Divulgação/Renan Cardoso
Cada um dos materiais reage de maneira diferente à resina. Taciana explica que o leite materno se mistura e acaba se fundindo com o poliuretano. Já com a placenta, o cordão umbilical, as cinzas e os pelos, essa resina preenche os espaços em volta. Toda a produção demora cerca de duas semanas, até que o material fique seco e ela dê acabamento nas peças.
Sentimento
Segundo Taciana, a premissa é sempre preservar o momento e a conexão com aquele sentimento importante. Para isso, é preciso que haja sensibilidade na hora de tratar com o cliente e entender como é que ele quer joia. “Cada um dos clientes tem um sentimento diferente. A mãe que acabou de ter um filho tem uma emoção diferente de alguém que acabou de perder um ente querido. Penso sempre em como elas podem se expressar e falar sobre o que sentem com aquela joia”, conta a artesã.
5 de 6Pingente feito de resina e pelo de pet — Foto: Divulgação/Jumaira Lima
Pingente feito de resina e pelo de pet — Foto: Divulgação/Jumaira Lima
Ao longo desses três anos, ela acumulou histórias emocionantes, como o caso de uma cliente que quis representar a mãe e o filho em uma só peça, com o leite materno, o cordão umbilical, além de cinzas. A artista conta que a mãe da cliente tinha o sonho de ser avó, mas foi diagnosticada com câncer e faleceu antes de conhecer o neto. “A joia representava a união dos dois”, explica.
Com a obra de arte, como intitula, a artesã tenta acolher cada um dos clientes. “Como eu trabalho realmente com sentimento, busco dar essa atenção para cada um. Do começo até o final, procuro tranquilizar, acalmar e entregar o melhor que eu posso. A maior parte das pessoas, quando recebem a joia, ficam muito emocionadas, algumas delas até choram. Tem gente que fica um tempão até conseguir falar alguma coisa sobre o item. Isso também acaba me emocionando”, finaliza.
6 de 6Jóias também podem ser feitas de pelos de animais — Foto: Divulgação/Renan Cardoso
Jóias também podem ser feitas de pelos de animais — Foto: Divulgação/Renan Cardoso
