1 de 1Sem-teto morreram em SP após comerem marmita envenenada — Foto: Reprodução/TV Globo
Sem-teto morreram em SP após comerem marmita envenenada — Foto: Reprodução/TV Globo
Flavio Araújo, pai do adolescente que foi internado após comer uma marmita envenenada em Itapevi, na Grande São Paulo, no dia 21 de julho, afirma que o filho de 11 anos precisa ser transferido para outro hospital com melhores condições de internação para cuidar do menino.
Segundo ele, o garoto não apresenta melhora do quadro clínico e precisa de um neurologista, o que não estaria sendo oferecido pelo Hospital Geral Pirajussara, em Taboão da Serra.
Por meio de nota, a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo informou que “não há recomendação médica neste momento para transferência ou alta hospitalar”. E que “a criança é acompanhada por equipe multidisciplinar, envolvendo inclusive a área de neurologia, além de pediatria, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e o serviço social.”
Um pedido de vaga em outro hospital foi feito pela Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde (Cross), mas a transferência foi negada pela Secretaria de Saúde, que administra o sistema.
“Estou no hospital desde o dia 22 de julho. Minha casa agora é o hospital. O problema é que meu filho não melhorou no período em que está internado. Ele precisa passar por um médico neurologista e não tem esse médico aqui no hospital”, afirmou.
Segundo Araújo, a explicação dada para justificar a recusa da transferência é a de que o Hospital Geral Pirajussara tem condições de fazer o atendimento ao menino. Mas, de acordo com o pai, o filho não tem recebido o atendimento adequado.
“Sou eu que monitoro a febre dele. A medicação que dão não dá conta do estado de saúde. Ele não reconhece a família, não fala mais e sente muita dor, muito desconforto. Ele precisa de algum outro especialista para melhorar”, disse Flavio.
O pai também afirma que, depois de ter recebido a recusa de transferência pelo Cross, voltou a fazer um outro pedido de vaga, passando por assistente social, mas não recebe retorno. “Cheguei a ir pessoalmente para o outro hospital que teria condições de recebê-lo para formalizar a necessidade da vaga e da transferência”, disse.
Ainda segundo a secretaria, “o paciente permanece internado e, neste momento, o caso é estável. E o hospital segue a disposição dos responsáveis para qualquer esclarecimento, como já vem fazendo” (veja íntegra da nota abaixo).

Polícia investiga em que momento marmita de sem-teto foi envenenada em Itapevi
Investigação
O caso das marmitas envenenadas está sendo investigado pela Polícia Civil de São Paulo e aconteceu em 21 de julho. Na ocasião, dois sem-teto que comeram o alimento morreram intoxicados e dois adolescentes foram internados. Entre eles, a namorada de Flávio Araújo e o filho dele, que ingeriram o alimento após Araújo levar as marmitas para casa.
A moça de 17 anos teve alta e se recupera bem em casa, mas o menino de 11 anos, que também comeu a marmita, permanece internado no Hospital Geral Pirajussara, em Taboão da Serra, desde julho.
A perícia descartou no dia 4 de agosto a possibilidade de que as marmitas tenham sido envenenadas na cozinha de uma igreja evangélica em Itapevi, que costuma distribuir alimentos para moradores de rua da Grande SP.
O Instituto Médico Legal (IML) já havia encontrado veneno de rato no alimento. A Polícia Civil apura a possibilidade de que a comida tenha sido envenenada por vingança após uma das vítimas ter se envolvido numa briga com um homem ainda não identificado. Ele é suspeito dos crimes. O caso é investigado como homicídio e tentativa de assassinato.
As marmitas foram doadas por voluntários e os sem-teto que morreram são José Luiz de Araújo Conceição, de 61 anos, e Vagner Aparecido Gouveia de Oliveira, de 37, que dormiam num posto de combustíveis abandonado da cidade. O cachorro das vítimas também morreu após ingerir a mistura com arroz, feijão, salada e salsicha.

Homens morrem depois de comer marmita
Veja íntegra da nota da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo
“A reportagem está baseada em informações que não condizem com a assistência prestada, nem sobre as orientações médicas referentes ao quadro paciente. Não há recomendação médica neste momento para transferência ou alta hospitalar.
A criança é acompanhada por equipe multidisciplinar, envolvendo inclusive a área de neurologia, além de pediatria, fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e o serviço social. O paciente permanece internado e, neste momento, o caso é estável. O hospital segue a disposição dos responsáveis para qualquer esclarecimento, como já vem fazendo.”
Espera no sistema Cross

Pacientes reclamam do sistema que regula leitos hospitalares em SP
A espera e as dificuldade por vagas no sistema da Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde (Cross) não é nova em São Paulo. O SP2 ouviu há das semanas histórias de pessoas que tentam fazer agendamento de consultas, exames e até cirurgias (veja vídeo acima).
Robson Dantas Vieira espera há dois anos para conseguir passar por um neurocirurgião. Ele precisa da avaliação de uma biópsia de um cisto encontrado após ter feito exames no Hospital das Clínicas, em julho de 2018.
Ele já abriu duas reclamações na Ouvidoria do município, mas a resposta que recebeu não resolve o problema. “A funcionária da UBS me ligou e me informou por telefone que o meu pedido estava parado na Cross, não tinha nenhuma previsão de agendamento, que tinha uma alta demanda para essa especialidade e que tinha que aguardar”, disse Dantas.
Lucimere da Conceição de Santana, de 49 anos, morreu por causa de um mioma. Segundo os filhos, no final de junho a mãe procurou um posto de saúde com muita dor na barriga. Ela chegou a ser internada no Hospital do Grajaú e recebeu encaminhamento para o Hospital Pérola Byington, que é especializado em saúde da mulher e só recebe pacientes do sistema Cross.
O posto de saúde conseguiu uma vaga no sistema para Lucimere ser atendida, mas ela morreu dois dias antes da consulta, nos braços do filho Jonathan.
“Enquanto eu tava dando banho nela, ela ficou com falta de ar, a pressão baixou e ali mesmo no momento que eu percebi que eu tinha perdido minha mãe porque ela não respondia, não me escutava, e junto com os enfermeiros eu coloquei minha mãe numa maca e ela nem reclamou de dor. Ali eu já sabia que eu tinha perdido a minha mãe”, conta Jonathan Santana de Oliveira, filho da Lucimere.
A Cross foi criada pelo governo do estado em 2010 para regular a demanda e a oferta de leitos hospitalares da rede pública. O processo inicia quando um paciente busca atendimento numa unidade de saúde. Lá o médico avalia que é preciso uma atenção especializada que aquele local não dispõe. Para esse atendimento, a Cross é acionada.
Um médico da central recebe o pedido e procura hospitais no estado que ofereçam a especialidade. Se ele encontra um leito disponível, o hospital pode recusar o atendimento, e a central continua tentando até encontrar uma unidade que aceite o paciente. Quando isso acontece, ele é transferido para receber o atendimento de que precisa.
No mês de julho só no módulo ambulatorial foram 867 mil consultas e 577 mil exames, no módulo Urgências cerca de 77 mil regulações de urgência e emergência, sendo cerca de 15 mil regulações de Covid-19 por mês.
A Secretaria Estadual da Saúde informou que o nome do paciente Robson Dantas Vieira não consta no sistema. O último registro foi uma ressonância agendada em 2015, cancelada a pedido do próprio paciente. Sugerimos à reportagem que verifique com a unidade que teria dado encaminhamento para neurocirurgia quais medidas foram tomadas sobre o caso.
A Prefeitura de São Paulo informou que a solicitação de exame dele foi incluída em um sistema de agendamento próprio da capital e que esse sistema segue ordem cronológica e de prioridade clínica.
A Secretaria estadual da Saúde informou ainda que, com relação ao caso da paciente Lucimere da Conceição de Santana, ela deu entrada no Pronto Socorro do Hospital Geral do Grajaú no dia 1º de julho. Fez tomografia e, devido à suspeita de câncer, foi agendada consulta em oncologia para o dia 14 de julho no Pérola Byington.
Ainda de acordo com a pasta, no dia 4 de julho, a paciente retornou ao hospital, já com quadro grave e foi mantida internada. Apesar de todos os cuidados, faleceu em 12 de julho após rápida piora clínica. O hospital se solidariza com a família e está à disposição para esclarecimentos.
