Projeto nas Veredas do Peruaçu recupera água e vegetação perdidas após incêndio

Área de mais de 500 hectares atua no equilíbrio hidrológico local e abastece bacias da região — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo 1 de 8
Área de mais de 500 hectares atua no equilíbrio hidrológico local e abastece bacias da região — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo

Área de mais de 500 hectares atua no equilíbrio hidrológico local e abastece bacias da região — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo

Do fogo se fez a água. A “mágica” é fruto de um esforço intenso provocado por um trabalho coletivo realizado nas Veredas do Peruaçu. Em uma área rica em biodiversidade e capaz de garantir o sustento de inúmeras famílias que ali habitam, um projeto está sendo capaz de recuperar uma reserva em Januária (MG), após uma devastação gigantesca.

O restabelecimento do local ocorre em uma extensão de quase 500 hectares, o que equivale a 80% da vereda. Nessas áreas, solos arenosos como esponjas conservam uma camada rica em matéria orgânica. Pela condição rebaixada onde se situam, a vereda fica encharcada quando há chuva, mas é capaz de liberar água para a superfície lentamente, mesmo ao longo do período seco.

Observe como era a condição das Veredas do Peruaçu, parcialmente destruídas depois de um incêndio — Foto: Terra da Gente 2 de 8
Observe como era a condição das Veredas do Peruaçu, parcialmente destruídas depois de um incêndio — Foto: Terra da Gente

Observe como era a condição das Veredas do Peruaçu, parcialmente destruídas depois de um incêndio — Foto: Terra da Gente

É por essas condições que estar em meio a uma das regiões mais áridas do Brasil, o Norte de Minas Gerais, não impede que reservas preciosas de água se tornem verdadeiros oásis. Mas no mesmo terreno em que há a vida, o desenvolvimento de ameaças se torna muito forte. “Há um substrato rochoso da vereda que tem muito carbono. É um material poroso que queima de forma lenta e subterrânea”, explica Rafael Chaves, analista ambiental do IBAMA.

Foi se aproveitando dessa dinâmica que um incêndio em fevereiro de 2017 exterminou o local. O fogo, que começou em um sítio particular, se alastrou por nove meses e fez o oásis se tornar um deserto. Entre as grandes perdas: florestas de buritis, palmeiras de origem amazônica que servem de alimento e abrigo para inúmeras espécies. O Terra da Gente mostrou a situação da área no início de 2020, quando também se encaminhavam os esforços para reverter esse cenário.

Veja qual era a condição das Veredas do Peruaçu antes da obtenção de resultados mais efetivos quanto à barragem

Veja qual era a condição das Veredas do Peruaçu antes da obtenção de resultados mais efetivos quanto à barragem

Sob a responsabilidade técnica do professor do Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Flávio Pimenta, a construção de uma barragem foi idealizada. O projeto proposto pelo IBAMA e ICMBio foi aceito pelo Ministério Público e, em 2018, as ações foram iniciadas. Uma vala de quatro metros de profundidade e 240 metros de comprimento foi aberta pelas instituições CimVales e ABMinas para acomodar uma lona, capaz de reter a água.

Prefeituras das cidades de São João das Missões, Januária e Itacarambi, juntamente com o Instituto Estadual de Florestas, auxiliaram com a doação de mudas de plantas nativas. Elas foram plantadas por brigadistas do Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (PREVFOGO – MG) e membros da Cooperativa dos Agricultores Familiares e Agroextrativistas do Vale do Peruaçu (Cooperuaçu). E até as comunidades locais do Peruaçu e as indígenas, por meio da intervenção da FUNAI, foram colaboradoras do processo.

O maior dos viveiros instalados possui uma capacidade de produção de cerca de 10.000 mudas por ano e auxiliará no desenvolvimento de atividades de educação ambiental junto a escolas e moradores da região

Imagens aéreas das veredas mostram retomada da vegetação local com a barragem — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo

Embora os efeitos do projeto sejam lentamente sentidos na vida do sertanejo, os registros feitos por drones captados pelo Instituto Grande Sertão (IGS) já mostram diferenças claras no nível de água retido. “As imagens são nítidas e já detectamos uma diferença nos níveis da água subterrânea: 20 centímetros mais elevados com relação ao poço localizado abaixo. Destacamos que a divulgação desses dados pela APA Cavernas Peruaçu e pelo Mosaico Sertão Veredas foi determinante para que esse tipo de resultado chegasse à população”, descreve Rafael Chaves.

Infelizmente, a expectativa de vida de ambientes como esses é curta e a constatação não é de hoje. Os próprios pesquisadores estimam que 70% dessas reservas corram risco de desaparecer por conta do desmatamento, das queimadas, da construção de estradas e da agropecuária irresponsável. Uma estatística que também assombra a fauna e flora dependentes dessas condições ambientais, além dos grupos populacionais que ali ocupam.

A ação humana destrutiva e a seca dos últimos cinco anos fizeram com que o bioma Cerrado e as áreas de veredas alcançassem índices altíssimos de degradação de água, solo e biodiversidade

Diferença na recuperação das áreas de veredas é notável e anima os pesquisadores — Foto: Instituto Grande Sertão /Acervo 3 de 8
Diferença na recuperação das áreas de veredas é notável e anima os pesquisadores — Foto: Instituto Grande Sertão /Acervo

Diferença na recuperação das áreas de veredas é notável e anima os pesquisadores — Foto: Instituto Grande Sertão /Acervo

Se o fogo é um componente cultural em comunidades indígenas para limpeza de terreno e até na vida de médios e grandes produtores, com o intuito de transformar as veredas em áreas de pastagens, os especialistas trabalham também para promover a educação de prevenção de incêndio e o combate a esse tipo de drenagem na paisagem. Tão necessário quanto construir uma barragem para garantir a permanência da água, é ser capaz de barrar ações que a exterminem.

Imagens aéreas ajudam a dimensionar a recuperação obtida na área das veredas — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS) 4 de 8
Imagens aéreas ajudam a dimensionar a recuperação obtida na área das veredas — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)

Imagens aéreas ajudam a dimensionar a recuperação obtida na área das veredas — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)

Agora, no auge do período seco, as equipes já identificam áreas inundadas na região e atribuem essa situação à presença da barragem. Rafael afirma que comunidades estão sentindo esse efeito da presença da água e, exatamente por esta mudança, novos projetos de barragens são idealizados para outras partes do local. “Existe um componente social envolvido com as veredas. Se a água vai embora, as pessoas também se vão. A água proporciona mudança e o projeto não é para revitalizar uma área, é para revitalizar a sociedade”, afirma o analista ambiental.

Veja mais registros da área:

Retorno da fauna observado também é um indício forte da eficácia do projeto na região das veredas — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo 5 de 8
Retorno da fauna observado também é um indício forte da eficácia do projeto na região das veredas — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo

Retorno da fauna observado também é um indício forte da eficácia do projeto na região das veredas — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo

Alguns anos de análise dos resultados devem suceder as ações do projeto para avaliação da retomada da biodiversidade local — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo 6 de 8
Alguns anos de análise dos resultados devem suceder as ações do projeto para avaliação da retomada da biodiversidade local — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo

Alguns anos de análise dos resultados devem suceder as ações do projeto para avaliação da retomada da biodiversidade local — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo

Comunidades rurais da região Norte de Minas Gerais se abastecem na região de veredas — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo 7 de 8
Comunidades rurais da região Norte de Minas Gerais se abastecem na região de veredas — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo

Comunidades rurais da região Norte de Minas Gerais se abastecem na região de veredas — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo

Regiões alagadas em meio ao ambiente árido favorecem o desenvolvimento de uma biodiversidade única e da autossuficiência da população — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo 8 de 8
Regiões alagadas em meio ao ambiente árido favorecem o desenvolvimento de uma biodiversidade única e da autossuficiência da população — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo

Regiões alagadas em meio ao ambiente árido favorecem o desenvolvimento de uma biodiversidade única e da autossuficiência da população — Foto: Eduardo Gomes de Assis (IGS)/Acervo

By Tribuna ABC

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