1 de 1Moradora morreu após passar por 10 atendimentos na UPA Central de Santos — Foto: Susan Hortas/Prefeitura de Santos
Moradora morreu após passar por 10 atendimentos na UPA Central de Santos — Foto: Susan Hortas/Prefeitura de Santos
Os procedimentos prestados a uma moradora de Santos, no litoral de São Paulo, que morreu após passar por 10 consultas na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Central do município, foram alvo de questionamento na Câmara Municipal. A vereadora Telma de Souza (PT) apresentou um requerimento por informações para apuração do caso.
Conforme apurado pelo G1, o documento foi apresentado em sessão ordinária dos vereadores, realizada à distância na última quinta-feira (25), e cobra respostas a respeito do atendimento prestado à moradora, que morreu no dia 19 de junho, além do prontuário completo do serviço médico. No requerimento, a vereadora aponta que em nenhuma das idas à UPA a moradora teve um atendimento que procurasse investigar as causas dos problemas de saúde que sentia.
Ao G1, Telma explicou que a moradora vivia em situação de rua e era dependente química, além de estar grávida, quando recebeu apoio de programas de política pública há pouco mais de um ano. Com a ajuda, ela superou a dependência, conseguiu uma casa e um emprego para que, assim, pudesse cuidar do filho recém-nascido.
No entanto, a moradora começou a sentir dores de cabeça, que passaram a ser cada vez mais intensas há cerca de um mês, conforme explica a vereadora. O primeiro atendimento aconteceu no dia 3 de junho, quando deu entrada na UPA Central com dores de cabeça e de ouvido. Telma afirma, porém, que em nenhuma das consultas a paciente foi diagnosticada.
“Ela se recuperou de um histórico muito pesado, tinha endereço fixo e um emprego, tudo aquilo que a vida considerada normal exige do cidadão, e para nós era uma vitória fantástica. O que aconteceu com ela foi trágico”, afirma a vereadora. O filho da paciente completou um ano em 18 de junho, um dia antes da morte da mãe.
Segundo Telma, a paciente também era atendida e auxiliada por uma equipe do Consultório na Rua e por profissionais, professores e estudantes da PET Saúde e das universidades Unifesp e Unilus. “Foi um conjunto de ações, tudo isso para que a gente conseguisse tirar ela da rua e dar uma esperança de vida”.
Além do requerimento, a vereadora solicitou, em 2019, a abertura de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar a administração das UPAs de Santos, geridas por Organizações de Saúde (OS). A parlamentar, no entanto, não obteve as assinaturas necessárias para abertura da comissão.
A prefeitura relata que a paciente era acompanhada desde o fim de 2018 pelas redes de Saúde e de Desenvolvimento Social de Santos, com histórico de atendimento pela equipe do Consultório na Rua e de abrigamentos no Albergue Noturno e na Casa das Anas. Ela também recebia assistência nas policlínicas da Vila Nova e Porto, era encaminhada para consultas com médicos dos Ambulatórios de Especialidades (Ambesp) e realização de tomografias computadorizadas, devido a prévio ferimento por arma de fogo.
No dia 19 de junho, pela manhã, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) atendeu chamado na residência da paciente, no Centro de Santos. Ela estava em parada cardiorrespiratória e foi levada à UPA Central em processo de reanimação, mas, infelizmente, foi a óbito na unidade. A pasta informa que irá responder ao requerimento da vereadora e está apurando todos os atendimentos prestados à paciente na UPA, junto à organização social gestora do equipamento.
Gestão da UPA
Em nota, a Fundação do ABC, gestora da UPA Central de Santos, afirma que ofereceu toda a assistência disponível na unidade à paciente em questão. Em todas as ocasiões, a queixa era a mesma: dor de ouvido e dor de cabeça. Contudo, não houve adesão aos tratamentos receitados. Nas diversas passagens da paciente pela UPA, ela realizou exames laboratoriais, raio-X de crânio, otoscopia, passou por avaliação médica e foi medicada conforme as queixas apresentadas. Em função da recorrência dos sintomas, foi feita orientação para seguimento ambulatorial na policlínica, para acompanhamento com otorrinolaringologista.
A fundação relata que foi informada que a paciente não seguiu a orientação para o agendamento com o médico especialista. Da mesma forma, no dia 18 de junho, na última consulta médica realizada pela paciente, foi relatado que a mesma não estava tomando os antibióticos receitados. Nesse mesmo dia, a paciente passou novamente em atendimento médico e apresentou todos os sinais vitais normais, sem febre, sem falta de ar, com pressão arterial e frequências cardíaca e respiratória normais. Foi classificada como em bom estado geral, medicada e teve alta com nova receita de antibioticoterapia.
Na manhã do dia 19 de junho, a paciente deu entrada na UPA trazida com quadro de parada cardiorrespiratória iniciado há 20 minutos. A equipe da UPA realizou todos os procedimentos de ressuscitação, mas infelizmente a paciente veio a óbito.
A gestora conclui dizendo que, conforme informado anteriormente, todos os exames realizados apresentaram resultados normais, o que indica que o evento que levou a paciente à óbito, provavelmente, não estaria relacionado às queixas de dor de ouvido e de dor de cabeça. Contudo, em função da pandemia de Covid-19, o Serviço de Verificação de Óbito do Estado está suspenso, o que impede que a causa da morte seja devidamente esclarecida.
