1 de 4Luciene Aquino em conversa de vídeo com Joabe Garozi — Foto: Arquivo pessoal
Luciene Aquino em conversa de vídeo com Joabe Garozi — Foto: Arquivo pessoal
Luciene de Aquino foi adicionada recentemente ao grupo “É divera” em um aplicativo de mensagens. Lá, estão reunidos a mãe dela, os irmãos, os sobrinhos e os primos. Tem interagido com todos, mas ainda vê como uma novidade ser tratada por eles como filha, irmã, tia ou prima. Afinal, ela entrou no grupo da família no momento em que os conheceu. Isso foi há duas semanas, aos 46 anos de vida.
A tecnologia, que hoje ajuda Luciene a se conectar com os familiares, foi a ponte para o encontro dela com a família biológica. Em São José dos Campos, interior de São Paulo, o administrador Joabe Garozi, de 33 anos, buscava há anos uma irmã que ainda não conhecia, mas sabia da existência.
Em Maceió, Luciene também procurava a família biológica desde quando descobriu que foi adotada pelos pais de criação. Graças a uma publicação de Joabe em uma rede social, compartilhada por outras pessoas, um encontrou o outro.
Ainda neste mês, o primeiro encontro presencial deve ocorrer. Um teste de DNA também será feito, mas eles dizem que por mera formalidade. As informações dos dois lados da história bateram em todos os detalhes. Eles dizem ter certeza que são da mesma família, que têm o mesmo sangue.
“Está sendo muito emocionante. Tudo para mim é novo, encontrar minha mãe, meus irmãos… A primeira vez que me chamaram de tia (no grupo da família), fiquei emocionada. É muito emocionante”, contou Luciene.
2 de 4Luciene Aquino tem conversado com a família diariamente — Foto: Arquivo pessoal
Luciene Aquino tem conversado com a família diariamente — Foto: Arquivo pessoal
“A ficha não caiu ainda. Dá uma sensação de preenchimento. É como se agora não faltasse mais nada. Como se tudo que a gente precisa está em volta. É uma sensação de que o coração está preenchido, não fica mais aquela brecha. Parece que é um sonho. É difícil explicar”, acrescentou Joabe.
Onde tudo começou
O ano era 1973. Almery Pereira de Sousa, mais conhecida como Mézia, desembarcou em Maceió (AL) acompanhada do marido, João, e de uma filha de três anos. A família tinha vindo da Bahia e se mudou para o município alagoano porque o João encontrou um emprego como mestre de obras. Após a chegada, Mezia engravidou.
Mas, durante a gestação, João foi embora. Deixou Mézia grávida e com a filha de três anos. Ela, que tinha 24 anos, foi acolhida por um casal de amigos. Em junho, deu à luz a uma menina. Era Luciene, que inicialmente foi chamada de Joelma.
A mulher do casal de amigos, Pedrina, não podia ter filhos. Ela ficou muito apegada a Luciene e fez a proposta de ficar com o bebê. Mezia conta que o amor pela filha sempre foi muito grande, mas sozinha e já com outra filha, acreditou que o melhor para a filha recém-nascida seria ser criada pelo casal de amigos. Pediu que mantivessem o nome de Joelma e contassem à criança sobre a mãe biológica.
“Na época, as condições para mim não deram. O pai me deixou com duas pequenas. Meu coração de mãe não queria deixar ela para trás. Mas a situação era muito difícil. Como mãe, sofri muito ao deixar. Mas realmente não dava. Foi um sofrimento muito grande esse tempo sem ela. Se eu colocasse o prato de comida, eu me preocupava se ela estava se alimentando… Graças a Deus, a encontramos bem”, contou Mezia, hoje com 69 anos.
3 de 4Mézia e os filhos; falta Luciene para a foto da família ficar completa — Foto: Arquivo pessoal
Mézia e os filhos; falta Luciene para a foto da família ficar completa — Foto: Arquivo pessoal
Mezia precisou deixar a casa do casal e, após um período em situação de rua, encontrou um outro casal que o ajudou a voltar para a Bahia. Lá, teve outros filhos. Entre eles, Joabe. Desde então, há 46 anos, buscava por notícias da filha.
“Esse momento (do reencontro) foi muito alegre. Foram muitos anos de busca. Não sabia como ela estava. A deixei com quatro meses. Para mim, foi uma luta. Não sei mexer muito com internet, então era difícil procurar agora. Mas, graças a Deus, conseguiram encontrar”, comemorou.
Busca pela irmã
No fim da adolescência, Joabe Garozi escutou uma conversa da mãe com a avó sobre o período em Maceió. Quando soube que tinha uma irmã que ainda não conhecia, quis encontrá-la. As informações que tinha, entretanto, eram muito escassas. Apenas o primeiro nome da irmã, o local de nascimento e algumas características do casal que adotou.
Há mais de dez anos, a busca não vinha surtindo efeito. Até que no último dia 23 de agosto, resolveu fazer uma publicação em uma rede social. Seguiu algumas regras para ter mais engajamento e publicou. Inicialmente, o post rendeu duas entrevistas para a imprensa de Maceió. Na rede social, algumas pessoas compartilharam o post. Até que, dois dias após a publicação, recebeu uma mensagem de alguém que acreditava conhecer a irmã que buscava. E passou as informações que tinha.
“Não sabíamos se ela sabia que era adotada. Então, começamos a vasculhar o Facebook dela e encontramos os filhos dela, meus sobrinhos. Entramos em contato com o marido da minha sobrinha, para não ser radical e chegar diretamente nela. A minha sobrinha falou que a mãe era adotada e queria muito encontrar a família biológica. Validamos algumas informações, tudo bateu. Daí entramos em contato com ela e, no mesmo dia, já fizemos uma conversa de vídeo. Desde então, estamos nos falando”, contou Joabe.
4 de 4Joabe Garozi, ao lado da irmã que mora em São José dos Campos, em chamada de vídeo com Luciene — Foto: Arquivo pessoal
Joabe Garozi, ao lado da irmã que mora em São José dos Campos, em chamada de vídeo com Luciene — Foto: Arquivo pessoal
Busca pela família biológica
Luciene Aquino descobriu que era adotada aos 15 anos, logo após o falecimento da mãe adotiva. Era uma adolescente, assim como Joabe quando descobriu a existência de uma irmã. E também passou a buscar informações da família biológica.
A família dos pais adotivos, entretanto, não deram muitas pistas sobre a mãe biológica. Ela conseguiu uma informação aqui, outra acolá. Mas eram poucas para chegar, efetivamente, a Mézia. Acreditava, portanto, que não conseguiria encontrar quem tinha o mesmo sangue que o dela.
Até que, em 25 de agosto, foi surpreendida com a notícia dada pela filha: a família biológica a tinha encontrado.
“Minha filha me ligou e começou a me perguntar algumas coisas, como o nome da minha mãe. Depois que ela checou tudo, disse que a minha família tinha me encontrado. Fiquei em choque. Foi uma surpresa. Estou vivendo um sonho”, contou Luciene.
“Passamos dois dias conversando. A internet facilita muito. Há muitos anos seria mais difícil. Hoje em dia ficaria mais fácil. Meu esposo que fica com receio ainda, pois foi tudo muito rápido. Vamos fazer o DNA, mas é só para confirmar mesmo. As informações já bateram todas. Estamos muito felizes”, acrescentou.
